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Sexta, 20 de janeiro de 2012, 08h07

Omar Porras no Brasil em 2012?

Deolinda Vilhena
De Salvador (BA)


Porras e elenco durante os ensaios (Foto: Marc Vanappelghem)

Dia 20 de janeiro é dia de São Sebastião, protetor da humanidade contra a fome, a peste e a guerra, bela data para se começar uma campanha, que poderá ajudar o teatro brasileiro a matar sua fome de bom teatro, a se livrar de algumas pestes e de vencer a guerra do atraso, que faz com que ainda estejamos cultuando Brook, Barba, Chéreau e Mnouchkine, quando nomes como Christophe Rauck, Joël Pommerat, Olivier Py, Stéphane Braunschweig, Wajdi Mouawad e last but not least Omar Porras já se aproximam dos 50 e ainda são ilustres desconhecidos por aqui, embora estejam escrevendo a história do teatro ocidental do século XXI na Europa.

Em 25 de janeiro de 2008, já lá se vão quatro anos quase dia por dia, falei pela primeira vez sobre Omar Porras no Brasil, assim como fui a primeira a falar sobre Aurélia e James Thiérrée nas mesmas páginas desse Terra Magazine...

No dia 9 de novembro de 2011, o Teatro Forum Meyrin, em Genebra teve o privilégio de assistir a estreia de mais um espetáculo do mago da cena Omar Porras. Dias depois a imprensa anunciava: um espetáculo que marcará época! Nada de novo para quem, como eu, já teve a oportunidade de ver um espetáculo do Teatro Malandro, nome da companhia criada por esse suíço-colombiano de 48 anos e absolutamente genial! Mas foi o suficiente para que eu fizesse contato com Omar, que gentilmente me telefonou menos de 24h depois - exatamente como fazem nossos encenadores no Brasil - e desde então estou lutando para trazer O Despertar da Primavera de Porras ao Brasil, em 2012.

A coluna de hoje é especialmente endereçada a Luciano Alabarse, do Porto Alegre Em Cena; Felipe de Assis e Ricardo Libório, do Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia; Marcelo Bones, Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte; Aldo Valentim, das Oficinas Culturais da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo; Danilo Miranda, Diretor Regional do SESC Sampa, que dispensa apresentações; Emílio Khalil, Secretário de Cultura do Rio de Janeiro; Eva Dóris Rosental, Superintendente de Artes da Secretária de Cultura do Estado do Rio de Janeiro; Regina Studardt e Eliane Costa da Petrobras, maior parceira do Ministério da Cultura; João Carlos Couto, o mais competente de todos os produtores do Brasil; a Vitor Ortiz, Secretário Executivo do Ministério da Cultura; Antonio Grassi, Presidente da FUNARTE e Antônio Gilberto, Diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte. Impossível que um deles não tenha interesse em entrar nessa campanha e trazer O Despertar da Primavera para o Brasil. Por que? É o que vou tentar explicar na coluna de hoje.

O DESPERTAR DA PRIMAVERA, A PEÇA


Porras e elenco durante os ensaios (Foto: Marc Vanappelghem)

Publicada em 1891, mas concebida - não sem escândalo - somente em 1906, O despertar da Primavera permanece uma obra incontornável na história do teatro: o retrato dos distúrbios da sexualidade nascente em um grupo de adolescentes, o realismo psicológico e a qualidade das suas intuições serão admiradas até mesmo por Freud. Wedekind lança, efetivamente, muito além da sua época a reflexão sobre o problema sexual numa sociedade fundamentalmente puritana. Atualíssima...

Na sua época, Frank Wedekind é visto como um provocador, um quebra-tabus, sempre pronto a desrespeitar as convenções estéticas e a contestar as prescrições da moral. O Despertar da Primavera é um texto provocador que não deixa de revelar no autor o caráter precursor do seu gênio e de aparentá-lo aos grandes educadores da nova Europa.

Zombando alegremente das instâncias religiosas, pedagógicas e parentais, o dramaturgo alemão não hesita em atacar frontalmente a hipocrisia moral da sua época, que regula o problema gerado pelo despertar para a sexualidade ignorando-o pura e simplesmente! Incapazes de guiar os adolescentes através dos tormentos do desejo e do gozo, os adultos os induzem involuntariamente a adotar as soluções que o puritanismo mais desaprova: sado-masoquismo, onanismo, homossexualidade, devassidão, sem falar do aborto e do suicídio. Assim, Frau Bergmann evita cuidadosamente explicar à sua filha Wendla, em conflito entre a inocência e a curiosidade, como nascem as crianças, condenando-a a perder, primeiro a sua virgindade com Melchior e, depois, simplesmente a sua vida numa tentativa de aborto. Moritz, quanto a ele, tem dificuldade em concentrar-se nos seus estudos e acaba por matar-se com um tiro na cabeça. Hänschen e Ernst descobrem, por sua vez, a sua mútua atração. Enfim, Melchior, o mais bem informado sobre os mecanismos do sexo, é enviado para uma casa de correção, antes de encontrar o espectro de Moritz. Este último convida-o a juntar-se a ele, mas sem considerar o misterioso Homem Mascarado, que o dissuade desta idéia e propõe a Melchior conduzi-lo entre os homens.

As intenções humorísticas de O despertar da Primavera, ainda que possam parecer ultrapassadas em razão da evolução dos costumes no último século, não devem esconder a dimensão simbolista e poética da obra: a peça de Wedekind é também - e sobretudo - uma fábula iniciática de alcance universal, o aprendizado do desejo no seio da ordem coletiva, a passagem da adolescência à idade adulta tal como é vivida por cada ser humano.

O PROJETO DO TEATRO MALANDRO


Entre medos e desejos (Foto Marc Vanappelghem)

O Despertar da Primavera é um texto incrivelmente atual. Ele explora os medos e os desejos, as angústias e as descobertas que beiram a parábola da criança obrigada a tornar-se adulta: a dificuldade em crescer, a tentação de eternizar a infância, o sonho de preservar a riqueza emocional, de continuar a explorar os territórios do sonho e do fantástico.

São temas que alimentam há muito tempo a pesquisa teatral de Omar Porras e do Teatro Malandro: a infância vista como um universo fantástico, a nostalgia desta beleza que o mundo dos adultos parece ter o dever de destruir impiedosamente, frustrando os adolescentes de seus sonhos, a idéia - própria aos artistas e aos poetas - de que esta fantasia pode e deve ser conservada, pois a arte, tal como o lembra Baudelaire, é justamente "a infância reencontrada sem restrições".

E entre as expressões artísticas intimamente associadas a este período da vida que cada ser humano é obrigado a atravessar, a música é a que melhor traduz os sonhos e as revoltas, a angústia e a nostalgia que caracterizam a passagem ao estado adulto.

Por isso mesmo, Porras baseou a encenação da peça nestes dois elementos essenciais: a juventude e a música. A juventude: a da equipe destinada a interpretar uma peça cujo tema é justamente ela. A música: a linguagem que, melhor que qualquer outra, traduz as emoções do adolescente. Todo adulto associa as melodias que o impressionaram durante a sua adolescência às principais etapas da sua evolução rumo à idade adulta, de uma geração à outra.

O Despertar da Primavera é um texto em que o verbo encontra um prolongamento quase natural no canto e na música, como o comprovam as recentes adaptações musicais (Spring Awakening, A New Musical ou ainda, no campo da música clássica, a ópera Frühling Erwachen de Benoït Mernier).

CENÁRIOS DESLUMBRANTES


Quais os espaços dos jovens de hoje? (Foto: Marc Vanappelghem)

Espacialmente, O despertar da Primavera evoca diferentes lugares, parcamente descritos: um quarto, a rua, a floresta, um carvalho, um jardim, um cemitério ... No seu texto, Frank Wedekind descreve mais enfaticamente os personagens e o clima (meteorologia, atmosfera) que os lugares enquanto tal. Diante disto, seria importante o reconhecimento físico e concreto dos locais, mesmo que simbolicamente?

Os espaços interiores e íntimos são frequentemente territórios fechados por paredes. Estas paredes delimitam espaços de obediência, de regras e, por vezes, até mesmo de silêncio (o silêncio da Senhora Bergman diante das insistentes perguntas de Wendla, as cartas escritas, as breves e sucintas respostas ordenadas pelos professores de Melchior etc.). Em oposição, os espaços externos, onde a natureza é mais detalhada, aparecem como terras de liberdade e de palavras em profusão. Poesia, reflexões, filosofia, questionamentos refletem tanto um progresso mental quanto a deambulação física dos adolescentes na natureza.

Para continuar na descrição dos lugares do texto, pode-se também analisar uma natureza persistente em relação ao construído, daí a sua importância do ponto de vista simbólico da peça. Isto leva, naturalmente, à comparação entre os lugares da adolescência do século XIX de Wedekind, e os nossos, mais contemporâneos. Quais são os espaços dos adolescentes de hoje ? Onde estão os espaços de liberdade e de devaneio numa cidade? Onde se relatam as experiências, os questionamentos, os tabus, as coisas do sexo? Em suma, onde se exprimem, se expõem, filosofam os adolescentes? Que interstícios encontram eles no nosso mundo?

A procura do espaço se faz, pois, sobre uma plataforma que oferece aos comediantes a possibilidade de explorar, de passear; à música de levantar vôo ou murmurar; e à palavra de chocar-se contra as paredes da moral, contra os outros, ou de se lançar a plenos pulmões, de estender-se muito além do palco.

TALENTO NÃO TEM IDADE, É FRUTO DE TRABALHO!


Destaque para a juventude do elenco (Foto: Marc Vanappelghem)

Quando escrevia essa coluna, baseada no esplêndido Dossier de Presse que me foi enviado por Florence Crettol, administradora do Teatro Malandro, recebi pelo correio o DVD com a gravação do espetáculo realizada em 18 de novembro, dias após a estreia no Teatro Forum Meyrin, em Genebra. É difícil ver teatro filmado, mas não impossível, e é fácil reconhecer a qualidade de O Despertar da Primavera na encenação de Omar Porras. A atuação desses jovens atores me toca profundamente, talvez porque no momento esteja diretamente envolvida com a formação de jovens atores/diretores. A tal ponto é fantástico o trabalho deles que é difícil falar de um só, o conjunto é perfeito e a imprensa, tanto na Suíça quanto na França reconhecem, ao dizer que é ao conjunto que devemos parabenizar.

Philippe Chevilley do jornal Les Echos diz: "o que é mais impressionante é o ritmo e a energia do espetáculo: os jovens atores formados na escola física e espiritual de Porras iluminam a ação com sua força e sua precisão. A primavera irradia em cada uma de suas palavras e suas ações. O texto de Wedekind torna-se uma lava, engolindo o velho mundo dos adultos. Os adolescentes de hoje, na sala, compreenderam a mensagem, fazendo um barulho dos diabos nos aplausos para celebrar a "primavera" de Omar.".

Maria-Jospe Sirach, do jornal L'Humanité, diz que "somos seduzidos pela graça desses jovens atores, Grimes, emperucados, fantasiados, que correm pelo palco com uma ligeireza infantil, com uma comunicação indiferente, uma gravidade que convoca o riso e a meditação no mesmo movimento antes que a vida de retomar as rédeas e continue seu caminho".

Para Froggy's Delight "Porras assina uma encenação impecável e dirige perfeitamente uma trupe de atores, a maioria jovem tanto pela idade como pela carreira artística, que, longe de qualquer postura ou afetação, consegue se sair muito bem tanto nos papéis de crianças com seus atributos infantis, a boneca de pano, o cavalo de balanço, a mochila da escola, como quando mostram que já são grandes demais para suas roupas de crianças e os arquétipos adultos".

Para Muriel Mayette, administradora geral da Comédie-Française é um espetáculo emocionante, sensível, e não nos cansamos de ouvir esse texto surpreendente e tão moderno. As emoções dos jovens adolescentes e suas confusões também, servidos por uma trupe de atores muito coerentes.

Quem conhece o método de trabalho de Omar Porras sabe do que ele é capaz. Depois de Ariane Mnouchkine é o melhor diretor de ator que tive a oportunidade de conhecer. Seus elencos são um prazer inenarrável.

OMAR PORRAS, UM DIRETOR GENIAL


Um dos grandes da cena mundial(Foto: Marc Vanappelghem)

Nascido em Bogotá, na Colômbia, Omar Porras forma-se em dança e teatro no decorrer de diversas experiências artísticas. É em 1990 que ele funda, em Genebra, o Teatro Malandro, centro de criação, de formação e de pesquisa, onde ele desenvolve um processo criativo muito pessoal, baseado no movimento. A sua técnica teatral inspira-se, ao mesmo tempo, na tradição ocidental e na oriental, como a biomecânica, o teatro balinês, indiano e japonês.

De Ubu Rei (Le Garage - Genève - 1991) a Fourberies de Scapin As Artimanhas de Scapino (criação no Teatro de Carouge e noTeatro Forum Meyrin - Genebra em 2009), Omar Porras mistura a arte do ator, da marionete, a dança e a música ; ele coloca o corpo no centro de suas pesquisas teatrais, num trabalho de harmonização entre o ato e a palavra. Mesmo que baseado no texto, o teatro de Omar Porras não se deixa por ele dominar : a adaptação tem um papel central no processo de criação do Teatro Malandro. Para que se torne objeto de livres explorações da parte dos comediantes e do diretor, o texto deverá emancipar-se de qualquer sujeição literária e abrir-se à improvisação, dessacralizando a palavra para melhor jurar fidelidade ao ato teatral.

Suas competências musicais e a importância do universo sonoro em seus espetáculos conduziram-no também à encenação dos espetáculos musicais tais que História do soldado, de Igor Stravinsky e Charles Ferdinand Ramuz (em 2003) e Alas pa¿ volar com Angélique Ionatos (em 2003).

Em 2006, no prolongamento destas primeiras incursões musicais, Omar Porras aborda o universo da Ópera encenando duas obras : O Elixir do amor, de Donizetti, na Ópera nacional da Lorraine, e O Barbeiro de Sevilha, de Paisiello, no Théâtre Royal de la Monnaie em Bruxelas. Em 2007 é convidado pelo Grand Théâtre de Genebra a encenar A Flauta encantada de Mozart. Assinou também a direção cênica de La Périchole de Offenbach no Teatro do Capitólio de Toulouse, com reprise na Ópera nacional de Bordeaux e na Ópera de Lausanne. E agora mesmo, dezembro de 2011, sua montagem de La grande-duchesse de Gérolstein, de Offenbach, foi aplaudidíssima na Ópera de Lausanne.

21 anos de vida tem o Teatro Malandro. E o Brasil ainda não teve o prazer de recebê-lo. Pior, nem a elite teatral conhece o trabalho realizado por eles. Está na hora de trazer ao país esse grande diretor, que sendo colombiano e radicado na Suíça deu um nome brasileiro a sua companhia, sem mesmo conhecer o Brasil. Está mais do que na hora de apresentarmos um ao outro.

SERVIÇO O DESPERTAR DA PRIMAVERA:

Texto: Frank Wedekind / Direção & adaptação: Omar Porras

Produção: Teatro Malandro, Genebra, Suiça / Coprodução: Teatro Forum Meyrin, Espaço Malraux - Palco Nacional de Chambéry e de Savoie, Centro Nacional de Criação e de Difusão Culturais de Châteauvallon

Elenco: Sophie Botte, Olivia Dalric, Peggy Dias, Alexandre Etheve, Adrien Gygax, Paul Jeanson, Jeanne Pasquier, François Praud e Anna-Lena Strasse

Deolinda Vilhena é jornalista, produtora teatral, Doutora em Estudos Teatrais pela Sorbonne e professora do Departamento de Técnicas do Espetáculo da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia.

Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br

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