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Terça, 3 de janeiro de 2012, 08h03

Câncer: A difícil arte da inovação

Riad Younes
De São Paulo

Imaginem a seguinte situação (e não precisa sonhar muito, ela ocorre todos os dias nos consultórios dos oncologistas!). Um paciente com câncer, sendo tratado com esquemas de quimioterapia. Nos primeiros meses, o tratamento funcionou. Os tumores diminuíram de tamanho. O paciente começou a se sentir melhor. Voltou às suas atividades diárias, rotineiras e sociais. No mais recente exame, no entanto, sinais de alerta. Alguns nódulos voltaram a crescer. O tumor, ou parte dele, começou a não responder de forma adequada à quimioterapia. O médico declara doença em progressão. Alternativas? Novo esquema de quimioterapia com outras drogas. O ciclo recomeça. Tumores diminuem de volume novamente. Mas, como ocorre com a maioria dos pacientes, infelizmente, a doença progride novamente. E agora? As opções ficam cada vez menores. Até se esgotarem. Aí vem a pergunta de sempre? Não tem nada novo?

Os problemas começam por aí. Os laboratórios de pesquisa científica, e as indústrias farmacêuticas "vivem" da procura de novas substâncias ativas contra uma variedade de doenças, entre elas o câncer. Mas esta procura está ficando cada vez mais restrita. Complicada.

Um alerta foi lançado na prestigiada revista médica Jama, no dia do Natal de 2011, por duas cientistas da Universidade de Califórnia, em São Francisco, e do Centro de Avaliação e Pesquisa de Drogas Novas, ligado à agência federal de drogas (FDA) dos Estados Unidos. As doutoras Laura Esserman e Janet Woodcock afirmaram, preocupadas, que "o desenvolvimento de drogas novas está se tornando progressivamente mais caro - e as drogas contra o câncer, particularmente, apresentam taxas muito elevadas de insucesso clínico".

Muitas drogas de grande "potencial e promissoras", alardeadas pela mídia, acabam não tendo efeitos benéficos nos pacientes. São deixadas de lado e esquecidas. As doutoras acrescentam que "o retorno financeiro sobre o capital investido no desenvolvimento de drogas novas é inferior a 0,3%... A um estimado custo de um bilhão a 1,8 bilhões de dólares para a descoberta de cada droga nova de sucesso, o financiamento para tais aventuras arriscadas está diminuindo".

Para o paciente com câncer, vendo suas opções desaparecerem rapidamente, o desespero é enorme. "Não tem nada mais frustrante do que o processo de desenvolvimento e aprovação de uma droga oncológica. Se nós oncologistas ficamos frustrados, imaginem os nossos pacientes que são portadores de um câncer avançado e que precisam, o mais rápido possível, de novos tratamentos para suas enfermidades. Os pacientes com câncer literalmente lutam contra o tempo. O inimigo simplesmente não espera", afirma o Dr. Antonio Carlos Buzaid, oncologista clínico e Diretor do Centro de Oncologia do Hospital São José, em São Paulo.

Segundo Dr. Buzaid, "o custo para o desenvolvimento de uma droga nova é da ordem de dois a três bilhões de reais, e isto se deve ao empiricismo que norteia a pesquisa clínica em oncologia. Selecionamos mal os pacientes que mais provavelmente vão se beneficiar da droga nova, usamos desfechos como sobrevida global que demandam grande número de pacientes, e temos que esperar anos para que o número de eventos necessário para análise estatística ocorra. Hoje é assim que fazemos pesquisa clínica."

O alerta das cientistas americanas e do Dr. Buzaid convergem na necessidade de mudança clara na forma de avaliação, de desenvolvimento, e de aprovação de drogas novas para câncer. Em vez de esperar os famosos cinco anos para ver quem sobrevive dos pacientes tratados, alternativas mais rápidas e cientificamente comprovadas, poderiam encurtar este processo, e obviamente barateá-lo. Afinal a pesquisa em doentes custa milhões!

- Uma estratégia que está sendo fomentada pelo FDA se baseia em indicadores de sucesso intermediários, também chamados de surrogates. Por exemplo, no caso de câncer de mama, a constatação de resposta patológica completa (desaparecimento total dos tumores no início do tratamento quimioterápico) irá funcionar como um surrogate, indicando alta probabilidade de mais prolongada sobrevida a longo prazo do paciente - acrescenta Dr Buzaid.

- Outros estudos estão utilizando análise de marcadores no próprio tumor do paciente para predizer as chances de sucesso de um tratamento. Se o estudo confirmatório confirmar a eficiência já nos indicadores iniciais, a droga será então aprovada em regime de avaliação acelerada. Esta estratégia irá diminuir o tempo e o custo para o desenvolvimento de uma nova droga e talvez diminuir também o custo final após a aprovação - completa.

As agências federais de avaliação, como o FDA nos Estados Unidos e a ANVISA, no Brasil, terão que mudar, e reavaliar seus processos. Assim, esperamos, médicos e pacientes.


Riad Younes é professor Livre Docente da Faculdade de Medicina da USP. Médico do Centro Avançado de Oncologia do Hospital São José e do Núcleo Avançado do Tórax do Hospital Sírio Libanês, São Paulo. Especialista em câncer de pulmão. Foi Diretor Clínico do Hospital Sírio Libanês de março 2007 a março 2011.

Fale com Riad Younes: rnyounes@terra.com.br

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