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Arestides Baptista/Agência A Tarde
Camarote que, mais de um mês antes da festa, ocupa área pública da orla de Salvador, com capacidade para mais de 3 mil pessoas, cobra até R$ 4.890 de folião por seis dias de carnaval
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Paulo Miguez
De Salvador (BA)
Não é de hoje a existência de espaços privados no carnaval. Historicamente, a folia momesca no país sempre ocupou ruas, território por excelência do carnaval popular, e salões, onde a "boa sociedade" já desde o século XIX divertia-se nos seus bailes com máscaras, fantasias luxuosas, serpentinnes e confetti, tudo importado diretamente da Europa pelos elegantes estabelecimentos comerciais que faziam a gala e o glamour das elites locais.
Na Bahia, aproximadamente até os anos 1980, a aristocracia local pouco dava as caras no carnaval de rua. No máximo, limitava-se a instalar cadeiras e bancos ao longo das calçadas da Avenida Sete para apreciar a folia durante o dia. Para além disso, apenas a ousadia de alguns dos seus membros que se davam ao "desplante" - diriam familiares e amigos espantados - de misturar-se com o povão que se divertia seguindo blocos, batucadas, afoxés e trios elétricos.
Festa mesmo a aristocracia fazia nos bailes e "gritos de carnaval" do Baiano de Tennis, da Associação Atlética da Bahia e do Yatch Club - e isto, mesmo depois das classes médias, no início dos anos 1970, já terem "descoberto" o carnaval de rua por conta da explosão do trio elétrico e da chegada dos primeiros turistas.
O gosto pelo carnaval de salão, entretanto, e é bom que se diga, não era privilégio exclusivo das elites. Empregados domésticos, porteiros, serventes etc, que trabalhavam durante o dia, esbaldavam-se, à noite, nos bailes do Palmeiras da Barra; moradores do subúrbio lotavam o Esporte Clube Periperi; foliões das classes médias, de média pra baixo, divertiam-se no Costa Azul, Campo Mar, Clube Comercial etc. Havia, portanto, sempre houve, salões para todos os gostos e bolsos.
Os camarotes propriamente ditos aparecem pela primeira vez na cena carnavalesca de Salvador nos anos 1980. O primeiro deles, montado pela Bahiatursa no Campo Grande - local que então passava à condição de passarela oficial do desfile das entidades carnavalescas que antes confluía para a Praça da Sé -, destinava-se quase que exclusivamente a receber autoridades e convidados, tinha um sentido de camarote oficial.
Na década seguinte, quando surge o novo circuito carnavalesco no trecho da orla marítima da cidade entre a Barra e a Ondina, os vários hotéis aí existentes passam a montar "balcões" que, licenciados pela Prefeitura, eram ocupados basicamente pelos seus hóspedes, turistas que vinham para o carnaval de Salvador. Ao longo dos anos 1990, contudo, na esteira da profunda mercantilização do carnaval, os "balcões" vão, rapidamente, dar lugar aos camarotes. Neles vão instalar-se os foliões das classes médias e altas que desde a década anterior, com o desaparecimento dos clubes sociais da elite, haviam migrado para o carnaval de rua, mais precisamente, para dentro das cordas dos blocos de trio, já então organizados como empresas.
A partir de então, os camarotes cresceram em número - já chegam a pouco mais de meia centena - e, principalmente, tornaram-se uma das oportunidades de negócio mais importantes do mercado de produtos carnavalescos.
Negócio sofisticado. Chegando a receber, os maiores, mais de mil pessoas por dia, os camarotes são, hoje, espaços que oferecem a um público de alto poder aquisitivo (perto de 90% do seu público é formado pelas classes média alta e alta), inclusive turistas (a maioria, nacionais), um conjunto altamente refinado de serviços que vai da segurança - leia-se, distância do povão - a bares, buffet, cabelereiro, maquiadores, massagistas, discoteca etc. Um luxo só.
Sofisticado e, também, altamente lucrativo. Com forte apelo comercial, os camarotes disputam com muito mais facilidade que os outros negócios da festa, inclusive os blocos, o mercado de patrocínios. A larga maioria (mais de 70%) é montada por empresas privadas, especialmente os grandes blocos carnavalescos interessados em engordar sua carteira de negócios. Um número bem pequeno de camarotes é dedicado ao marketing de relacionamento de grandes empresas e/ou artistas, nos quais a admissão é feita exclusivamente por convite. Outros (pouco mais de 20% do total) são explorados comercialmente por instituições públicas ou corporativas (Polícia Militar, Aeronáutica, Exército, sindicatos etc)!!!! Feitas as contas - mal feitas, já que o Poder Público só muito recentemente começou a medir os números da festa, números, aliás, guardados a sete chaves pelo negócio e seus negociantes - os camarotes, opção de aproximadamente 12% dos foliões, respondem por uma movimentação financeira que deve superar com folga a casa dos R$ 20 milhões. Em 2007, de acordo com estudo realizado pela Secretaria de Cultura do Estado, o valor movimentado já era de R$ 17 milhões.
Pois bem. Finalizei o último artigo que publiquei nesta coluna afirmando não ter nada contra os camarotes do carnaval de Salvador. E não tenho. Não tenho porque não consigo imaginar um carnaval completamente livre de espaços privados - pelo menos é assim que a festa tem sido ao longo de sua longa história, com as cadeiras da Avenida, os clubes e as cordas, e estas desde muito tempo. E não consigo imaginar apenas porque sei que, para além das misturas que propicia, o carnaval não tem o condão de abolir classes, eliminar privilégios, dissolver hierarquias. É pedir a Momo o que deveríamos exigir dos governos, esperar das políticas públicas.
Ainda desta perspectiva, arrisco dizer que mesmo sendo um revival dos velhos clubes sociais, os camarotes sugerem uma diferença simbólica que merece ser registrada. É que os clubes tinham muros, faziam uma festa completamente fechada. Já os camarotes, ao se voltarem para a rua, e independente da festa privada que rola lá dentro, acabam por reconhecer a festa popular, de rua, como o epicentro do carnaval. Digamos, uma vitória, ainda que simbólica, da festa pública sobre a festa privada. Da rua sobre a casa, invocando a oposição anotada por Roberto da Matta.
Mas não tenho nada contra os camarotes - e reafirmo a ressalva que fiz no artigo anterior - desde que ocupem apenas espaços privados ao longo dos circuitos da festa. Em espaços públicos não. Camarote nenhum. Em lugar nenhum. Por razão nenhuma.
Não tenho nada contra os camarotes e nem contra o negócio dos camarotes, um negócio que movimenta a economia da festa e que abre milhares de postos temporários de trabalho. Mas desde que seja um negócio efetiva e criteriosamente regulado em favor da dimensão simbólico-cultural do carnaval - regulado, aliás, como deveriam ser, e não são, os negócios dos blocos, responsabilidade da qual tem se omitido, descarada e irresponsavelmente, o Poder Público.
Regulado quanto às taxas que devem pagar; quanto às responsabilidades com o fluxo do desfile a que assistem de graça e que costumam interromper por demandarem espetáculos exclusivos de blocos e artistas que passam em frente às suas varandas; quanto aos cuidados com a cidade e seus moradores nos períodos de montagem e desmontagem de suas estruturas, etc, etc.
De resto, acompanho Caetano Veloso que, registrando em tom de crônica e crítica os dois carnavais, o de rua e o dos clubes, resolveu definitivamente a questão quando, numa de suas maravilhosas canções feitas para o carnaval da Bahia nos anos 1970 e intitulada "Frevo Novo", cantou, "todo mundo na praça e manda gente sem graça pro salão".
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