Terra Magazine

 

Sexta, 6 de janeiro de 2012, 13h38 Atualizada às 16h54

Líder indígena denuncia morte de criança queimada no MA

Eliano Jorge

Um representante dos indígenas Guajajara afirma que madeireiros mataram uma menina da etnia Awá-Gwajá, ateando fogo nela, numa área de mata, em Arame, no Maranhão. Ainda não há precisão sobre a data em que ocorreu o crime. A região vem registrando uma série de agressões a índios nos últimos meses.

Os Awá-Gwajá mantêm-se isolados, sem contato com outras tribos ou com os não-indígenas. A Fundação Nacional do Índio (Funai) e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) alegam que souberam do assassinato apenas nesta semana e buscam mais informações.

Outro indígena, que também se identificou como pertencente à etnia Guajajara, em conversa com Terra Magazine, confirmou o homicídio:
- Dia 30, por aí assim. Foi dentro do mato. Os madeireiros estavam comprando madeira na mão dos índios (Guajajara) e acharam uma menininha Gwajá. E queimaram a criança. Só de maldade mesmo. Ela é de outra tribo, eles vivem dentro do mato, não têm contato com os brancos, são brabos.

Ele admitiu que sua etnia Guajajara descumpriu a lei ao negociar madeira, mas se queixou da invasão naquele território. Reclamando de "muita discriminação" e violência contra indígenas, atestou:
- Quase todo dia em Arame. Os brancos ficam batendo nos índios lá. Não acontece nada, ninguém resolve nada. A gente não sabe nem contar mais porque são muitos casos. Eles (da Funai) sabem. A gente informa e...

Sobre providências tomadas pela Funai, ele respondeu com desânimo: "Hum, pior". E incluiu a polícia: "Eles não resolvem nada". Recentemente, houve protestos de indígenas na região.

- O último caso que aconteceu foi que bateram num índio, na praça pública de Arame. Espancaram demais. Não se sabe com quem fala quando acontece isso. A polícia não resolve, né? Nem os casos deles (não-indígenas). Não tem quem socorra, para a gente falar depois quando acontece assassinato de índio. Fica por isso mesmo - lamentou o Guajajara.

Registros oficiais

Um funcionário da Funai que prefere o anonimato disse que a entidade enfrenta dificuldades por ter sofrido um processo de intervenção e interrompido suas atividades. Informa também que os dados de 2011 sobre agressões contra indígenas ainda não estão prontos. Porém, ratifica: "São muitos casos que acontecem durante o ano"

Relatório do Cimi aponta 452 assassinatos de indígenas no Brasil entre 2003 e 2010. Em 2007, foram noticiadas 92 homicídios. Em cada um dos três anos seguintes, foram 60. As estatísticas do ano passado devem ser divulgadas em março.

Veja também:
» Índios realizam protesto para provar que existem
» Tribo nômade no Maranhão enfrenta madeireiros e colonos
» Funai exonera lider indígena kayapó que se opõe a Belo Monte
» No Pará, assentados sofrem pressões de grileiros e madeireiros
» Em 25 anos, só 1 a cada 13 assassinatos no campo foi julgado
» MPF considera genocídio ataque a índios no MS
» AC: Funai suspeita de matança de índios isolados por paramilitares do Peru
» Em RO, líder indígena é ameaçado de morte
» Massacrados na "guerra justa", os Tarumã continuam vivos
» Siga Bob Fernandes no twitter

 

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol