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Quinta, 16 de fevereiro de 2012, 08h11

Sendo humor, tudo bem!

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Há diversas páginas de humor na revista Seleções. O número de outubro de 2011 conta uma historinha com final engraçado: uma atleta russa e uma modelo brasileira, amigas, encontram-se em Londres. Vão jantar, para comemorar alguma coisa.

O garçom sugere uma entrada: uma delicious eggplant salad. A russa responde que não gosta de ovos (eggs), e o garçom fica espantado. A brasileira explica à amiga que não há eggs na eggplant.

Ela faz outra tentativa. Pergunta ao garçom como está a grilled pineapple, e explica que adora apples e pine! Leila (é o nome da brasileira) chuta suas canelas (não a chama de Magda porque a russa não conhece a personagem) e lhe explica que não há nem apple nem pine no pineapple (ananas comosus, explica meu Shorter Oxford Dictionary), o que deixa a russa ainda mais sem jeito. Finalmente, ela informa que decidiu ir de sweetbread. O garçom anota o pedido, mas avisa que sweetbread não é nem sweet nem inclui bread.

Na revista, esta é uma página (a seguinte também é) com curiosidades sobre o inglês. Tem até um exerciciozinho. É bem humorado! Lembrei o caso depois de ter enviado à redação do Terra Magazine a coluna da semana passada. O que teria acrescentado, se tivesse lembrado antes este exemplo, é que uma coisa é fazer humor "jogando" com a forma das palavras, outra é ensinar que análises deste tipo são de fato feitas mentalmente por falantes.

O leitor certamente lembra o dado da semana passada: uma pequena aula da TV Cultura explicava que há quem diga previlégio por pensar que a primeira sílaba da palavra (pré) é o prefixo pré. Pode ser (mas eu duvido) que um ou outro falante faça essa hipótese. Mas seria mera idiossincrasia. Para que a hipótese valesse, ela teria que ter alguma sistematicidade. Mais dados seriam necessários. Insisto na tese de que as análises devem ser gerais, que regras devem ser regras, mesmo as que produzem erros (do tipo menistro) como as hipercorreções.

Agora, justifico o título da coluna: são conhecidas algumas listas que fornecem definições peculiares para certas palavras. Millôr foi um mestre no assunto, com seu antigo Dicionário etmoLÓGICO (ele o chamava assim). Por exemplo, consumo era definido como 'o que não foi espremido' (com sumo); sentimental, como 'na tua ausência, sou racional' (sem ti, mental) etc.

Luis Fernando Veríssimo inventou uma personagem que vendia aves falsas a um rei perdulário e bobo: copia = xerox emplumada; rodopia = piorra azul; surrupia = marrecão larápio; arrepia = cócega selvagem. A técnica é óbvia: se pia, então é ave...

Qualquer um pode fazer exercícios semelhantes: basta pegar um dicionário e separar palavras. Por exemplo, escravo vira ex-cravo (foi uma flor ou instrumento musical); procurador quer dizer masoquista (procura dor) etc. Nem sempre dá certo, claro.

Uma coisa é fazer humor. Ou, analisando-o, atribuir ao inconsciente certa linguagem, ou certas manobras feitas a partir dela (ver Lacan sobre o equívoco etc.). Neste domínio, litraço pode ser lido como 'lhe traço', tem terra, como 'te enterra', verdura como 'ver dura' etc. Jogos como estes fazem parte de coletâneas de humor gaúcho ou nordestino, conforme o interesse ou a origem do colecionador. Outra coisa é analisar a língua pública. É por essas e outras, aliás, que muita gente critica Saussure ou Chomsky: eles quereriam controlar a língua, desconhecem o inconsciente etc.

***

PS - Fui informado de que o Prof. Pasquale não teve nada a ver com o programa que comentei na semana passada. Que ele me perdoe pela atribuição e pelas críticas indevidas. Mas achei que tinha o direito de acreditar na sinopse do programa (embora não necessariamente faça fé no seu jornalismo). Afinal, copiei da tela da TV quando a cena estava no ar. Fui lesado em meu direito de consumidor!


Sírio Possenti é professor titular do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso, Língua na Mídia e Questões de linguagem.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

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