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Quinta, 5 de janeiro de 2012, 08h05 Atualizada às 09h05

Detalhes

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

O diabo mora nos detalhes. Não sei se é um provérbio ou outro membro da família genérica dos ditados. Parênteses: sei que as classificações, sempre provisórias, são cruciais para o avanço do conhecimento, mas não tenho muita cabeça para elas. Apesar disso, e ao contrário de muita gente boa (que se acha, quero dizer), não as desdenho, muito menos acho que aqueles que as propõem mereçam desprezo. Ao contrário, de mim merecem uma envergonhada inveja.

Mas, eu dizia, o diabo mora nos detalhes. Vou comentar três: dois que ouço sempre e outro que vejo cada vez mais. Não quero repetir um clichê, que se trata da ponta de um iceberg. Mas acho que se trata.

Dos que ouço, um é frequente em narrações esportivas. Começou a aparecer na era da "objetividade": número de passes certos e errados, de escanteios, de finalizações em gol e fora do gol, de cuspidas, de arrumação de cabelos, de recados na câmera depois dos gols, de coraçõezinhos a la Pato etc.

Os locutores, dos mais aos menos bem falantes, dizem "retomar" ou "recuperar a posse de bola". Recuperar a posse, retomar a posse. Pois é. Não acho propriamente estranho, nem dói no meu ouvido (se doer, vou a um otorrinolaringologista). Mas, para "eles", que se regem pelos manuais de redação, a fórmula deveria ser estranha. Recupera-se ou se retoma a bola, e não a posse de bola (diria o prof. Pasquale). Ou não, Milton Leite e coleguinhas?

Outra dos canais de esporte: chamam atenção (pelo menos a minha) os infinitivos de Paulo César Vasconcelos, dos canais "fechados" - mas bem abertos à propaganda - da Globo. É o único que ainda os profere (ele merece esse verbo): diz, ao contrário de todos nós e de todos os colegas dele, jornalistas, boleiros e ex-boleiros, "correr", "marcar", e não "corrê", "marcá" etc. Podem conferir. Estudos sobre os rr do português mostram que já caíram em finais de verbo, mesmo na "norma" culta. É um fato - quem não acredita, que ouça e se ouça. Seu emprego parece coisa antiga. Caem também em finais de sílabas de outras classes de palavras e mesmo em sílabas internas, como em "forte" ou "Borges". Mas, nesses casos, caem menos, caem variavelmente. Nos finais de verbos, a queda é total. Às vezes, voltam, mas só às vezes.

Nada contra o estilo de Paulo César. Mas chama atenção. E lembra as teses de Labov sobre hipercorreção. Para o sociolinguista americano, ela resulta da insegurança social, que se revela na insegurança linguística. Mas não vou "psicanalisar" o jornalista. Estou farto da pseudociência de final de ano. Bastam os economistas e os videntes.

Mas o pequeno fato de mais chama minha atenção é a abreviação "Profo". É obviamente comum, e faz todo o sentido, abreviar "Professora" como "Profa". O "a" superescrito é o final da palavra, e aparece também em "Dra." ou "Dra" etc. Mas o "ozinho" na abreviação de "Professor" só faria sentido se a palavra fosse "professoro".

Brincando, pergunto aos alunos que, sistematicamente, apresentam seus trabalhos ao "Profo. Sírio", se analisam o caso como influência do japonês em nossa língua. Eles riem. Alguns abandonam o hábito. Outros continuam, imperturbáveis, a pendurar a vogal, o que me faz pensar que é um gesto automático. Que, na escrita, é sempre ruim.

O lugar em que mais estranhei a ocorrência foi o canal Viva, que reprisa programas antigos da Globo (que eram melhores). Está lá: Escolinha do Profo. Raimundo.

O profo. Sérgio Duarte Nogueira não viu?


Sírio Possenti é professor titular do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso, Língua na Mídia e Questões de linguagem.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

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