André Setaro
De Salvador (BA)
1.) Documentário que foge ao feijão com arroz tradicional das imagens entrecortadas por depoimentos, A música segundo Tom Jobim, do veterano Nelson Pereira dos Santos, é um documentário extraordinário. Primeiro, porque é sobre Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o maior compositor brasileiro de todos os tempos, e, segundo, porque o filme se restringe às músicas e às imagens de arquivo, sugerindo uma obra sinfônica. O realizador do clássico Vidas secas teve a sensibilidade suficiente de colher os registros de um tempo e acioná-los por meio da música do célebre maestro autor (com Vinicius de Morais) de Garota de Ipanema. Veja aqui o trailer oficial do filme em HD:
http://youtu.be/QNvrQ4yJQZY?
2.) Tom Jobim
é mais conhecido como um compositor da Bossa Nova, o parceiro
de Vinicius, Carlos Lyra, Chico Buarque, Newton Mendonça, outros, mas,
na verdade, é um compositor que atinge os limites fronteiriços da
música clássica, como podem ser observadas suas partituras para discos
como Wave, Matita Perê, Passarim, Urubu. Com formação clássica
e influências diversas, entre as quais Debussy, Jobim é um fenômeno
de talento. Ouvir a sua música e ver as imagens de sua grande época
- inclusive na interpretação por outros notáveis - se constitui num
espetáculo único. A pesquisa de imagens teve a colaboração da segunda
esposa do maestro, Dora Jobim, que cedeu os registros cinematográficos
do Instituto Antonio Carlos Jobim. Nelson Pereira dos Santos chegou,
por isso, a incluí-la como co-autora de A música segundo Tom Jobim.
3.) Partiturista
de filmes nacionais e estrangeiros, entre os que assinou o soundtrack
destacam-se: Orfeu negro (aqui chamado Orfeu do Carnaval,
1959)), o polêmico filme do francês Marcel Camus, baseado na peça
Orfeu da Conceição, de Vinicius de Morais; Porto das caixas,
(1962), de Paulo César Saraceni, Garota de Ipanema (1967), o
fracassado filme de Leon Hirszman, que pretendeu criticar o mito e mostrou
que estava completamente fora de sua praia, pois cineasta enragé;
O mundo dos aventureiros (The Adventurers, 1969), de Lewis Gilbert,
com Charles Aznavour, Candice Bergen, Ernest Borgnine, Rossano Brazzi,
Olivia de Havilland, John Ireland, uma superprodução de quase três
horas de duração; A casa assassinada (1974), de Paulo César
Saraceni, que se baseou num livro de Lúcio Cardoso. A trilha de Jobim,
para este filme, é magnífica; Gabriela Cravo e Canela (1982),
de Bruno Barreto, com Sonia Braga e Marcello Mastroianni; entre outros,
sem esquecer a música que fez, em parceria com Chico Buarque de Holanda,
para a minissérie Anos dourados da rede Globo. Se não fosse
uma certa preguiça que o caracterizava, Jobim poderia ter feito partituras
para muitos filmes importantes e, como partiturista de cinema, pode
ser comparado a alguns maiorais como Lalo Schifrin, John Williams, Jerry
Goldsmith.
4.) Sempre
admirei muito Tom Jobim e comprei quase toda a sua discografia disponível,
que a tenho em vinil, faltando apenas um ou dois discos. Mas com o advento
do CD, e a falência de meu toca-discos (difícil de encontrar outro
por aqui), não posso mais ouvi-lo em suas extensões mais clássicas.
Sempre que vou ao Rio, quando da aterrissagem no aeroporto que tem seu
nome, lembro-me, logo, de seu Samba do Avião. Uma vez, no Rio,
fui ao Bar Veloso, em Ipanema, lá pelos anos 70, e me sentei para tomar
alguns chopes. De repente, duas mesas adiante, vi sentado, sozinho,
com um chapéu panamá, o próprio Tom Jobim. Naquela época, um chopp
sempre via acompanhado de uma bolacha de papelão pela qual se contava
a quantidade bebida. A mesa na qual Jobim se sentara estava com um monte
dessas bolachas, sinalizadoras de que tinha entornado muitos e muitos
chopes. Pensei em me aproximar do maestro, mas, por tímido, fiquei
constrangido. O garçom me disse que ele frequentava todos os dias e,
geralmente, saía riscando. O Bar Veloso foi reformado e tomou
o nome de Garota de Ipanema, mas não tem mais as mesinhas características
com suas cadeiras de vime.
5.) Foi neste
bar que Jobim recebeu uma ligação de Frank Sinatra. Conta a lenda
que Sinatra, impressionado com o talento de Jobim, quando de sua apresentação
nos Estados Unidos, queria gravar um disco com ele. Telefonou para sua
casa em Ipanema, e sua primeira esposa, Tereza (sim, a Tereza da Praia)
informou que o marido deveria estar bebendo no Veloso e deu o número
do bar a Sinatra. Este imediatamente ligou e quem atendeu foi o garçom,
que foi avisar na mesa onde Jobim estava tomando chopes com os amigos.
Todos ficaram estupefatos. O grande Frank Sinatra a telefonar para Jobim
no bar! Jobim foi atender num daqueles telefones pendurados na parede.
Sinatra então o convidou para a gravação do disco.
6.) Ruy Castro
em A República de Ipanema conta a maravilha que era se morar
no bairro nos anos 60 e 70. Era uma verdadeira república como alude
o título do livro. Com o passar do tempo, Ipanema se descaracterizou,
perdeu alguns de seus bares característicos e seus frequentadores famosos.
Ficou apenas a lembrança de um tempo feliz. Castro, talvez num acesso
de exagero, chega a comparar Ipanema daquele tempo como o paraíso na
terra.
7.) Tijucano,
na época em que a Tijuca pertencia ao Rio Zona Norte, Jobim nasceu
em 24 de janeiro de 1927, vindo a morrer em 8 de dezembro de 1994, aos
67 anos. Fora a Nova York fazer uma cirurgia de próstata num dos centros
de excelência na especialidade. A operação correu bem, mas um coágulo
se soltou e invadiu uma artéria coronariana, obstruindo-a. Mas Tom
era da Tijuca apenas por nascimento, porque sua família se mudou para
Ipanema assim que ele completou um ano de idade. Segundo está escrito
na Wikipédia, "a ausência do pai, Jorge
de Oliveira Jobim,
durante a infância e adolescência lhe impôs um contido ressentimento,
desenvolvendo no maestro uma profunda relação com a tristeza e o romantismo
melódico, transferido peculiarmente para as construções harmônicas
e melódicas. Aprendeu a tocar violão e piano em aulas, entre outros, com o professor
alemão Hans-Joachim
Koellreutter, introdutor
da técnica dodecafônica no Brasil." Vale ressaltar que durante
a época de ouro da Universidade Federal da Bahia, anos 50 e 60, Hans
Joachim Koellreutter foi convidado pelo reitor Edgard Santos para compor
o corpo docente do então inaugurado Seminário de Música.
8.) O diretor
de A música segundo Tom Jobim, Nelson Pereira dos Santos, é
considerado o grão-duque do cinema brasileiro. Nelson plantou as sementes
do Cinema Novo com o seu precursor Rio quarenta graus, que seria
seguido por Rio Zona Norte. O seu melhor filme é, também, um
dos melhores do cinema nacional em todos os tempos: Vidas secas,
adaptação rigorosa do livro homônimo de Graciliano Ramos Na sua filmografia
tem uma boa versão de Nelson Rodrigues para as telas: O boca de
ouro, com Jece Valadão no papel-título. Se Nelson se dá bem nas
adaptações dos livros do Velho Graça (Memórias do cárcere
é um grande filme), não consegue, no entanto, ser feliz nas versões
realizados dos romances de Jorge Amado: Jubiabá é frustrante
para quem leu o livro, e Tenda dos milagres, ainda que bem melhor,
não convence.
Para quem gosta de boa música, um filme para ver obrigatoriamente.
Fale com André Setaro: andre.setaro@terra.com.br
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Divulgação
Cartaz de A música segundo Tom Jobim
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