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Terça, 14 de fevereiro de 2012, 16h54 Atualizada às 18h18

Em Salvador, moradores tentam salvar mata de especulação imobiliária

Claudio Leal/Terra Magazine
A professora de pilates Cristina Mandarino é uma das principais defensoras da preservação na mata na região central de Salvador. Precisamos parar com ...
A professora de pilates Cristina Mandarino é uma das principais defensoras da preservação na mata na região central de Salvador. "Precisamos parar com esse egoísmo de destruir árvores, em troca de prédios", diz.

Claudio Leal
De Salvador (BA)

A especulação imobiliária em Salvador tem levado um grupo de moradores do bairro do Matatu de Brotas a lutar pela preservação de um resquício de Mata Atlântica, numa área de nove hectares pertencente ao Exército. Eles reagem a boatos de que empreiteiras estariam interessadas na compra do terreno do Hospital Geral militar. Em abaixo-assinado, os moradores pedem o tombamento do patrimônio edificável - há uma fonte do século 18 - e a transformação do "nicho ecológico" em Área de Preservação Permanente (APP).

O Boqueirão da Castro Neves, como a mata é conhecida, é um raro espaço verde na região central de Salvador, próximo à Ladeira dos Galés. Quase imperceptível aos transeuntes, a mata ficou emparedada por casas e edifícios, o que, involuntariamente, contribuiu para a sua conservação. O Exército permite a presença de moradores no bosque e deixou correr um projeto de replantio de espécies nativas.

Das mãos do engenheiro agrônomo Carlos Lorenzo caíram sementes de ypê-branco, cajazeira, vinhático, jacarandá, pau-ferro, jequitibá, entre outras árvores, identificadas pelo nome científico em papéis colados aos caules. Sobrevoam nos quintais espécies como pica-pau, sabiá bem-te-vi, coruja, canário e beija-flor. Lorenzo mantém uma base de dados com informações sobre a mata. Nela se encontram três nascentes do Rio Camurugipe, poluído na maior parte do curso pela capital baiana.

"Há uns 15 anos, a mata era pequena", conta Lorenzo. "Nós plantamos 1.200 mudas de espécies da Mata Atlântica. Isso aqui funciona como um pulmão verde". Uma das moradoras mais engajadas na campanha para transformar a área em APP, a professora de pilates Cristina Mandarino critica a destruição das florestas de Salvador em função de megaempreendimentos imobiliários.

"Salvador tem pouca área verde. Já destruíram a Paralela. Precisamos parar com esse egoísmo de destruir árvores, em troca de prédios, e depois chamar o condomínio de 'Bosque das Pitangueiras'", ataca. Ela caminha nas trilhas do Boqueirão com o entusiasmo de quem passou a infância desfrutando da mesma brisa do início de tarde. Equilibra-se numa gangorra pendurada numa das árvores, depois afasta os galhos para alcançar a nascente do rio. "Temos que transformar tudo isso em área ambiental".

Outro morador da rua Castro Neves, o funcionário público Francisco Meirelles desce cotidianamente à mata para acompanhar o crescimento das mudas, além de retirar entulhos. "Queremos que seja uma APP porque dificulta qualquer mudança", afirma. Maria Betânia Vargas, fundadora da associação de moradores, reside no bairro desde 1958. "Sempre surge um boato. A gente se sente sob ameaça. Sem essa mata, vamos morrer de calor. Várias pessoas da comunidade, entidades ambientais e órgãos públicos devem estar envolvidos na preservação", propõe Betânia. Não se descarta o uso do espaço para a educação ambiental de crianças.

Na batalha para proteger a mata, é como se quisessem salvar uma cidade inteira.

 

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