Atualizada às 11h46 |
Cláudio Leal/Terra Magazine
"Lei antifumo atenta contra a liberdade do homem", opina André Setaro (foto)
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André Setaro
De Salvador (BA)
1) A lei que proíbe o fumo em lugares públicos fechados tem um teor fascista e está a fazer do fumante um marginal, um coitado, um ser indesejado nos recintos. Um indesejado das gentes, como poderia dizer, na sua época, Machado de Assis. Não se quer aqui fazer a apologia do fumo, pois não é disso que se trata, considerando que o cigarro faz mal a saúde. É mais uma questão cultural. Há, por outro lado, uma campanha tão insidiosa contra o fumo que as pessoas, lavadas cerebralmente, olham para o fumante de soslaio e de esguelha. Quem tem mais de 40 anos foi criado numa sociedade que tinha o cigarro como fator de charme. Era chique se fumar. As mulheres portavam uma cigarrilha dourada, folheada a ouro, com os cigarros dispostos em fila, dentro, como soldados numa parada militar. Adquirido o vício na época em que ele reinava, o fumante, que não conseguiu largar, tem todo o direito de fumar sem que seja constantemente censurado - até o dia em que acabe sendo mesmo apedrejado nos lugares.
2) Mas também aqueles que não fumam possuem o direito de não serem incomodados pela fumaça dos cigarros. A solução anterior era perfeita: separar os ambientes para aqueles que fumam e os ambientes para aqueles que não fumam. Mas foi preciso encontrar um inimigo. E o inimigo encontrado foi o fumo. E os gazes dos automóveis que engarrafam as principais cidades brasileiras? E os agrotóxicos dos legumes? O gado clonado e servido como legítimo streek?
3) O que se pretende clamar, aqui, é pela liberdade do homem, pela liberdade de se fazer o que quiser, desde que os direitos dos outros não sejam atingidos. A lei antifumo penaliza o fumante, retirando-o do convívio social. Muitos dos que fumam, fazem-no por vício e não por um exercício lúdico. Alguns conseguem se ver livre do cigarro, outros não conseguem nem sequer escrever ou raciocinar sem o companheiro amigo de todas as horas. Este escrevinhador, indo, ano passado, a Belo Horizonte, fez um voo de conexão, e ficou algumas horas no Galeão (Rio). Havia (não se sabe se ainda há), um fumódromo, que mais se assemelhava a um quiosque, redondo e com um estribo circular. Para esperar o voo, ficou a tomar uns chopes e teve vontade de fumar e lá se foi ele para o fumodromo. Subindo no estrado, à sua frente estava um piloto de avião soltando fumaça na direção deste escrevinhador e este em direção a ele. Simplesmente ridículo. Quem fuma gosta de fazê-lo ao escrever, ao bater um papo, ao desenvolver um pensamento, sendo, portanto, o cigarro também um coadjuvante nas horas de prazer e de reflexão.
4) Quem observar os filmes americanos realizados nos anos 40 e 50, principalmente, vai constatar que quase todos os personagens em cena fumam desbragadamente. Num momento em que, num filme de guerra, o soldado está morrendo, o companheiro que o socorre tem, como primeiro gesto, tirar um cigarro para que o outro possa morrer em paz dando a sua última tragada. Em O homem de Alcatraz (The birdman, 1962), de John Frankenheimer, Burt Lancaster fuma em todos os planos que aparece -e aparece em quase todos, pois o personagem principal. Jean-Paul Belmondo como Michel Poiccard em Acossado (A bout de souffle, 1959), de Jean-Luc Godard, fuma um cigarro atrás do outro, acendendo o seguinte com a chama do precedente. Aliás, Jean-Luc Godard era (ou ainda é) um fumante inveterado.
5) Mas nos filmes contemporâneos, pelo menos nos americanos, ninguém fuma mais. É proibido fumar nos filmes, e se, por acaso, possa se encontrar um fumante, este é um personagem negativo, bandido, de má índole. A psicose antitabagista é coisa de cinco anos para cá, pois ainda agora, ao rever O alfaiate do Panamá (The tailor of Panama), de John Boorman, que é de 2001, Pierce Brosnan, o astro principal, fuma em todas as cenas. Humphrey Bogart, o Bogie, ícone do cinema mundial, bebia e fumava com muita intensidade, chegando a dizer: "O homem só é homem depois de três scoths, porque fica três graus acima da canhestra realidade."
6) A onda politicamente correta tem destruído a liberdade de expressão do homem contemporâneo, atrelado a uma série de bobajadas. O humor, por exemplo, da televisão, salvo raríssimas exceções, acabou. Chico Anysio disse certa vez numa entrevista: "Atualmente fica muito difícil se fazer humor na televisão com a patrulha do politicamente correto." Neste particular, o escrevinhador desta coluna é profundamente politicamente incorreto. Muitos riem das trapalhadas que acontecem no Big Brother Brasil, o famigerado BBB. Mas será este o humor contemporâneo? Será essa a graça da contemporaneidade? Bata-me, como se diz na Bahia, por favor, um abacate!
7) E, além do mais, nos filmes americanos, há, em certos filmes, um preconceito que se encaixa na trama do filme, quando, por exemplo, um personagem está fumando e o outro diz: "Por que não larga logo esta droga?" É a vox do diretor patrulhando até dentro da diegese cinematográfica, dentro do desenvolvimento narrativo, a condenar, através de outro personagem, aquele que fuma. A lei antifumo atenta, repita-se aqui, contra a liberdade do homem. Em A laranja mecânica (A clockwork Orange, 1971), de Stanley Kubrick, a cena que dá a chave do filme é quando, na biblioteca, um padre diz a Alex que o mais importante para o homem é que ele conserve o seu livre arbítrio.
8) Para aqueles que costumam enxergar sempre lugares comuns e clichês nos filmes: "Essa repetição do mesmo é, aliás, um dos elementos importantes da instituição cinematográfica, uma de suas funções que ainda falta analisar; a única submissão à ideologia que não permite justificar de maneira satisfatória o fato de que os espectadores vão ao cinema ver histórias cujo esquema se repete em todos os filmes." (Jacques Aumont in A estética do filme (Esthétique Du film), Papirus Editora. Página 83.
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