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Sexta, 20 de janeiro de 2012, 08h06

Volte para o navio, prefeito

AFP
Da mesma maneira que os tripulantes do Costa Concordia, sentimos que nossa nave também foi abandonada por quem deveria estar lá no meio da Augusta na ...
"Da mesma maneira que os tripulantes do Costa Concordia, sentimos que nossa nave também foi abandonada por quem deveria estar lá no meio da Augusta na hora em que a chuva chove canivete"

Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo

Estimadíssimos milharíssimos de leitores, bomba!

Nosso ultra avançado sistema de escuta de conversas alheias especialmente desenvolvido pela Carneiro da Cunha, Inc. captou o diálogo que passamos a reproduzir agora.

- Signore prefetto!
- Si?
- Signore prefetto Kassabini?
- Si.
- Dove esta lui?
- En mio locale de lavoro, como sempre!
- La prefectura de São Paulo?
- No! Eso e mi locale temporario. Allora lavoro con política nazzionale. Sin tempo para questiunculli locale.
- Ma! Prefetto! La nave affunda! Il asphaltto se derrette! Il autobuse sono descontrolatti! La construzzione de lo metro esta atrazatta! La pioggia produce destruizzione por tutti parti! I el signore no esta a su posto? Retorne a su posto, Kassabini!
- Io voglio estare a mi posto. Pero estava aqui, en el dulce farniente, cuando paso una oportunidatta pollitticca de prima importanzia. Criare un partitto político nazionalle totto mio! Accidentalmentte, cai dentro i allora no consigo rettornare.
- Prefetto! Es una ordem! Io lo commando! Regresse allora a su posto. La cittá é su responsabilitatta! Mille di bambini! Di donne! Di vecchi! Abandonatti!
- Io adoraria, pero sinto! El mare no está para pesci. Regressar, nunca! - Prefetto! Prefetto! Volta a la cittá, cazzo! Prefetto! Prefetto!

E assim se encerra a transmissão, com muito ruído de fundo e nenhum significado para quem escuta e tenta entender o que afinal está acontecendo.

No universo dos cruzeiros marítimos a bomba foi de outra ordem. Descobrimos para nossa relativa surpresa que a incompetência é o elemento mais comum encontrado no planeta, muito, muito mais do que o ferro ou o oxigênio. Sim, é possível que um sujeito incapacitado a dirigir tróleibus sem sair da linha conquiste um emprego que envolva milhares de toneladas e passageiros, assim, numa boa. É possível que esse sujeito resolva mostrar o tamanho do barco para uma loira e o jogue sobre rochas, não icebergs sorrateiros, mas rochas, que devem estar ali desde o começo dos tempos.

Vemos com espanto que os navios cresceram demais, e as nossas limitações junto. Aquele navio emborcou a metros de uma praia, com 4200 pessoas a bordo. E se fosse no mar alto, no meio do rigorosamente nada, com muita água, muitas ondas, muito vento, muito frio? Teríamos um novo Titanic, com a diferença de que o capitão certamente não iria se comportar com a mesma dignidade do outro, que errou e foi ao fundo? Eu acho que sim e isso reforça a minha decisão de nunca, nunquinha, jamais entrar em um navio por qualquer motivo, nem mesmo para fazer o cruzeiro do Roberto Carlos, e isso é irreversível.

Da mesma maneira eu, o senhor aqui ao lado, boa parte da torcida do Corinthians, sentimos que nossa nave também foi abandonada por quem deveria estar lá no meio da Augusta na hora em que a chuva chove canivete, mesmo. Deveria estar em Sacomã vendo metrô patinar e na Barra Funda quando o sertão vira mar. Prefeito é um sujeito que deveria gostar de enfiar o pé no barro e sacudir no busão, ou não é prefeito.

Pois eu duvido que ele tenha tentado ficar de pé sem segurar a peruca ou o maxilar em um dos corredores de ônibus ondulados da cidade. Duvido que ele ande pra lá e pra cá pelas ruas da cidade sem perder vértebras no processo. O meu bebê tem dois meses e já pensa em processar quem asfaltou o nosso bairro, que nem é dos piores.

Eu comecei a vir para São Paulo no século 14, quando a peste, a guerra dos cem anos, o cisma da igreja e a dupla Maluf-Pitta desabou a cidade. Vi o impacto da administração da Marta começar a orientar o transatlântico para longe do abismo em que tinham nos enfiado. Essa cidade tem tanta energia que basta um empurrãozinho e ela vai, e ela foi.

Pra nosso azar, alguém inventou o ótimo Cidade Limpa, e nas divisões internas da nossa política, nas áreas azuis e vermelhas de São Paulo se formou o caldo cultural que nos manteve kassabianos por tempo demais, me parece. Como se não bastasse a sensação de que coisas demais não acontecem, enquanto os empreiteiros fazem a farra, ainda precisava aquela iluminação da Paulista? Precisava? Com luzinha roxa no meio dos postes? A parte boa foi me fazer lembrar da boate da praia de Santa Teresinha, onde passei dias felizes. A parte ruim é todo o resto.

São Paulo é um vulcão, louquinho para entrar em ebulição diante da menor chance. Isso aqui precisa de administração, de marcação cerrada, ou se manda para o lado escuro da força ainda mais rapidamente do que o Ronaldinho fora das vistas do Luxemburgo.

A energia incomum que torna a cidade fascinante é a mesma que pode torná-la inabitável assim, num triz. E acontece, e eu diria ao prefeito se ele andasse por aqui, que estamos sempre, qual navio cercado por rochas, por um triz.

O que faz um capitão de verdade não é um apito e um uniforme, mas a capacidade de estar sempre na ponte, no comando, onde pode ser visto e fazer de conta que, se não sabe, ao menos se importa.

O que não precisamos, e o navio não precisava, é de um sujeito disposto a pular fora ao menor sacolejo, ao menor ruído, ao menor sinal de que lá fora pode ser mais divertido do que aqui dentro, onde as coisas de fato acontecem, enquanto la nave, sabe-se lá pra onde, vá.


Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.

Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: marceloccunha@terra.com.br
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