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A blogueira cubana Yoani Sánchez, que teve concedido visto de entrada no Brasil
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Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo
Pois que, estimados leitores, não é sempre, não é nem ao menos lá muito frequente, mas de quando em vez eu sinto orgulho do meu país. Olhem que orgulho é diferente de amor, que é diferente de gostar. Amar o Brasil é moleza, apesar do PR, PSD, PMDB, Deus é Amor e Los Hermanos. Gostar não chega a ser difícil, bem como não gostar, já que o Brasil é pródigo em sinais exteriores de pobreza material e de espírito, que se manifestam no nosso escasso amor por livros e excessivo apreço a babás de branco, desmatamento na Amazônia e outlets na Flórida.
Orgulho é o que acontece quando o país da gente tem escolhas e vai pelo melhor caminho. Quando não mandamos embora os migrantes escravizados em fabriquetas no Pari, quando deixamos entrar os haitianos que chegam ao Acre, quando o STF legaliza a união civil para todos, quando o nosso governo manda o Ahmadinejad ver se estamos na outra esquina, e agora, quando damos o visto de entrada para a blogueira e oposicionista do brontossáurico regime cubano, Yoani Sánchez.
Quem decide algo assim, não é um funcionário de terceiro escalão no Itamaraty e nem mesmo o nosso estimado Antônio Patriota. Decisão desse porte, que afeta as relações entre o Brasil e outro país, que ela vai visitar nesse dia 31, foi da nossa estimada presidente, Dilma Rousseff. Ponto para ela.
Existem aqui duas hipóteses. A primeira é de que o jogo foi combinado com os russos, como deveria ser, na verdade. Países não fazem o que fazem por prazeres pessoais dos seus dirigentes, salvo as exceções de costume. Com esse visto para Yoani, o Brasil está marcando a sua posição em relação a os cidadãos de países latino-americanos: se eles querem vir nos conhecer, que venham. É um direito dos cidadãos do Mercosul, que estamos ampliando. Vamos virar o ponto de encontro natural de todos os latino-americanos, o que eu, estimados leitores, acho ótimo. Nós somos mesmo o centro, somos um país de mestiçagem cultural e temos espaço de sobra, tanto nas mentes quanto nas praias. Querem vir, venham. E Cuba deve ter topado o jogo, que não a ameaça e traz grandes benefícios. Se abrir para o Brasil significa ter um parceiro que pode ajudar a resolver grande parte dos problemas estruturais que eles enfrentam - fora da política maluca que eles criaram e da qual precisam sair por conta própria.
A outra hipótese é pior, e defendida por amigos meus que conhecem Cuba e seus dirigentes. Dizem que não, eles não vão conceder o visto de saída, o que seria uma insanidade, além de um insulto à nossa presidente e ao nosso país. Vamos ver. De minha parte, fica aqui o meu enorme desejo de uma boa vinda para Yoani. Não a conheço, mas um bom amigo, escritor e jornalista venezuelano, fez uma extensa entrevista com ela em Cuba, cujo link aqui está: http://leofelipecampos.files.wordpress.com/2011/11/yoani-sanchez.pdf
Ele é um grande conhecedor da realidade latino-americana, e me garante que ela é real e que é isso mesmo que lemos e vemos. Uma cidadã de um país disfuncional que cansou da disfunção e quer, simplesmente, a igualdade a que tem direito. A igualdade com seus irmãos latino-americanos, que viajam para onde querem, quando querem, que podem trabalhar e receber um salário real para isso, mesmo que baixo, quando o seja. Que podem, ora vejam, votar em quem quiserem e eleger seus governantes, mesmo que não sejam aqueles que o PC cubano escolheu como os melhores entre os melhores. Ela quer uma vida mais sensata e não dominada pela paralisante burocracia que matou o socialismo onde ele foi tentado. Ela quer, caríssimos leitores, algo tão básico que nem deveria ser assunto. Ela quer normalidade.
O Brasil que eu conheci, em boa parte da minha vida, não era um lugar normal. Igual ou comum ele não era e segue não sendo, mas era muito, muito anormal. Ter aqueles generais e arenistas nos dizendo o que fazer era o fundo do poço. Ansiamos e brigamos até termos de volta o essencial, a nossa liberdade. A partir dela e de uma Constituição libertária, começamos a construir um país decente. Para nós, é algo que temos como certo e direito, e acordamos todos os dias para essa realidade. Lá fora, ninguém nos impede de coisa alguma, e em 2012 vamos escolher quem vai dirigir as nossas cidades. Em 2014, vamos escolher governadores e presidente, e quem ganhar, leva. Yoani nunca teve nada disso, nem imagina ao certo como seria, mas quer. Ela pode, ou não pode querer?
O governo cubano diz que não pode. Curiosamente, muita gente aqui mesmo no nosso Brasilzão acha que ela não pode. Acham que ela é uma traidora e agente da CIA. Porque, naturalmente, como Cuba é um paraíso, somente os traidores e agentes da CIA podem não gostar. Eles acham isso, porque são de direita.
A direita, seja qual o nome que ela se atribua, caros leitores, odeia dissidência, odeia crítica, odeia a liberdade. Esses ultradireitistas disfarçados de esquerda odeiam Yoani, e nem é pessoal. Eles odeiam a todos os que gostam de liberdade, mesmo que eles vivam nela e se beneficiem dela. Ela é boa para eles e má para os cubanos. Só não explicam como, e é isso que Yoani pergunta, e eles, obviamente não têm como responder. Não tendo o que dizer a atacam e insultam, se recusando a reconhecer que ela é apenas uma cidadã exigindo os seus direitos e sua dignidade. Que vergonha, ultradireitistas de araque, que vergonha.
Mas isso não importa. Porque, se eu sinto vergonha desses ultradireitistas, que não importam, sinto orgulho do que importa, da minha presidente e do meu país. Acredito que o governo cubano pode ser fossilizado, mas não é burro; acredito que tudo está combinado, eles não vão nos fazer essa desfeita, e jamais o fariam na frente da Dilma, que não leva desaforo para o Alvorada.
Assim, acredito que Yoani vem aí, que poderemos conhecê-la, ouvi-la, questioná-la, saber mais. Bem-vinda, Yoani. estamos de olhos, ouvidos, e braços abertos para você. Uns podem não estar, mas não dê bola. Nós, estamos.