Atualizada às 11h47 Paquito
De Salvador (BA)
Policiais militares grevistas durante ocupação da Assembleia Legislativa (Foto:Agência A Tarde)
"A cidade do axé, a cidade do terror" diz a música, hoje antiga, do Camisa de Vênus. Não mais uma metáfora da "dominação" cultural dos símbolos da afro-baianidade, como propunha a atitude punk daqueles anos oitenta, agora os versos soam literais, com a greve, ainda em vigor, da polícia militar do Estado.
No bairro onde moro, Campo Grande, um dos lugares centrais de Salvador, de oito dias pra cá, quando cai a noite, há muito menos gente na rua do que de costume. Nos primeiros dias da greve, a sensação de pânico era mais presente.
Com o tempo e a ausência ainda de um acordo entre o governo e os grevistas, o soteropolitano quase vai se acostumando com a situação de exceção, como já se habituou, há tempos, com a poluição sonora de trios elétricos e afins, gente comendo lixo, lixo circundando a gente, e o desrespeito constante à cidadania.
Fosse há dez anos, a culpa seria, com certeza, dos governos carlistas, treinados na prática da intolerância, falta de diálogo com os oprimidos e trabalhadores. No entanto, o atual governador do estado tem uma história longa construída no movimento sindical, tendo, inclusive, apoiado a greve de 2001 da mesma polícia federal, quando o governador era Cesar Borges, do PFL.
Atualmente, não devia ser, pelo menos, mais harmoniosa, a relação entre as partes? Ou ter havido negociações anteriores, para evitar o impasse? Após o carlismo e seus malefícios, morto seu criador, vieram o petismo e seus vícios. No meio da queda de braço entre o governo e os grevistas, fica refém a população da cidade.
Em bairros como Canela ou Graça, de classe média, a quietude aparente fez um amigo meu dizer que a cidade semi-deserta é ótima pra caminhar. Mas os saques, por exemplo, na Liberdade, onde está sediado o Ilê Ayê - mais belo dos belos -, instauraram um clima de incerteza, tensão e desespero. Nestes lugares, até com a presença da polícia, convive-se com a insegurança constante. Na situação atual, o comércio fecha mais cedo e algumas lojas nem abrem as portas.
A cidade do axé, a cidade do terror.
Uma coisa o governador conseguiu: desviar o foco do crescente movimento Desocupa, que tenta destituir o prefeito. Acordo (in)voluntário entre os poderes municipal e estadual? Enquanto isso, o poder federal tira ouro do nariz.
Mas, ao contrário do que escreveu Gilberto Dimenstein, Salvador não é uma mentira. Ela não é apenas a boa terra, mas é também a boa terra. A jovem senhora de requebros e magias, há anos, vem apresentando problemas de saúde, mas nunca é medicada a tempo. Uma das feridas estuporou, mas não é a única. Sem saber equacionar a tradição de mito de origem do Brasil com as novas exigências da vida de uma metrópole em crescimento desordenado e desigual, os aleijões vão aparecendo e solapando o viço.
Ou até mesmo a doença é um sinal de saúde do corpo, tentando expulsar as toxinas que infestam o organismo. Mas não deixa de ser doença. O baiano faz do descaso um charme e uma força, e quase sucumbe à falta de reivindicação cidadã com um sorriso nos lábios, um jeito de corpo. No entanto, essa atitude não é a única.
Revolta do malês, rebelião dos alfaiates, Sabinada, quebra-quebra de ônibus no crepúsculo da ditadura militar: a Cidade da Bahia nunca foi apenas a terra da felicidade, mas a terra da busca da felicidade, e tem, sim, um jeito todo seu, que nenhuma terra tem, com carinhos, vontades e caprichos, como todo corpo vivo, que pulsa.
E Salvador pulsa. Às vezes, como agora, taquicardiamente. De repente, sobrevém uma calmaria, repito, quase como se acostumasse.
O problema é acostumar.