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Quarta, 25 de janeiro de 2012, 08h03 Atualizada às 18h58

O mar enlouquece as pessoas

José Pedro Goulart
De Porto Alegre (RS)

Tenho aqui na praia, nas minhas férias, uma guriazinha de um ano e pouco que por ser minha filha faz de mim o que quer. E o que ela quer? Decerto não é me enlouquecer, visto que um pai maluco não serve para nada. Mas mesmo sem ela querer é o que está acontecendo. Casa de praia tem diferenças expressivas com relação à casa da cidade. A começar pela escolinha. A escolinha é um oásis na vida de pais e mães. O porto seguro onde são ancorados nossos barquinhos ainda sem remo, vela ou leme. Muita metáfora? Desculpem, sol forte.

Mas bem, aqui não tem escolinha, o que provocou uma espécie de distúrbio de horário. Pais, todos eles, sabem que atividades regulares põem ordem no galinheiro (ops) e fazem o soninho vir sempre na hora certa. No caso da minha filha, era por volta das nove da noite. Mas eis que já no primeiro dia por aqui ela avançou até meia-noite e só desmaiou no colinho do papai quando percebeu que este já havia desmaiado antes. Dormiu de pena, portanto. No segundo, sem esses bons sentimentos, passou com segurança da uma e meia da matina e só faltou pegar a chave do carro e sair para dar uma volta. Os pais, como costumam fazer nessas horas, estavam preocupados em investigar de quem era a culpa daquilo tudo.

"Filha, não põe os dedinhos na tomada que faz dodói." A vizinha que veio conhecer a criança tenta ajudar: "Assim o nenê vai molê!" De dia tem um exército a ser combatido: o das terríveis, sanguinárias, loucas por bebês, formigas vermelhas. A grama, portanto, lugar tão desejado e recorrentemente procurado pela criança, é lugar quase proibido. Exceto se o pai ou a mãe estiverem atentos, vigilantes, tensos. Férias é isso.

À tardinha, as formigas saem de cena. A hora é dos mosquitos. Besunta repelente. Liga o protetor na tomada. Fecha as portas. Pronto. É só ficar umas três horas trancados que a hora deles passa. Só não liga o ar que o narizinho entope.

Ontem, finalmente, minha filha viu o mar. Viu e deixou que ele tocasse nela. Mais do que isso, provou seu sabor salgado; bebeu golinhos de onda, sorveu daquela espuma branquinha. Se pôs louca por ele, enfim, a minha menina. "Filha, quem sabe um castelinho na areia?" Não, ela quer o mar. "Olha o buraco que o papai e a mamãe fizeram, aqui embaixo do guarda-sol."Mar. Mar. Mar. Precisamos urgentemente de reforços, o mar enlouquece as pessoas.

Crônica originalmente publicada no livro "Minhas Certezas Erradas"/L&PM


José Pedro Goulart é cineasta e jornalista.


Fale com José Pedro Goulart: zp.zepedro@terra.com.br ou siga @ZPgoulart no Twitter

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