Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)
Folhas de pitanga espalhadas no início da crônica
o aroma fazendo tudo ficar mais puro e mais leve
o leitor pisando macio com pupilas de cetim
entre algas, orvalho e beija-flores
possível conceber tudo como em estado de flutuação
num mundo pós-gravidade?
lembrando o maravilhoso percurso das baleias
transmutando de ancestrais terrestres para essas massas cantantes
que desafiam a gravidez (já transou com alguma baleia em mar aberto?)
a gravidade, digo, pesando sobre nossa velha ossada de intelecto
se elas puderam, também nós
nosso futuro é flutuar pelo espaço cósmico,
e o próprio pensamento é filho legítimo dessa aspiração pelo éter
certamente por isso é que inventaram palavras como alma e espírito
e a associação livre da psicanálise - como fazer análises flutuantes?
análises sem estruturas, sistemas de flutuação permanente,
enraizados nas correntes de ar ou de vácuo
movimentos que se estabelecem sem destinos e metas
ideologias sem gias, consumos sem sumos
desejos sem boca e linguagens que não se explicam
sentidos que flutuam para lá e para cá
e de repente: o tempo parou
pois agora somos baleias do espaço
nadando entre conceitos que não mais precisam controlar nada
prevenir nada, não há o que prevenir
o instinto de morte morreu
apenas a suave brisa de nada
passando pela aura daquilo que um dia chamaram de corpo