Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)
Recebo uma ligação da jornalista Maíra Azevedo do jornal A Tarde, em Salvador - preparando matéria sobre a tradicional Festa do Bonfim - e perguntando pelo Hino ao Senhor do Bonfim (composto em 1923), marca musical registrada da Bahia, capaz de comover multidões.
O Hino foi incluído na paleta da Tropicália, em 1968, através da gravação histórica de Caetano Veloso (Panis et Circensis), contribuindo inclusive para a formatação estética do movimento (soando o diapasão do inesperado, quem poderia prever tal escolha?), e certamente atravessou as fronteiras até os dias de hoje, arrastando consigo tradicionais filarmônicas, guitarras elétricas e afoxés
- provavelmente deveria falar em antiformatação com relação à Tropicália, justamente pela escolha em ultrapassar suavemente (escandalosamente) discursos pseudo libertadores restritivos - seja na seara da representação do nacional, seja na transformação da sociedade.
Maíra me pergunta: então, por que esse Hino ficou tão popular, tão conhecido? Esse tipo de pergunta nunca é simples, por que sendo o sucesso imprevisível, dizer a posteriori suas causas quase sempre vira um jogo complacente, chovendo no molhado daquilo que já aconteceu. Mesmo assim, fico pensando no desafio da pergunta.
Lembro logo de saída que o sucesso do Hino não pode ser atribuído unicamente ao conteúdo musical sonoro (essa expressão merece reflexão posterior) - ou seja, há no processo de sua adoção como símbolo de pertencimento uma série de mecanismos atuando em conjunto:
Glória a ti neste dia de glória
glória a ti redentor que há cem anos
nossos pais conduziste à vitória
pelos mares e campos baianos
Desta sagrada colina
mansão da misericórdia
dai-nos a graça divina
da justiça e da concórdia
Uma breve consideração do seu texto nos lembra que o Hino foi feito por ocasião do centenário da vitória da guerra de independência do Brasil na Bahia - retomando o fato de que a imagem foi apropriada pelos portugueses e depois reconquistada e levada de volta ao seu lugar na colina sagrada.
Há, dessa forma, embutido no Hino, o espírito desse marco histórico. O Senhor do Bonfim baiano enfronhando-se com o Dois de Julho. E talvez, mais do que a vitória, o que ressoa e permanece é a promessa de justiça e de concórdia.
Estou querendo enfatizar o papel do Dois de Julho como mito fundador da Bahia, como possibilidade de uma nação brasileira. Lembrar a promessa de liberdade feita aos escravos que lutaram nesta guerra (não cumprida), e portanto, a indexação de todo esse episódio como marco de redenção da própria sociedade. Subir a colina é algo que tem muitos significados...
É também de concórdia que nos fala o branco a ser vestido para Oxalá. Foi possível, através do Hino, simbolizar algo que se afastava da realidade cruel de opressão e injustiça, subindo como coletividade a colina do Bonfim, lavando as pedras de sua igreja - aliás, da mesma forma que Xangô faz com Oxalá ao tirá-lo da injusta prisão por supostamente ter roubado o cavalo do Rei, quando, de fato, havia sido um presente, tudo isso no mito das 'Águas de Oxalá'. As águas de Oxalá são purificadoras, apagam a injustiça e restabelecem a concórdia...
A Festa do Bonfim deu uma oportunidade ao coletivo baiano de construir laços multiculturais de pertencimento (tropicalistas?), a oportunidade de fundir narrativas - e é uma pena que não haja um investimento potencializador desse traço tão importante, unindo a Bahia do passado a possíveis bahias do futuro.
Aliás, quem tem uma visão muito boa da filosofia da festa é Carlinhos Brown que ao longo dos anos desenvolveu verdadeiros espetáculos cênico-musicais no caminho entre a Conceição da Praia e o Bonfim.
O compositor baiano Paulo Chagas (atualmente professor da Universidade da Califórnia, em San Diego) decidiu caminhar para o Bonfim gravando os sons ambientes que transformou numa potente obra musical eletrônica apresentada no Carnegie Hall em 1996. Fico imaginando quantos produtos culturais (de relevância internacional) poderiam ser potencializados a partir dessas linhas...
Ex. Hino ao Senhor do Bonfim (Arthur Salles e João Antonio Wanderley)
(Foto: Reprodução)
A construção melódica do Hino não fica alheia a essas tensões e significados. Vale observar que toda ela se estrutura como uma subida, desde o gesto inicial - como se metaforizasse o próprio percurso na colina, a ascese religiosa (e ética?) da adoção do branco e da concórdia. Em procissões e novenas sempre é tocante observar como as devotas esganiçam a voz em 'dai-nos a graça divina', que é o ponto mais alto da colina melódica (um salto de sexta), sendo a chegada prometida por todos os gestos anteriores.