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Sexta, 10 de fevereiro de 2012, 08h03

Amado, Gonzaga e Nelson

Jorge Portugal
De Salvador (BA)

2012 celebra o centenário de três "monstros sagrados da cultura brasileira": Jorge Amado, Luiz Gonzaga e Nelson Rodrigues. Não que não haja outros centenários importantes e dignos de nota, mas os três citados são donos de obras seminais para a compreensão do "ser brasileiro".

Jorge Amado, pela Literatura, inventou um estado chamado Bahia, célula cultural de um vasto país. Sua múltipla obra dá conta, sozinha, desde a saga do cacau, com seus coronéis, jagunços e Gabrielas, ao cenário urbano de Salvador dos Candomblés, e capitães da areia.A cultura negra pulsa nos romances de Jorge, desde quando não era moda falar de ações afirmativas.A prosa do escritor, com sua oralidade sedutora contornada por um lirismo arrebatador é isca certa para quem decide se atirar às primeiras leituras.Começar por Mar Morto, Terras do Sem Fim, chegando ao ápice com Tenda dos Milagres e Navegação de Cabotagem é roteiro certo para uma bela e inesquecível aula de Brasil.

Luiz "Lua" Gonzaga ou, na definição do poeta Capinan, Luiz "Homero" Gonzaga, cantador, contador, professor desse universo deslumbrante e árido que é o Nordeste brasileiro, seus sertões e suas veredas.Antes de Luiz Gonzaga, o Nordeste era um tópico triste desses Tristes Trópicos, na narrativa realista de Euclides da Cunha.Mas "seu" Luiz fez música e antropologia, ensinando ao país a grandeza da cultura nordestina, baseado numa orquestra de três instrumentos: sanfona, zabumba e triângulo.Inventou o Baião, e encheu de xotes, xaxados e poesia as noites do norte, do nordeste, da poesia e da alma. Com Humberto Teixeira compôs o hino de uma região e de um povo: " Quando o verde dos teus óio/se espaiá na plantação/ eu te asseguro/ não chore não, viu/que eu vortarei, viu/meu coração". Ouvir Luiz Gonzaga é, também, uma bela e inesquecível forma de o Brasil não se esquecer do Brasil.

E Nelson Rodrigues.Nosso Shakespeare, nosso Freud, em cujo divã deita-se e farta-se a alma nacional.Nelson é aquele que foi fundo no mais fundo de nós, sem dó nem piedade, mas com pungente lirismo, que brota mais das cenas que das palavras.Ferino, iconoclasta e supremo no seu estilo, virou pelo avesso nossa superfície ordinária e nos apresentou a nós mesmos. "Toda Nudez será castigada", "Bonitinha, mas ordinária", "Vestido de Noiva" já formam uma bela trinca do universo rodrigueano, para um começo de conversa, ou melhor, de leitura.

Falo dos três e fico pensando: quantos estudantes, hoje, no Brasil, entre 18 e 25 anos conhecem satisfatoriamente a obra deles? Talvez Luiz seja o mais próximo, por causa da música, e, ainda assim, "uma ou outra" e olhe lá! Já imaginaram se, neste ano de 2012, a escola brasileira construísse um belo currículo interdisciplinar sobre a "Realidade Brasileira", costurada e explicada por Jorge, Luiz e Nelson? Delírios de um educador-poeta. Escola, no Brasil, é pra "outra coisa". Que pena!

Jorge Portugal é educador, poeta e apresentador de TV. Idealizou e apresenta o programa "Tô Sabendo", da TV Brasil.

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