Victor Romano
De São Paulo
Com certeza você deve conhecer alguém ou esse alguém
que você conhece, conhece um outro alguém, que é maníaco
por alguma coisa.
Coisas inocentes, do nosso dia a dia, nada estapafúrdio.
Mas, que por um motivo qualquer, exercem no cidadão um
fascínio de altíssima temperatura.
Relógio, caneta - quando é caneta tinteiro, o sujeito é sério
candidato à camisa de força - carro fora de linha, sapato,
óculos, ternos... e por aí vai.
Ah, como ia me esquecendo?
Gravatas, huuuuuum....gravatas.
Zé Francisco está para gravata , assim como a Imelda Marcos
estava para sapatos.
Só que ao contrário da Imelda - que foi uma grande picareta - o
Zé Francisco é um sujeito e tanto ; um sujeito de primeira
linha.
Só que perturbadoramente maníaco por gravatas.
O maior que já pisou neste planeta, desde o Big Bang.
Praticamente um tarado, essa é que é a verdade.
Tem um grande negócio pra fechar? muita grana dando sopa?
uma companhia feminina daquelas ? uma orgia? plano infalível
para assaltar a Casa da Moeda?
Seja lá o que for, a parada será preterida pelo Zé Francisco,
caso haja uma gravata na mira - e que ainda não seja sua,
óbvio.
No casamento de Bob, Zé Francisco foi sozinho.
Coquetel, cerimônia e jantar, num charmoso antiquário da
cidade.
Coisa pra poucos e bons.
Sentado numa das belas cadeiras de madeira maciça, no imenso
jardim que circundava o antiquário, Zé Francisco alimentava seu
olfato, com os aromas exalados pelas plantas e pelo charuto que
degustava.
De repente, um senhor o toca no ombro e diz (com sotaque de
gringo) :
- Por favor, pode emprestar o...para acender "minha cigarro?"
- Sim, claro - respondeu, ainda meio absorto.
Bateu a mão nos bolsos do paletó, achou o isqueiro, levantou-se e
gentilmente acendeu o cigarro do gringo.
- "Muita obrigadou" - e se foi.
Zé Francisco, ao contrário, permaneceu na mesma posição, como
se ainda estivesse acendendo o cigarro do gringo - e com o isqueiro
aceso
Assim ficou por quase um minuto.
Estático.
Parecia um quadro, uma cena congelada.
Estranheza para os presentes ao seu redor.
Bem, ao voltar daquela espécie de choque que o paralisou, Zé
Francisco não estava nem aí para os demais.
- É ela... eu achei... achei... maravilhosa, deslumbrante, charmosa,
descolada elegante ... puta que o pariu, que gravata - disse Zé
Francisco para seus botões.
E começou a perseguir o gringo, ao mesmo tempo em que pensava
numa estratégia para tomar posse daquela que , para ele, era uma
espécie de 8ª maravilha do mundo.
O gringo entrou no banheiro para fazer xixi, Zé Francisco foi atrás.
Parou ao seu lado e simulou fazer xixi também...
O gringo, assustado, saiu rápido ; nem deu aquela balançada clássica
pra dispensar as últimas gotas.
Foi pra fila do buffet, na expectativa de se livrar daquele ser estranho.
Sem efeito ; Zé Francisco estava lá, já com um prato nas mãos, como
se tivesse lido seu pensamento.
Aquela marcação homem a homem estava começando a preocupar nosso representante do velho continente.
Largou o prato e saiu correndo da fila em direção ao jardim.
Olhou em volta e sentiu um alívio.
-Ufa... que estranha aquele homem...
Ao tirar o maço de cigarros do bolso, vê um braço estendido lhe oferecendo um isqueiro.
Mais um susto ; era ele, Zé Francisco...
- O que o Sr. quer de mim? dinheira? minhas cartons de crédito? por favor, é tudo sua... pode pedir...mas, sem violência...
- Não, não... por favor, isso não é um assalto... quer dizer... hã? eu posso pedir tudo?
- Pode
- A gravata, então...
- Há há há, você quer minha gravata, porque não avisar antes, eu tenho
muitos gravatas e de verdade esta eu nem gosta tanto... pega, é sua.
O gringo entregou a gravata ao Zé Francisco e saiu rindo.
Achou graça de tudo aquilo e ficou rindo durante o resto do tempo em
que ficou na festa.
Só não achou muita graça quando o tiraram para dançar valsa.
Mas justiça seja feita, Zé Francisco não foi mal agradecido.
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"Era perturbadoramente maníaco por gravatas. O maior que já pisou neste planeta"
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