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Quinta, 16 de fevereiro de 2012, 08h11 Atualizada às 09h57

A autoridade no Brasil

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

1.
o lugar e o jeitão da 'autoridade' na sociedade brasileira

somos um país onde sempre coube ao poder exigir a 'paciência' dos excluídos paciência para que continuassem assim e não recorressem à violência

e subserviência para que aceitassem os guetos, as discriminações, as injustiças "sua rua será sempre uma vala de esgoto; sua escola nada ensinará de fato"

2.
o poder no brasil sempre gerou uma desconfiança enorme
como acreditar nas boas intenções desse monstro?

perverso, adquiriu inúmeras faces ao longo dos tempos
pode aparecer como violência pura, ditaduras, enforcamentos, descaso

em 1828, a Câmara de Salvador proibiu o descarte de cadáveres de escravos em logradouros públicos!

pode aparecer como ideologia de uma suposta 'opinião pública' (dos de cima)
geralmente exigindo ordem, diga-se, manutenção de privilégios
pode aparecer como corrupção, como monopólio do saber e das instituições

3.
mas ó engalfinhamento dos contrários...
foi também através de uma relação com o poder que os pequenos-grandes passos que já demos

se concretizaram em transformações
foi esse mesmo poder que construiu escolas e universidades públicas - a

educação como fábrica de democracia, como disse Anísio Teixeira

criou empregos, leis trabalhistas, pólos industriais e comerciais
ciclos culturais de impacto mundial, permitiu e estimulou em momentos
democráticos o crescimento de movimentos sociais organizados
agora, bem recente, redefiniu o tamanho da classe C, em mais de 30 milhões

4.
de todas as questões que temos pela frente - a relação com o poder é a mais importante, a mais estratégica
dela depende a ignição de liderança e a sinergia para ultrapassar nossas falhas estruturais
mas também é uma espécie de doença, com marcas bem características do nosso processo histórico (bem aparentes na recente greve da polícia na bahia)

5.
E mais: temos que enfrentar esse tipo de desafio numa época em que, em termos globais, as sociedades têm dificuldade para gerar um sentido de obrigação civil

isso quer dizer que a noção tradicional de autoridade vem sendo solapada mundialmente - família, igreja, nação, moral

especialmente num ambiente de capitalismo especulativo, onde a capacidade de investimento (capacidade de cuidar dos objetos sociais) parece definhar

e onde a agenda de todas as mídias capta a atenção livre para objetivos dessa ciranda especulativa, sempre através de exaltação da individualidade

6.
nota-se uma avidez no ar bastante perturbadora - no caso do brasil, o crescimento recente amplifica essa sensação de que é 'agora ou nunca', como se tudo e todos estivessem num grande bbb

sensação que atravessa inúmeras esferas da vida - mídia, celebridades, cultura, empreendimentos urbanos, projetos políticos, movimentos religiosos, relações pessoais

como aspecto marcante do capitalismo especulativo, a avidez propicia uma facilidade de transgressão dos limites e da ética, algumas vezes, ironicamente, em nome da 'eficácia'

o tema dos 'novos egos' vem ocupando espaço - p.e., matérias sobre sociopatas no trabalho, pessoas sem nenhum escrúpulo de atravessar os colegas

obviamente, no campo da política, esses 'sociopatas' encontram muito mais recompensas, e lá existem com certa fartura

7.
tudo isso nos leva a pensar em como estão redondamente enganados os que dizem que a preocupação com qualidade da gestão pública (especialmente no governo Dilma) equivale a um processo de despolitização...

na verdade, não há tema mais político - a capacidade de gerir os esforços da nação com honestidade, eficiência e representatividade

aquilo que já foi várias vezes utilizado de forma duvidosa (vassouras em jânio, marajás em collor) passa a ter uma significação especial, como parte de uma possível terapia para essa doença de poder (e de fragilidade das instituições) que nos aflige como sociedade

8.
a espinha dorsal de tudo isso: a credibilidade do poder (sua terapia)
imagine a china sem ditadura - como garantir credibilidade para as direções de trabalho? o problema é o mesmo aqui

isso exige uma narrativa e agenda que envolva de verdade o coletivo da população, e mais, a qualidade do governo - tema que surge como bola da vez, gerando um embaralhamento divertido dos rótulos de 'esquerda' e de 'direita'.

Paulo Costa Lima é compositor. Bacharel e Mestre (University of Illinois), Doutor (USP e UFBA). Professor de Composição e Análise - UFBA. Pesquisador-CNPq. Membro da Academia de Letras da Bahia. Apresentações de sua obra musical (em 2010) incluiram festivais no Brasil, China, Suécia, Estados Unidos e França. Outras informações: www.paulocostalima.wordpress.com

Fale com Paulo Costa Lima: paulocostalima@terra.com.br

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