Juca Ferreira
De Salvador (BA)

"Se a sociedade aceitar o que aconteceu, não teremos as mínimas condições de viver em paz na Bahia" (foto: Marco Aurélio Martins/ Agência A Tarde)
A cidade de Salvador experimentou nestes dias da greve da Polícia Militar uma situação dantesca, inimaginável em uma sociedade minimamente saudável e civilizada. Fomos manchete em todos os jornais do mundo. Uma vergonha!
Salvador experimentou uma situação de muito medo, principalmente durante as noites. Medo, sentimento de vulnerabilidade e impotência semelhante ao que é vivido pelos que enfrentam terremotos e tsunamis de grandes proporções. Um horror difícil de acreditar que era uma situação real, mesmo para nós soteropolitanos, que sabemos que a chapa é quente na nossa querida Salvador.
Ninguém duvida que foi uma ação deliberada para aterrorizar a cidade e botar as autoridades de joelho. São muitos os indícios de que crimes e homicídios foram cometidos ou estimulados por policiais. Como se quisessem provar que, quando eles cruzam os braços, a população que vive na cidade é um zero à esquerda.
Eu acho que os que trabalham no setor público, inclusive nas áreas consideradas essenciais, têm direito de reivindicar salários melhores. Se esses serviços assim classificados são verdadeiramente essenciais, os que aí trabalham devem ter bons salários, ou seja, esses servidores públicos devem ser recompensados pela sociedade por prestarem serviços essenciais. Acho que ninguém tem dúvida de que é o caso dos serviços de segurança social que as polícias nas atuais circunstâncias da sociedade brasileira estão programadas para prestarem. Se não prestam um serviço à altura da necessidade, aí é outra discussão, obviamente associada a esta.
A insegurança é um dos problemas mais graves do país e ainda não foi enfrentada com a importância de que o Brasil precisa. A questão da segurança e da polícia é uma questão de todos nós. Não dá para pensar em vida urbana com qualidade nessa situação que vivemos. Por isso, em princípio, não acho que o problema seja a demanda por melhores salários. Se não recebem salários dignos, os servidores públicos têm direito a reivindicar. Mas, o que nós vimos na Bahia é inaceitável. Polícia é polícia e bandido é bandido. Os grevistas chantagearam violentamente a cidade, desafiaram a autoridade do governador democraticamente eleito e, ao que tudo indica, alguns cometeram crimes e até homicídios.
Pelo menos alguns dos policiais em greve ultrapassaram em muito o que a sociedade pode aceitar como comportamento dos que recebem armas públicas para proteção dos cidadãos. Mesmo se os grevistas não tivessem cometido nenhum dos crimes e homicídios naqueles dias nas ruas de Salvador e, nem tivessem relação direta com eles, ocupar o poder legislativo do Estado foi uma ação simbólica de desrespeito à democracia, inaceitável, que merece repulsa de toda a sociedade. Quando fica tudo igual, polícia e bandido, tem algo grave que precisa de remédio urgente e exemplar.
Se a sociedade aceitar o que aconteceu, não teremos as mínimas condições de viver em paz na Bahia. Papagaio vai chamar urubu de meu louro nas ruas de Salvador. Acho que, com esta greve, chegamos a um ponto dessa crise que, ou partimos para uma reestruturação e limpeza da força policial e criação de uma polícia digna de um Estado democrático, ou vamos chafurdar na barbárie. Espero que a escolha da sociedade e das nossas autoridades seja pela hipótese civilizada.
Temos que tomar uma posição unânime, nos unir, todos os baianos, sem excluir nenhum cidadão, nem nenhuma cidadã de bem, incluindo os bons policiais, para apoiar esse processo. Precisamos enfrentar essa questão da segurança urgentemente, como uma prioridade nacional. Estamos nos acostumando a não ter direito à cidade. A vivermos engaiolados, principalmente à noite.
Para termos qualidade de vida, precisamos ter serviços públicos de qualidade. Por isso, a alienação e o desinteresse pelas coisas coletivas é uma burrice. Por isso, a cidadania ativa é essencial. Nem mesmo os que vivem cercados de muros e guaritas estão a salvo. Não seremos uma grande nação apenas com a economia crescendo e um pouco mais de dinheiro no bolso. Acorda, Salvador!
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