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Sábado, 21 de janeiro de 2012, 08h03 Atualizada às 10h28

Bar Paraíso

Christos Loufopoulos/Creative Communs/Divulgação
 Hemingway Bar, do hotel Ritz de Paris
Hemingway Bar, do hotel Ritz de Paris

Mauricio Tagliari
De São Paulo

"Everyone is trying to get to the bar
the name of the bar, the bar is called Heaven." (Talking Heads)

Além de redescobrir o brasileiro Tom Zé, então no ostracismo, David Byrne escreveu, nos anos 80, canções espertas, conceituais e divertidas. Uma das minhas preferidas chama-se Heaven, de onde extraí o trecho acima. Gosto da fusão das idéias de bar e paraíso. Já estive em alguns bares paradisíacos. Mas não estou falando de bares em "locais" paradisíacos, beira de praia, etc. Falo do recinto em si. Da entidade.

Claro que há bares de muitos tipos. Mas trato aqui do clássico bar de coquetéis. Excluamos choperias, cervejarias, bar-a-vin, pubs, botequins, botecos, boates, cafés e congêneres. A maioria deles são lugares barulhentos, para ver e ser visto, festivos. Todos podem servir boa bebida, mas nem todos dão aquele extra que só um clássico pode oferecer.

Primordial o grande balcão. Sem ele não haveria o mestre do ritual, o bartender. Fundamental uma boa prateleira com grande sortimento de bebidas ao fundo. Quanto maior e mais imponente, melhor. De preferência com uma enorme variedade de rótulos, sem repetição alguma. E, para terminar, poltronas macias, relaxantes e confortáveis.

Dá pra entender o quanto é raro encontra-se um local com esta descrição? Não há muitos no mundo. Em sua maioria são esperas de grandes hotéis ou restaurantes. Alguns têm um belo balcão, mas lhes falta sortimento. Outros têm balcão e sortimento, mas suas cadeiras são duras e desconfortáveis. Outros, ótima estrutura ,mas os bartenders deixam a desejar. É dura a busca pelo paraíso etílico na terra.

Um amigo, certa vez, diante de uma prateleira imensa, até o teto, em um bar com pé direito de uns 5 ou 6 metros, contendo mais de mil garrafas das mais espetaculares bebidas imagináveis, centenas de licores e uísques, destilados de dezenas de culturas diferentes, gins de outro planeta, tudo disposto atrás do balcão de um bar na Europa, confessou-me com expressão de beatitude que nestes momentos ele sentia a pequenez do ser humano! Aquiesci. Seria necessária mais de uma vida para saborear tantas jóias com a atenção merecida. Que dirá para testar as possibilidades combinatórias/mixológicas todas? Infinitas, como as estrelas no céu?

Harry's Bar de Veneza, Hemingway Bar, do Ritz de Paris, o bar do Hotel Plaza de Nova York, alguns dos paradigmas neste assunto, além de caros, têm outra característica: o serviço flui tranquilo e atencioso. E esta é uma desejável qualidade num bar. Quero me sentar, pedir minha bebida e poder ficar sozinho, se este for o caso, sem ser incomodado por tevês ligadas, grupos barulhentos, aromas de comida, banda de música ao vivo e outras distrações. Aceito, quando muito, um piano discreto. Quero poder meditar ou conversar calmamente com meu interlocutor. Sem ter de gritar para me fazer ouvir. O caro leitor ou a amada leitora conhece por acaso um desses no seu bairro? Se souberem de alguma jóia secreta, favor avisar.

Meu modelo de bar ideal se parece muito com o do grande cineasta espanhol Luis Buñuel, também um ótimo copo. Diz ele:

"O bar é, ao contrário (do café ), um exercício de solidão. Antes de mais nada, tem que ser "tranquilo, bastante escuro, muito confortável. Toda música, mesmo distante, deve ser proscrita (contrariamente ao hábito infame que hoje em dia se propaga pelo mundo). Uma dúzia de mesas no máximo, se possível com frequentadores habituais pouco falantes."

Buñuel costumava escrever seus roteiros em mesas de bares tranquilos, o que por si só, dada a genialidade de seus filmes, já demonstra a capacidade inspiradora deste tipo de bar/paraíso. Em sua excelente autobiografia Meu Último Suspiro (Cosacnaify), dedica um capítulo a seus bares prediletos e não se furta a listar bebidas favoritas ou até dar uma versão de dry martini, seu coquetel preferido. Mas o toque de humor, ao reforçar seu sentimento amoroso em relação ao gim inglês, é um mix batizado por ele de Buñueloni. Na verdade, apenas um Negroni ( leia aqui) em que o Campari é substituído por Carpano.

Como diziam os goliardos, monges poetas beberrões da Idade Média: "Abstêmios não vão para o céu."


Mauricio Tagliari é compositor e produtor musical. Sócio da ybmusic, escreve sobre música e bebidas no blog www.maisumgole.wordpress.com e sobre música no http://ybmusica.blogspot.com. É co-autor do Dicionário do Vinho Tagliari e Campos.

Fale com Mauricio Tagliari: mauricio.tagliari01@terra.com.br

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