Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo
Estimados leitores, quem inventou essa história de as escolas aqui em São Paulo iniciarem as aulas em 1º de fevereiro? Mas não existe respeito algum pelas mais nobres instituições, tais como o verão? Verão escolar na minha infância durava uns cinco anos, pelo menos. Essa era a sensação lá pela metade de dezembro, quando já se ia com quase um mês de distância das aulas e da professora de religião e ainda havia um deserto de Gobi para ser atravessado antes de eu voltar ao prédio do Grupo Escolar Presidente Vargas, onde alguém iria tentar de novo me ensinar a conjugar o verbo "requerer" e o valor de Pi até a vigésima-quinta casa decimal, em vão.
Eu até nem me importo tanto com o fato de as crianças de hoje terem mais dias letivos para não conseguirem aprender as mesmas coisas, mas precisavam trazer de volta todos os dois milhões de paulistanos que se vão em dezembro, deixando a cidade tão maravilhosamente habitável? Sabem o que acontece? O que era doce era doce, mas simplesmente curto demais. Os verões acabaram, caros leitores e isso é inaceitável. Que mundo é esse que aumenta a escola e diminui os verões, quando precisamos, eu suspeito, fazer exatamente o contrário?
Pois como aqui nessa coluna somos gente de ação, fiz o que se espera de qualquer brasileiro digno do nome e da cidadania: inspirado na deliciosa cidade que havia até ontem, criei um mundo imaginário todinho feito para compensar as deficiências do outro mundo, esse aí de cima. Quem passar aqui pelo meio bairro vai sentir logo a diferença porque os sinais de mundo ideal estarão por toda parte.
No Pão de Açúcar aqui em frente, por exemplo, jamais irão ouvir Seu Jorge e Arnaldo Antunes. Olhem só como tudo vai ser menos desanimado, gente! Não vão jamais escutar axé tampouco, porque o meu mundo ideal é sim animado, mas não pela definição sonora da idiotice humana, saltitante ainda por cima.
Na seção de sorvetes, nada além de Häagen-Dazs, mas a preço de Rochinha, que é muito mais estimado do que bom. No lugar de cada padaria surgirá uma livraria, para que a gente possa continuar curtindo queijo quente com média escura e suco de laranja, mas com um bom conto do Salinger ou do Dalton Trevisan saltitando na chapa.
As televisões das ex-padarias, agora livrarias, não vão passar nada da Globo, até mesmo porque no meu mundo imagiário e ideal a Globo, a Record, a RedeTV, o SBT e todas as outras televisões abertas vão ter sérios problemas de sintonia, o que vai de novo me fazer lembrar da minha infância querida, aurora da minha vida, onde praticamente não havia tevê e a gente se virava muito bem sem o BBB.
No meu mundo imaginário a internet vai começar de 1 Gigabit por segundo e os pop ups vão sumir numa nuvem de fumaça. O Facebook vai ser trocado por qualquer coisa que não me faça mais ter acesso à intimidade de todo mundo, especialmente dos meus amigos, que eu já conheço bem demais para querer saber o que fazem quando não estamos por perto. Ninguém vai saber que já houve um Legião Urbana ou Los Hermanos. Nossa história musical vai ter sido impecável, desde sempre.
No meu mundo novo e ideal não vai haver escravidão. As pessoas vão continuar tendo o direito de vender a alma para o bispo e pagar dízimo, de usar véu muçulmano, de acreditar no padinho padiciço, no mistério da fé, na imaculada conceição, no círio de Nazaré, na fogueira de Jeová, de acreditar no Silas Malafaia e no Wellington Jr, mas ninguém vai fazer nada disso porque no meu mundo ideal as pessoas não vão mais ser tolas.
Não vai haver qualquer necessidade de exercício físico e poderemos mandar ver no churrasco com cerveja sem culpa ou colesterol. A presidente Dilma vai poder desmontar o ministério toda semana, porque haverá um novinho e pronto para ser demitido na segunda-feira.
O trânsito de São Paulo vai ser sempre como o da semana passada. Para quem não lembra ou não estava aqui, até dias atrás a gente saía de casa e chegava onde queria, em um tempo bem razoável para o tamanho da cidade. Pois no meu mundo ideal isso vai ser sempre assim.
Para isso, e aqui está a chave da questão, dois milhões de paulistanos vão subitamente se dar conta de que estavam muito melhor na praia do que aqui, e, portanto, eles não vão subir de volta a serra. Todos vão encontrar emprego em Santos perfurando poços ou dirigindo navios para a Petrobrás ou para o Eike. Outros vão descobrir uma súbita vocação para a pesca, para o tai chi chuan ao nascer do sol, ou vão ceder a aquela vontade irresistível de agarrar uma árvore ao som de Dead Can Dance. Todos vão ser hippies e felizes, e o macramê vai ser a arte do momento. A Veja vai se transferir para o litoral e assim ninguém vai sentir falta de nada.
Enquanto isso, na cidade, a vida vai ser feliz, e, melhor ainda, arejada. Utópico, talvez. Mas na imaginação, como na vida, sonhar é, mais do que importante, essencial.