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Sexta, 10 de fevereiro de 2012, 08h02

Um idiota impagável e imperdível

Deolinda Vilhena
De Salvador (BA)


O prazer de ver grandes atores em cena (Foto: Divulgação)

Do meu modestíssimo ponto de vista, o sucesso de público e crítica do espetáculo de Cibele Forjaz , O Idiota - Uma novela teatral, pode ser, em primeiro lugar, creditado ao trabalho da encenadora e do fantástico grupo de atores reunidos em torno dela.

Mas há algo na obra de Dostoievski que, certamente, contribui para esse sucesso, a presença das questões éticas no centro de todos os livros do autor russo. Em tempos conturbados, onde a ética é pouco mais que uma figura de retórica, ver Míchkin realizar julgamentos, diante de cenas terríveis, respeitando sempre o outro, deve balançar o coração e fazer refletir aqueles que ainda tem coração e cérebro.

Para quem, como eu, não leu a obra antes de ver o espetáculo, embora as obras completas de Dostoievski estejam nas estantes da minha casa desde a minha mais tenra infância graças a um pai admirador do grande escritor, é bom saber que o príncipe Míchkin, o "idiota" de que trata o título, é tão simplesmente um epilético. Depois de anos de tratamento em algum lugar da Suíça, ele volta à Rússia. Sem nenhum tostão, sem amigos, traz no bolso apenas o endereço de uma parenta.

Para Paulo Bezerra, autor da mais recente - e premiada - tradução de O Idiota para o português, "a doença de Míchkin parece fazer com que Dostoievski busque ir ao fundo de todas as questões de que trata, quando começa a falar, dando a impressão de uma certa confusão que marca bem o personagem".

Bezerra lembra ainda que Míchkin, como deixou claro Dostoievski em cartas datadas da época em que escreveu a obra (1868), é inspirado em Cristo e em Dom Quixote. Capaz de enxergar os defeitos das pessoas, recusando-se a julgá-las apressadamente e só pelo que têm de pior. "A idéia central do romance é representar um homem positivamente belo. No mundo não há nada mais difícil do que isso, sobretudo hoje", escreveu Dostoievski em carta, citada no prefácio de Paulo Bezerra para a edição da Editora 34. Como transformar em teatro as quase 700 páginas de um texto escrito "à queima roupa" como bem definiu o tradutor?

A FORÇA EXPRESSIVA DA POÉTICA DE CIBELE FORJAZ


Um espetáculo inesquecível (Foto: João Brito)

Fui assistir O Idiota - Uma novela teatral na temporada do SESC Pompeia, em companhia de meu ex-aluno, Pedro Melão. Lá nos deixamos levar pela ária das Variações Goldberg, de Bach e demos início a uma viagem iniciática que nos levaria não apenas a São Petersburgo de Dostoievski, mas acima de tudo a uma viagem inesquecível pela poética de Cibele Forjaz uma das maiores encenadoras que conheço. No Brasil páreo pra ela só Ana Teixeira do Amok.

Imaginava o trabalho enorme para transpor o romance para o palco, mas não tinha a noção exata, e após ver o espetáculo compreendi porque ele consumiu dois anos de trabalho. Primeiro a leitura do original, cerca de 700 páginas, algo entre 40 e 50 capítulos, que foram condensados em 12 e divididos em três partes, baseadas num roteiro que preserva os momentos de crise, os grandes conflitos do livro. No total quase sete horas de representação, que podiam ser vistas alternadamente ou em sessão integral, minha opção em boa discípula de Mnouchkine.

Para complicar Cibele trabalhou com um elenco composto por atores-criadores, oriundos de diversos coletivos paulistanos: Mundana Companhia, Teatro Oficina, Teatro da Vertigem, Cia. Livre e Cia. da Mentira. O que garantiu a qualidade, mas reunir essas pessoas deve ter sido um verdadeiro puzzle.

Em entrevista a Maria Eugênia de Menezes - Folha de S. Paulo - à época da estreia Cibele falava da relação estabelecida com o público, que percorre a sala de espetáculo atrás do elenco: "hoje, quando tudo é feito à distância, o sentido do teatro passou a ser o encontro com a plateia. Nada disso é trivial. Sair de casa e ver uma peça que acontece em três dias é uma escolha. Ninguém sai ileso dessa travessia."

E Cibele tem razão. Impossível sair ileso de um espetáculo que reúne um texto maravilhoso com sua essência preservada; atuações primorosas, dessas que emocionam pela verdade e qualidade do trabalho e que nos deixam o desejo de citar o nome de cada um desses atores por respeito e agradecimento: Aury Porto, Fredy Allan, Luah Guimarãez, Lúcia Romano, Luis Mármora, Sérgio Siviero, Silvio Restiffe, Sylvia Prado, Vanderlei Bernardino e Otávio Ortega. Sem esquecer da iluminação, dos figurinos, da música, da ambientação, tudo na mais perfeita harmonia, abraçados por uma encenação capaz de embalar para presente todos os elementos envolvidos. Não por acaso ao escrever sobre O Idiota - Uma novela teatral, corre-se seriamente o risco de pecar pelo excesso de adjetivos. Mas melhor pecar por excesso do que por falta, pois a montagem é, no mínimo, brilhante.

Macksen Luiz fala com propriedade em crítica feita quando da temporada carioca, da qual transcrevo um trecho por ser incapaz de escrever melhor: "é identificável a intimidade da diretora, que por anos foi iluminadora dos espetáculos do Oficina, com a teatralidade de José Celso Martinez Corrêa. Mas diante deste desafio e das soluções que buscou para traduzir o romance, percebe-se a autonomia que conquista ao longo do espetáculo. Lá estão as citações carnavalizantes de Zé Celso, ao mesmo tempo em que os apelos, bem mais sutis, é verdade, à participação da plateia, e a circulação da montagem por várias áreas do Galpão das Artes do Espaço Tom Jobim e seu exterior, tão ao estilo do encenador paulista. Por outro lado, cria-se em muitas cenas uma poética que remete à uma sensibilidade bastante próxima das nossas emoções, seja pela trilha eclética de Otávio Ortega, seja pela diferenciação estilística (melodramática, farsesca, dramática) do elenco. Cada cena se insinua como possibilidade do inesperado, independente da leitura anterior do romance, em que a platéia é levada a ser capturada pela sua disponibilidade de se integrar à corrente das sugestões dramáticas. Há belas e impactantes cenas que se desenrolam no invólucro cenográfico de Laura Vinci, de inegável força expressiva. A gare do início, que dá a partida para a viagem com o idiota, cria envolvência, sonorizada por repertório brasileiríssimo, e atinge culminância no encontro dos casais desavindos num hotel-cubo-brinquedo infantil trepa-trepa. Nesta trajetória, de estímulos múltiplos e aguçamento de percepções para o público, os atores demonstram integral participação na arquitetura da montagem. Aury Porto, Fredy Allan, Luah Guimarãez, Lúcia Romano, Luís Mármora, Sérgio Restiffe, Sylvia Prado e Vanderlei Bernardino são os acólitos desta celebração para encenar um suculento novelão."

A PEQUENA NOTÁVEL DO TEATRO BRASILEIRO


Cibele Forjaz mistura perfeita de talento e ousadia (Foto: Divulgação)

Adoro chamar Cibele de "a pequena notável do teatro brasileiro". Infelizmente a frase não é minha. Li há alguns anos num artigo da Folha de S. Paulo estampado no quadro de avisos do CAC - Departamento de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da USP onde fui colega de Cibele, entre 2008 e 2010.

Cibele Forjaz entrou na minha vida graças ao Mauro Rasi, que em 1993 a trouxe para o Rio de Janeiro para fazer a luz de Viagem à Forli. Lembro-me até hoje daquela menina nas coxias do Copacabana Palace, se a memória não estiver me traindo pois a Enciclopédia Itaú Cultural fala em Teatro dos Quatro, mas lembro-me claramente do Teatro do Copa. Assim como me lembro de Emílio de Melo e Nathália Timberg.

O jeito de menina não enganou ninguém. Percebia-se no falar e no montar a luz que aquela garota, recém-formada em Direção Teatral pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, tinha a força dos mestres que souberam ser discípulos em algum momento de suas vidas. O que ela fez lindamente passando pelo Centro de Pesquisa Teatral (CPT), do Antunes Filho e pelo Teatro Oficina de Zé Celso. Parênteses: no dia em que tive o privilégio de assistir a essa beleza que é O Idiota - Uma novela teatral, nos galpões do SESC Pompéia, Zé Celso estava na plateia.

Renomada iluminadora, os anos 90 fizeram de Cibele uma diretora das mais respeitadas por trabalhos como Woyzeck, de Georg Büchner; Álbum de Família, de Nelson Rodrigues e A Vida de Galileu, de Bertolt Brecht. Em 2000, retorna a Nelson Rodrigues e a montagem de Toda Nudez Será Castigada, marcará a estreia da Companhia Livre, da qual é até hoje a diretora artística.

Paralelo ao trabalho de encenação Cibele fez Mestrado na Escola de Comunicações e Artes da USP sob a tutela de outro mestre, Jacó Guinsburg, e desde 2006 é professora de Iluminação e Direção Teatral do CAC - Departamento de Artes Cênicas ao lado de nomes com Sérgio Carvalho, do Latão e Antônio Araújo, do Vertigem; três talentos que estão mudando a cara da academia.

Queria muito trazê-la a Salvador para o I Seminário Internacional de Formação e Capacitação em Cultura, e foi por isso que essa semana telefonei para ela na tentativa de conseguir uma brecha na sua agenda apertada e concorrida. Deixei um recado na secretária e ela, gentilmente me retornou a ligação, a voz rouca deixava claro o cansaço por conta da reestreia de O Idiota, os ensaios do próximo espetáculo com estreia para março e o trabalho que vai impedi-la de juntar-se ao nosso seminário: entre 1º de maio e 15 de junho ela estará em Buenos Aires, a convite do Teatro San Martin, dirigindo um espetáculo com texto do Newton Moreno. A Pequena Notável da cena teatral brasileira alça vôos cada vez mais altos...

Por isso aconselho o público paulistano a aproveitar o presente da Oficina Cultural Oswald de Andrade que, ao iniciar as comemorações de seus 25 anos, oferece a Sampa esse belíssimo presente: 18 apresentações de O Idiota - Uma Novela Teatral.

A montagem acaba de retornar de Bruxelas, onde se apresentou no Festival de Artes EUROPALIA. Desde que estreou em 2010, a peça ganhou o prêmio especial da APCA pela realização do projeto, e foi indicada a vários outros, em diversas categorias: prêmio BRAVO, Cooperativa Paulista de Teatro (melhor elenco e espaço não convencional), Shell (cenário, figurino, iluminação e direção) e o Questão de Crítica (iluminação, figurino, direção, ator, atriz, adaptação e elenco). Como se vê, não foram poucas. Detalhe: esta será a terceira e derradeira temporada de O Idiota - Uma Novela Teatral na cidade de São Paulo. Ou seja, quem perder não terá outra chance. É bom não pensar duas vezes. Corram...

SERVIÇO O IDIOTA - UMA NOVELA TEATRAL
Autor: Fiódor Dostoievski
Tradução: Paulo Bezerra
Roteiro Adaptado: Aury Porto
Colaboração dramatúrgica: Vadim Nikitin, Luah Guimarãez e Cibele Forjaz
Direção: Cibele Forjaz
Elenco: Aury Porto, Beatriz Morelli, Fredy Allan, Luah Guimarãez, Luís Mármora, Otávio Ortega, Sergio Siviero, Silvio Restiffe, Sylvia Prado e Vanderlei Bernardino
Direção musical /Trilha sonora / Música ao vivo: Otávio Ortega
Cenografia: Laura Vinci
Figurinos: Joana Porto
Luz: Alessandra Domingues
Quando? De 11 de fevereiro a 19 de março de 2012
Horários? Sábados, Domingos e Segundas às 18h
Onde? Oficina Cultural Oswald de Andrade - Rua Tres Rios, 363 - Bom Retiro - São Paulo/SP
Informações? Fones: 011 32215558 / 011 32214704
Lotação 80 espectadores por apresentação
Duração 6 horas e meia, com 2 intervalos (o 1º de 30 minutos e o 2º de 20 minutos)
Recomendação A partir de 14 anos
Acesso a deficientes
Entrada franca - Os ingressos da semana serão distribuídos na Oficina Cultural Oswald de Andrade às sextas-feiras a partir das 18h30.

Deolinda Vilhena é jornalista, produtora teatral, Doutora em Estudos Teatrais pela Sorbonne e professora do Departamento de Técnicas do Espetáculo da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia.

Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br

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