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Quinta, 19 de janeiro de 2012, 08h06 Atualizada às 09h53

Idiossincrasias

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Tenho diversas idiossincrasias. Algumas são linguísticas. Ao contrário de muitos, no entanto, reconheço que são idiossincrasias, e trato-as como tais (mesmo quando não são). Não tento impor aos outros o meu gosto (mesmo quando não é propriamente meu).

Não me refiro a fatos como "diferenciar" e "diferir". Jovens (sei disso por que vejo o fato nos textos de alunos) escrevem com freqüência "este autor se difere daquele". Nesses casos, marco a expressão. Assim, crio uma dúvida. Os alunos perguntam por que circulei a palavra. Respondo que, "antigamente", no "meu tempo", escrevia-se "o autor difere" ou "se diferencia". Nunca "se difere". Que eles verifiquem dicionários e gramáticas e decidam se querem ou não manter a nova forma, acrescentar um "se" a "diferir". Digo que posso ir aceitando que escrevam assim (se escolherem isso, se não for uma coisa automática), mas que nunca vou aderir (nunca diga "dessa água não beberei"?). Acho que esta será a forma padrão da próxima geração...

Também assinalo em seus textos todas as construções do tipo "esse livro se trata de um clássico" ou "de que se trata isso?". Mas já não está mais adiantando explicar, eu acho, que o sujeito de "tratar" é "se", e que, portanto, ou "este livro" e "isto" saem da oração ou impõem outra construção: "trata-se de um clássico" (já se falou do livro) e "do que se trata?" (e aponta-se com o dedo para algo ou retoma-se o que se falou). "Este livro é um clássico" e "O que é isto?" são formas alternativas "do meu tempo", sem "tratar-se".

Este é um caso bem espinhoso para os sintaticistas, porque se trata (e não porque "ele se trata...") de uma construção tortuosa. Em almoços de trabalho, sempre provoco um especialista, mas ainda não ouvi uma boa resposta. O fato é que "tratar-se' está sendo tratado (!) pelos falantes como se não fosse acompanhado do "se". O verbo muda de valência: seleciona outro sujeito, e sem abandonar seu penduricalho, o "se", agora sem a função antiga de sujeito.

Minhas idiossincrasias de verdade são outras. Por exemplo, detesto que se saúde uma audiência ou que se faça referência a um grupo com "galera". E que se diga que num evento há "muita adrenalina". Não corrijo, mas detesto. E me chateio. Mas sei que o problema é meu.

Também não gosto de ouvir "trago Bekhtin", em vez de "apelo para" ou "cito". Traz? Ora, ora! E detesto que as pessoas "coloquem" em vez de dizerem, responderem, replicarem, devolverem, ameaçarem, confessarem, admitirem etc. Acho uma pobreza.

Às vezes, é uma questão de gosto. Outras, de maior precisão. É o caso desses verbos, e também do caso seguinte: quando leio que o livro tal foi "escrito" por..., minha bílis derrama. Não reclamo, não corrijo (a não ser que se trate de uma dissertação ou tese que eu oriente: nesses casos, intervenho! Os alunos sempre podem mudar de orientador...). As teses e os livros não são escritos por A ou B: eles são de A ou B, ou são da autoria de A ou B. Escritos é que não. Até porque podem ter sido ditados... A questão relevante, explico, é a autoria. O resto é o resto.

Tem mais, mas o leitor não precisa saber. A não ser que uma coisa é idiossincrasia (mesmo que não seja) e bem outra é imposição autoritária (geralmente burra).


Sírio Possenti é professor titular do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso, Língua na Mídia e Questões de linguagem.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

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