Antonio Corrêa de Lacerda
De São Paulo
A inflação oficial brasileira atingiu 6,5% em 2011, no limite do teto superior da margem de tolerância, de dois pontos percentuais, da meta anual. Diante das circunstâncias domésticas e do cenário externo, não deixou de ser um resultado favorável.
Ocorreu uma grande discussão entre os analistas econômicos, no final de agosto do ano passado, quando o Banco Central, corretamente, começou a reduzir a taxa básica de juros. Houve até mesmo quem questionasse a autonomia do BC frente ao governo e fizesse ilações de ingerência na sua decisão. No entanto, como já defendi neste espaço anteriormente, a medida estava correta.
O primeiro aspecto a ser destacado é que, embora uma inflação anual de 6,5% pareça exagerada, este não é um problema exclusivo brasileiro. Em face do aumento dos gastos públicos e crescimento do endividamento em vários países, aliado ao crescimento da demanda, principalmente, da China e Índia, ocorreu um substancial aumento dos preços das commodities, especialmente nos dois anos anteriores, até meados de 2011.
Esse quadro fez com que a inflação mundial tivesse crescido de forma expressiva no ano que passou. Apesar da crise, ocorreu aumento dos preços nos países centrais.
Nos EUA, a inflação de doze meses chegou a 3,0%, na Europa a 3,5%. A China chegou a ter, em outubro, uma inflação acumulada em doze meses de 5,5%; a África do Sul, de 6%; Rússia, mais de 7%; e a Índia de 10%. Em outros países, como Argentina e Venezuela, a inflação supera os dois dígitos.
Nos últimos meses, a crise tem derrubado alguns preços e isso tem feito com que a inflação venha se reduzindo em vários países, inclusive no Brasil. Vale ainda destacar que tem prevalecido, desde a crise de 2008, taxas básicas de juros reais muito baixas, mesmo negativas, nos países ricos. Isso porque, claramente, os governos têm privilegiado o combate aos efeitos da crise, em detrimento de uma política monetária mais rígida, o que poderia trazer resultados mais rápidos no tocante aos preços, mas com custos econômicos e sociais elevados.

A China também enfrenta aumento da inflação (foto: AFP)
É muito provável que a inflação brasileira se aproxime do centro da meta, de 4,5%, este ano, não apenas em função dos aspectos internacionais já apontados, mas também porque há um claro desaquecimento do nível de atividades, dos 7,5% em 2010, para algo próximo de 3%, na média, de 2011 e 2012.
Mas, isso não quer dizer que não haja uma ampla agenda a ser trabalhada internamente para garantir um nível de inflação mais controlado nos próximos anos e não apenas circunstancial. Nesse sentido, salta aos olhos a questão da indexação, por exemplo, uma clara distorção do nosso processo de formação de preços. O reajuste automático de preços e tarifas, atrelados a indicadores de inflação, faz com que haja a perpetuação de níveis inflacionários passados, dificultando o papel da taxa de juros e de outros instrumentos de política monetária.
Os preços dos serviços têm crescido acima da média dos demais itens nos últimos anos e isso tem muito a ver com as transformações em curso na economia brasileira. O crescimento do poder de consumo das classes de menor renda tem ampliado a demanda por serviços, o que cria um ambiente favorável ao crescimento dos seus preços. Trata-se de um reordenamento dos preços relativos, e esse processo deve perdurar, embora possa ser amenizado com o fomento à concorrência e ao aumento da produtividade.
Portanto, uma parte expressiva da inflação decorre de mudanças estruturais na economia. Daí a importância de que se adote a estratégia correta para o seu combate, sob pena do sacrifício do crescimento econômico. O desafio é diagnosticar adequadamente as causas e conseqüências da inflação, considerando, além dos fatores exógenos e endógenos, a relação custo-beneficio das escolhas das políticas econômicas. Não podemos ser lenientes com o crescimento dos preços, mas seria um grande equívoco sermos "mais realistas que o rei" e, em nome de uma pseudo austeridade, por a perder um importante processo de melhora na distribuição da renda dos brasileiros.
Fale com Antonio Corrêa de Lacerda: alacerda@terra.com.br
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