José Pedro Goulart
De Porto Alegre (RS)
O cineasta Jonathan Demme costumava terminar seus filmes com uma frase, sempre escrita em português, "a luta continua". A convocação viria da Revolução do Cravos em Portugal, por isso o idioma. Lembro de ficar esperando os filmes dele até o último crédito, só para ler aquilo. O primeiro que me vem à lembrança, Totalmente Selvagem, é de 1986; naquela época não havia dúvida de contra quem que era a luta e que existia um lado a ser escolhido. E a luta ainda contrabandeava uma resistência à família patriarcal; às repressões religiosas.
Debruçado em 2012, penso no dístico. Ele faz algum sentido hoje em dia?
As tentativas de poder por parte da esquerda suportaram mal e mal algumas décadas, as que sobraram, ou definham, como Cuba, ou criaram um sistema transgênico que mistura ditadura, capitalismo dissimulado, socialismo conveniente, como a China. Quanto à família e às religiões, nada abala seus pilares, ao contrário, os gays se unem no afã de se casar e a Bíblia é praticamente distribuída nas igrejas com boleto bancário como marcador de páginas.
Da tríade da flâmula francesa, liberdade, igualdade, fraternidade, resumo da Revolução que inventou a esquerda, restou uma bandeira desbotada. Fraternidade só de resultados, ou irmandades por interesse, que cria ainda mais rivalidades sob cores, raças ou credos. E se sobrou alguma certeza nesse século de divagações é a de que o ser humano quer ter liberdade para ser desigual.
A revista Time colocou "O Protestador" na capa. Mas o manifestante ao qual a revista se refere não é o ser consciente a la Jonathan Demme, que acha que a luta tem um propósito geral, ecumênico - um idealista. O sem face da revista é o sem emprego da Europa, ou o sem democracia das nações árabes, ou o sem direito junto ao capital financeiro desgovernado da América. Ou seja, o sujeito que luta por si. O indivíduo que se junta a outros indivíduos na busca de direitos... individuais. O que faz esse sujeito quando chega ao poder?
"Mais fortes são os poderes do povo" bradou o capitão Corisco rodopiando para à morte defronte a câmera (na mão) de Glauber Rocha, ele mesmo Deus e o Diabo na Terra do Sol. Era final dos sessenta, a década onde se imaginou que tudo "iria" acontecer. Porém o sertão não virou mar, nem o mar sertão. A Terra Brasilis do sol, do Glauber, em parte empurrada pelo consumo da classe C já é a sexta economia do mundo. O "povo" no poder, no entanto, não quer nada com filmes glauberianos, o povo é cortejado pela mídia com programas popularescos, com farta distribuição daquilo que ele presumivelmente deseja, BBBs, UFCs, CQCs, e uma quantidade paralisante de informação como que saída de um loja de 1,99 .
Adulada também pela publicidade, a classe C dita a nova ordem na música, no cinema, na TV, na estética urbana. O poder é de quem consome. Do outro lado da cena, imiscuídos em salas acondicionadas, cujo carpete divide os Vips, administrados por bancos ou cartões de créditos, a antiga liderança cultural torce o nariz para a massa, enquanto insiste em cobrar ingressos de três dígitos para justificar sua luta asséptica pela arte.
A juventude, com seu presumível combustível vital, talvez pudesse incendiar essa vida palha, mas de cabeça baixa, de olho no novo aplicativo do smartphone, é difícil mirar o horizonte.
"O horror é que, pela primeira vez, vivemos num mundo onde não conseguimos imaginar um mundo melhor." A desconfiança é do filósofo alemão Theodor Adorno. E não é de hoje. Adorno morreu em 1969. Cinco anos antes de Jonathan Demme realizar seu primeiro filme.
De qualquer forma cabe a pergunta: restou alguma luta pela qual vale a pena continuar?
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A revista Time colocou "O Protestador" na capa. Mas o manifestante ao qual ela se refere não é um idealista. O sem face é o sujeito que luta por si
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