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Quinta, 26 de janeiro de 2012, 07h48

Nara Leão

Divulgação
Nara Leão em foto dos anos 60
Nara Leão em foto dos anos 60

Paquito
De Salvador (BA)

Com a revolução de canto instaurada por João Gilberto, no Brasil, até seus precursores-contemporâneos - Maysa, Lúcio Alves, Dick Farney, Silvia Telles - passaram a soar como se fossem de um outro tempo, anterior a João. Nara Leão é uma das primeiras filhas deste padrão de interpretação, aparentemente espontâneo, mas, no caso de João, baseado em exercício constante e elaborado.

O canto de Nara trazia esse frescor de coloquialidade, e sua atitude estética desnaturalizava os comportamentos estanques. Seu primeiro disco, de 1964 - cinco anos depois do primeiro de João, Chega de saudade - rompia com a fase do "amor, do sorriso e da flor", e inaugurava a fase participante da Bossa Nova, redescobrindo o samba de Cartola, Nelson Cavaquinho e Zé Kéti, fazendo descobrir Baden - ela foi a primeira a gravar o clássico Berimbau, dele e de Vinicius - e Edu Lobo, dando voz aos novos trabalhos de Carlos Lyra e Vinicius, como a Marcha da quarta-feira de cinzas, comentário metafórico do momento pós-regime militar.

A partir daí, até 1967, sua produção passou a ser de dois Lps por ano, periodicidade comparada à dos Beatles, lançando novos autores como Paulinho da Viola, Sidney Miller e, principalmente, Chico Buarque. Muito jovem, Nara era uma referência para seus contemporâneos, gente da sua idade que ainda não havia feito sucesso, como Chico, Caetano e Gil, que deu o nome de Nara à sua primogênita. Além de musa, porta-voz. Ser gravado por ela agregava valor.

Mesmo musa da chamada música de protesto, Nara não foi, como era comum a alguns de seus colegas, contra o uso da guitarra elétrica na música brasileira. Atenta aos novos modos de (re)pensar o Brasil, endossou o tropicalismo e fez, em 1968, - em um movimento já diferenciado e multifacetado - o mais diferenciado dos discos tropicalistas, se é que se pode chamá-lo assim: com arranjos de Rogério Duprat, gravou Donzela, por piedade, não perturbes, modinha do tempo do império; o choro, de 1908, Odeon, de Ernesto Nazareth, com letra, encomendada, por ela mesma, a Vinicius; Medroso de amor, de Alberto Nepomuceno, autor nacionalista do século XIX; a Modinha de Villa Lobos e Manuel Bandeira, além de Custódio Mesquita, Lamartine Babo, Caetano, Gil e Torquato.

Em 1975, após quatro anos sem disco individual, lançou Meu primeiro amor, com as canções que cantava pra ninar os filhos, Isabel e Francisco, incluindo Atirei o pau no gato. Em 1977, lançou Meus amigos são um barato, com participações de Caetano, Gil, Chico, Menescal, Donato, o novato Nelson Rufino, Edu Lobo, Tom Jobim, Carlos Lyra, Dominguinhos e Erasmo Carlos. Um disco de curtição, que lhe rendeu o sucesso João e Maria, de Chico e Sivuca.

Em 1978, quando ainda era comum não considerar o autor Roberto Carlos, gravou o LP E que tudo mais vá pro inferno, só com músicas dele e Erasmo, escrevendo, na contracapa: "A música de Roberto-Erasmo passa pela emoção, fala das coisas 'sem importância', do quotidiano, de forma clara, simples e direta. Não constrói uma visão do mundo nem define as coisas como devem ser. Não interpreta, relata experiências."

Para interpretar um número tão distinto de autores, Nara possuía sensibilidade e uma voz que dava a impressão de quase se quebrar, tal a delicadeza da emissão, pequena e doce, jamais encarnando o estereótipo da cantora de voz potente, pra fora. Mas seu espírito era determinado.

No dia 19 de Janeiro, Nara Leão completaria 70 anos, e foi lançado o site naraleao.com.br, com cronologia, fotos e, o que é mais importante, sua obra discográfica, pra quem quiser ouvir e curtir seus acertos, poucos erros, e a força de quem não temia o risco e fazia o que fazia, sem forçar a barra.

A porta de entrada para o universo de Nara bem pode ser a edição do programa Ensaio, de 1973, com ela, sob a direção de Fernando Faro, que, infelizmente, não está disponível no site, mas foi lançado em DVD pela Biscoito Fino, em 2006. Neste programa, já tendo um longo caminho andado na música, Nara faz um balanço da carreira e abre cantando o Soneto, de Chico Buarque, à capela, só a voz, nuinha e afinada, para, no fim, relaxar, sorrir discretamente e nos deixar siderados.

Além disso, Nara fala. Diz coisas modestas como "até hoje não sei o que vou ser na vida" e que gostava de cantar sempre as mesmas músicas, elegendo Insensatez, de Tom e Vinicius, como a sua preferida, pelo valor sentimental. E curtia músicas em que a mulher ficava em casa, chorosa, por causa do amor que estava na rua, farreando, como Camisa amarela, de Ary Barroso, e Fez bobagem, de Assis Valente, tanto que pediu a Chico uma canção semelhante, e ele fez Com açúcar, com afeto.

Nara fala que quase gravou É de manhã, do Caetano pré-tropicalista, mas a fita com a canção, que havia trazido da Bahia, não tocava, por razões técnicas, nos equipamentos do Rio. No entanto, sugeriu que Bethânia a substituísse no espetáculo Opinião, no Rio, o que deu a largada para os baianos no sudeste. Bethânia trouxe Caetano, Gil, Gal e Cia. Nara, indiretamente, foi uma das responsáveis pela chegada dos futuros tropicalistas.

Nara também fala de João Gilberto, do fascínio que ele exercia sobre todos que o rodeavam, e as manias, como falar horas ao telefone e quase escravizar os seus discípulos. Mas conclui que, no fim, era ótimo, pois João mudou tudo. Nara fala de Jeanne Moreau, que gravou a Joana Francesa, de Chico Buarque, para o filme do seu então marido, Cacá Diegues, e diz que a atriz cantou a música com muito charme.

De charme e fascínio, Nara sabia, pois é o que tem, na medida, no jeito dela de olhar, falar, cantar e tocar violão. Vê-la e ouvi-la no Ensaio é mais que entendê-la. Faz a gente se apaixonar.


Paquito é músico e produtor.

Fale com Paquito: anjo.paquito@terra.com.br

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