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Sexta, 27 de janeiro de 2012, 08h04

Uma escola de teatro contra a Província

Deolinda Vilhena
De Salvador (BA)


Martim Gonçalves (Foto: Divulgação)

Para os amantes do teatro (e da cultura!) na Bahia a coluna dá a dica para o evento da próxima semana: a defesa de tese de Jussilene Santana no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia. Embora seja um nome de destaque na cena teatral de Salvador (Prêmio Braskem de Melhor Atriz de 2004, pelo desempenho no espetáculo Budro), confesso que conheci Jussilene via internet e através do livro Impressões Modernas - Teatro e Jornalismo na Bahia quando preparava o concurso de Professora da Escola de Teatro.

Martim Gonçalves - Uma Escola de Teatro Contra a Província é fruto da sua pesquisa de doutorado e tem como objetivo "compreender as causas que motivaram o afastamento do diretor Martim Gonçalves da Escola de Teatro da Bahia, instituição por ele criada e administrada entre os anos de 1956 e 1961".

Estrangeira como Martim Gonçalves, recém-chegada e desde então aprendendo a conviver no fogo cruzado das picuinhas da província, vocês podem imaginar que meu interesse pelo tema é uma necessidade vital para compreender o avesso da cena nessa terra, falsamente acolhedora, onde decidi me instalar com armas e bagagens.

Para acabar com o mito da geração espontânea e apostando que só sabendo de onde viemos podemos decidir para onde vamos, lembro a vocês que a Escola de Teatro - essa mesmo da qual sou professora com muito orgulho - é a primeira no Brasil ligada a uma instituição de nível superior, a então Universidade da Bahia. Acabo de incorporar isso e da mesma maneira que não consigo entrar na Sorbonne sem pensar que ela data de 1257 e que o Brasil data de 1500, a partir de hoje pensarei sempre ao entrar naquele casarão que a minha Escola de Teatro é a primeira do Brasil. Aconselharei firmemente meus alunos a fazerem o mesmo. Questão de respeito ao nosso capital simbólico.

CAMINHOS E DESCAMINHOS DA GESTÃO CULTURAL NA BAHIA


Jussilene Santana (Foto: Divulgação)

Jussilene Santana propõe uma nova narrativa interpretativa para a primeira administração da Escola de Teatro da Universidade da Bahia, descendo em detalhes no cotidiano de aulas, cursos, palestras, eventos e parcerias promovidos pela instituição, unidade que nesses anos contou com a colaboração de artistas e profissionais de 15 nacionalidades.

A partir desse duplo movimento, o trabalho analisa uma sequência de sete práticas de aceitação, acolhimento e repúdio direcionadas à instituição teatral e ao diretor da mesma, práticas retiradas substancialmente dos jornais da época e das reportagens e livros, também de história, que os tomaram como fontes. Tais práticas, segundo a doutoranda, revelam uma verdadeira teoria sobre a Província, trazendo à luz a mentalidade e o imaginário da intelectualidade local. Em sequência, as práticas estudadas: cooptação pela bajulação; o uso de mentiras, meias-verdades e a sequência de incompreensões, argumento ad hominem, a crítica bumerangue, destruição da persona pública, um sonoro silêncio e os caminhos fechados e por fim expurgo da memória, da história, recalque e esquecimento.

Jussilene conta que teve acesso "a uma poderosa documentação sobre a gestão cultural da Bahia nos anos 1950 e 1960, documentação que muito explica sobre o que somos/pensamos hoje. Esses foram os anos da encruzilhada. E, parece, tomamos a direção errada".

Orientada pelo professor doutor e diretor teatral Ewald Hackler, Jussilene terá na banca a historiadora e crítica teatral Tânia Brandão, o diretor, crítico e professor Sérgio de Carvalho, a dramaturga e professora-doutora Cleise Mendes e a professora doutora Catarina Sant'Anna. A defesa pública acontecerá dia 31 de janeiro, terça-feira, às 9h, no Teatro Martim Gonçalves, Escola de Teatro, na rua Aráujo Pinho, 292, no Canela. Estarei na primeira fila e farei dessa coluna uma convocação extraordinária para os meus alunos, mesmo em período de férias. Eles deveriam ser os maiores interessados em conhecer a história da Escola que escolheram. Assim como compreender que, como bem disse Jussilene, é preciso algo mais do que talento para fazer teatro: "os talentos não florescem como flores, margaridas selvagens. Eles precisam de estrutura para evoluir e criar outras relações. O que eu vejo é que nos últimos 50 anos existiram dois momentos onde essa estrutura de fato aconteceu: dos anos 50 para os 60 e nos anos 90. O resto era o teatro à própria sorte, marginalizado, sem conseguir dialogar com a sociedade. Tenho muitos colegas talentosos e atores novos surgindo, mas o talento sozinho não é nada. Se o talento não é trabalhado, a pessoa se decepciona, se enfraquece. Não é todo mundo que tem energia para viver às próprias custas."

Deolinda Vilhena é jornalista, produtora teatral, Doutora em Estudos Teatrais pela Sorbonne e professora do Departamento de Técnicas do Espetáculo da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia.

Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br

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