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Sábado, 14 de janeiro de 2012, 07h54

O Oriente e Gilberto Freyre (1ª parte)

Lecticia Cavalcanti
Do Recife (PE)

Para T.S. Eliot, "abril é o mais cruel dos meses". Vivesse no Brasil, talvez tivesse trocado o mês para agosto. Se existe um mês pior, estou à vontade para eleger janeiro como o melhor. Mês de praia e de arrumar papéis. E nesse rasgar e jogar no lixo, encontro pergunta feita na Fliporto pela querida amiga Socorro Vilaça: "o que tem de Oriente na nossa mesa?". Começo lembrando que o tema da Fliporto, ano passado, foi "Uma viagem ao Oriente". Sendo homenageado Gilberto Freyre. Não por acaso, por ter sido ele dos primeiros a compreender a grande influência do Oriente em nossa cultura. "China Tropical", assim ele se referia ao Brasil. "Não pela semelhança na sua grande extensão territorial", explicava. Mas, sobretudo, por tantos "traços orientais encontrados na civilização brasileira". Continuando, "sempre houve no Brasil algo de oriental contrastando com suas características ocidentais".

Muitos foram os hábitos orientais incorporados em nossa cultura, a partir de Portugal. E aqui começo a resposta. Hábitos adquiridos em viagens a Índia e África, e sobretudo na longa convivência com os mouros - árabes habitantes do norte da África, que se estabeleceram na Península Ibérica (em 711), até serem expulsos de Portugal (1257) e da Espanha (1492). Do esforço com que essa gente se dava aos ofícios, decorreu a expressão "trabalhar como um mouro". Influenciaram arte, agricultura (usando técnicas revolucionárias de irrigação, com moinhos de água), e arquitetura, indústria (de azulejo, azeite e tecido). Plantaram amendoeiras e oliveiras. Além de algodão, arroz, aveia, cana-de-açúcar e trigo. Aperfeiçoaram as plantações de vinhas, iniciadas pelos romanos - mas só para consumo de uva, que o Alcorão proibia beber álcool. Acostumaram o paladar ibérico às especiarias que traziam das Índias: anis-estrelado, canela, cravo, erva-doce, gengibre, noz-moscada, pimenta, louro, cuminho, alho, cebola, coentro, cebolinho (chamada, pelos chineses, de a "pérola dos temperos"). Além de frutas - carambola, coco, figo, fruta-pão, laranja, lima, limão, maçã, manga, melão, romã, uva. Foi em busca dessas especiarias, e também do açúcar, que se lançaram os portugueses ao mar nas grandes navegações.

Uma parte dessa culinária moura permanece, até hoje, no cardápio lusitano: almôndega (bolinho de carne ou peixe picado com ovos, farinha, ligado com miolo de pão e temperado com salsa, noz-moscada, pimenta, tudo cozido em molho espesso), açorda (espécie de sopa feita com água, alho, azeite, pão, acrescido do que se tiver à mão, como por exemplo carne ou bacalhau), adáçana (guisado de tripa de bode que, com o tempo, simplesmente desapareceu das mesas). Os árabes também deixaram um jeito próprio de preparar carneiro, chouriço, galinha e peixe; ou de fazer defumados ou estufados. (Continua na próxima semana)

Receita: Almôndega

Ingredientes
500 g de carne moída
2 colheres de sopa de azeite de oliva (30 ml)
1 xícara de cebola bem picada (60 g)
1 ovo
150 g de farinha de rosca
Sal a gosto
Pimenta do reino a gosto
Ricota
395 g de molho de tomate

Preparo:
- Misture carne, ovo, cebola, sal, pimenta e azeite de oliva. Junte farinha, aos poucos. Faça pequenas bolinhas. Coloque dentro de cada bolinha um pedaço de ricota Frite no azeite. Reserve.
- Em outra panela esquente (em fogo baixo) o molho de tomate. Junte as almôndegas e deixe cozinhar por aproximadamente 15 minutos.

Lecticia Cavalcanti coordena o caderno Sabores da Folha de Pernambuco, escreve na Revista Continente Multicultural e no site pe.360graus.

Fale com Lecticia Cavalcanti: lecticia.cavalcanti@terra.com.br

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Almôndegas são parte do cardápio de influências dos árabes na Península Ibérica

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