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Terça, 24 de janeiro de 2012, 08h04 Atualizada às 13h13

Do mico leão à sacola plástica

Amália Safatle
De São Paulo


"Estamos no estágio pré-inicial proibindo sacolinhas de plástico no supermercado", diz jornalista (Foto:BandNews)

O ativismo depende de bandeiras que representem de forma simplificada a complexidade de suas causas. Que traduzam a mensagem para a opinião pública, por meio de uma linguagem de imagens e sinais direta, empática, cativante. A baleia, o panda, o mico-leão dourado emprestaram a cara à coragem das lutas ambientalistas.

Com a entrada de outros fatores na discussão da equação ambiental - como o econômico -, um ator bem menos simpático e empático virou símbolo: a sacolinha plástica do supermercado. Na linguagem dos sinais, é o sinal de que nossa civilização atual precisava: o nó, irremediável, é mais do que nunca o consumo.

E como os sistemas sempre buscam se apropriar daquilo que os ameaça, começaram a surgir expressões como "consumo consciente", "consumo sustentável". Trata-se basicamente disso: vamos adjetivar o problema para preservar a essência substantiva. Pois o sistema econômico que construímos, e do qual dependemos, alimenta-se do consumo. E crescente.

Assim, se já consumimos um planeta e meio, ultrapassando o que a Terra é capaz de repor, entramos em um insanável cheque especial, como já vem sendo repetido tantas vezes. No ritmo atual, a previsão é que precisemos de dois planetas em menos de 20 anos. Não seria a consciência disso o tal "consumo consciente"?

Mas a expressão "consumo sustentável" vai além. Nos moldes econômicos em que vivemos, é a própria contradição entre termos. Pode até ser entendida como "garantir a sustentabilidade do consumo". Em um mundo que já extrapolou o cheque especial, a ideia não tem muito cabimento.

A "heresia" econômica é que teremos de parar de crescer. O consumo global precisará, no mínimo, se estabilizar. Como já foi dito nessa coluna, é preciso que os países ricos abram espaço ecológico para que nesse caminho rumo à economia estacionária não se configure um cavalo de pau a provocar estragos sociais nos países pobres e emergentes, já com problemas sociais de sobra.

Ainda que a esses países seja necessário um crescimento que garanta condições sociais dignas à população, os mercados são interligados, e mais cedo ou mais tarde, os efeitos de uma economia estacionária nos ricos rebaterão no restante do mundo.

Portanto, os desenhos macroeconômicos precisam ser refeitos. O economista Peter Victor, professor da Universidade de York, no Canadá, citado algumas vezes em Página22 e recentemente ouvido por Flavia Pardini (em pagina22.com.br/index.php/2011/12/amadurecendo- economias), fez a lição de casa. Desenhou para o Canadá um modelo de economia estacionária em que, ao contrário do que imagina o senso comum, é positivo em termos de emprego, equilíbrio fiscal, distribuição de renda e emissões de carbono.

Só que os modelos apenas dão certo com a participação das pessoas. Assim, a questão também é saber até que ponto a população estará preparada para mudar a chavinha em relação a seus valores, trocando, por exemplo, menos consumo em busca de status por vínculos sociais mais fortes e jornada de trabalho menor. Isso depois de décadas em que a ideia do crescimento econômico e do quanto-mais-consumo-melhor, sendo martelado em nossas cabeças.

Mas talvez não haja muita possibilidade de escolha nas décadas vindouras. Em artigo publicado neste último fim de semana pelo jornal Valor Econômico, , intitulada "Os novos limtes do possível", o economista André Lara Resende faz a sinapse necessária entre a crise econômica que o mundo sofre desde 2008 e a questão ambiental.

Resende expõe que, de todas as soluções para a crise de endividamento, a única aceitável é a do crescimento, e desfia como isso não se sustenta em termos físicos, ecológicos. Recomenda a leitura de Paul Gilding, professor do Programa para a Sustentabilidade da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e autor do livro The Great Disruption (ou a grande ruptura), recentemente lançado.

Assim, o imperativo ecológico deu as cartas: outras saídas para a crise precisam ser encontradas que não o crescimento. O consumo pelo consumo precisará dar a lugar a outros valores. O sonho ávido dos consumidores emergentes aspirantes a um padrão lançado pelo Primeiro Mundo provavelmente será abortado. Talvez não haja tempo para uma transição gradual feita só pela mudança cultural. E regras, limites, impostos, taxações serão instrumentos duros, mas necessários, na construção desse novo arcabouço.

Mas ainda estamos no estágio pré-inicial dessa história toda, proibindo sacolinhas de plástico no supermercado.


Amália Safatle é jornalista e fundadora da Página 22, revista mensal sobre sustentabilidade, que tem como proposta interligar os fatos econômicos às questões sociais e ambientais.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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