Rui Daher
De São Paulo
Um ano após entrar na UNESP de Rio Claro (SP) para cursar biologia, Regina viajou até Lavras (MG). Participaria de um simpósio sobre inoculantes na cultura da soja. Seu interesse extrapolava o assunto e se estendia ao fato de o local ser próximo das cidades históricas de Minas Gerais.
Lá, quis o destino, ela conheceu Fernando, aluno do 3º ano de agronomia da Federal. Mais uma vez, o destino se pronunciou. O evento não teve quorum, e São João Del Rey, Tiradentes, Ouro Preto, encantaram mais dois turistas.
Sim, casaram-se, e apesar de hoje trabalharem com biotecnologia aplicada à agricultura, o primeiro filho do casal não recebeu o nome de Osmar Gabriel Macedo para receber as iniciais OGM.
Embora nas últimas décadas a indústria de agroquímicos tenha se dedicado prioritariamente a desenvolver organismos geneticamente modificados -os transgênicos -a utilização da biologia na agricultura conta-se em milênios.
Trata-se, afinal, da ciência que estuda seres vivos em seus aspectos evolutivos, fisiológicos e organizacionais, e nela nunca se deixou de aplicar tecnologias. Rudimentares apenas se vistas séculos após terem sido criadas.
Hoje, para o público leigo, um processo massivo de divulgação, aliado a um filtro pouco exigente de quem ouve, permite associar-se a biotecnologia apenas aos processos que incluem modificação genética.
Infelizmente, pois o uso de organismos vivos em processos fisiológicos, nutricionais ou de proteção das plantas é muito mais amplo.
O planeta transpira discussões que confrontam a necessidade de ampliar a produção agropecuária para atender o crescimento populacional e a limitação dos recursos naturais necessários para atender essa demanda.
Uma aquisição, até aqui, realizada com muita destruição ambiental, extinção de espécies e perversa distribuição de resultados. Não à toa, segundo a FAO, mais de 25% da produção agrícola mundial são perdidos em procedimentos mambembes enquanto a fome atinge quase um bilhão de pessoas.
Há esperança no fato de que em várias instâncias governamentais e da sociedade a ficha parece estar caindo, embora interesses econômicos paroquiais ainda superem o grau de conscientização conseguido nas últimas décadas.
Proprietários de lavouras, pastos e florestas estão cada vez mais interessados e abertos a utilizarem práticas, manejos e produtos que os façam produzir mais, com melhor qualidade ambiental e menor custo.
Não se trata, pois, de lidar com utopias do tipo erradique-se a aplicação de fertilizantes e defensivos químicos. Nada disso. Apenas que se reconheça biotecnologia no uso de estimulantes naturais de crescimento e absorção de nutrientes, solos tratados com matérias orgânicas, controles biológicos que eliminam pragas e doenças preservando microorganismos benéficos e os alimentos de nossas mesas.
Sim, ainda existem muitos ogros imediatistas que não se incomodam com os recursos de sobrevivência que poderão faltar amanhã. Legislações mais duras e pressões da sociedade e do mercado os farão acalmar.
Vez ou outra, confesso, vem o desânimo. E se eles forem os mesmos não poucos que encontramos em aviões ligando o celular no exato segundo em que a comissária pede que não o façam? Ou, nos restaurantes, quando somos impedidos de ouvir a sugestão do garçom por berros vindos da mesa ao lado, onde se proclamam lições de como vencer nos negócios copiando os métodos do falastrão?
Recupero-me nas jornadas rurais. Nelas, vejo com mais esperança a adoção pela agricultura de biotecnologias amigáveis do que com a boa educação que o brasileiro parece ter perdido junto com sua suposta cordialidade.