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Sexta, 17 de fevereiro de 2012, 12h45

Onda de doações energiza direita americana

Patrick Brock
De Nova York

A direita americana aproveitou a onda de doações de bilionários permitida pela Suprema Corte em 2010 para manobrar a situação após a derrota histórica nas eleições presidenciais de 2008 e se eximir da crise econômica iniciada no governo republicano, reinventando-se como um partido populista em defesa do liberalismo.

A eleição de 2008 poderia ter propiciado a Obama um momento parecido com o de outro presidente democrata, Franklin Roosevelt, teorizaram na época alguns comentaristas mais empolgados. Visualizando Obama com a piteira, os óculos e a sabedoria de Roosevelt, eles previam que a crise tenebrosa permitiria reformas polêmicas e criaria uma nova era progressista nos Estados Unidos, como a de Roosevelt, que durou até os anos 60. Só que desta vez os republicanos souberam aproveitar o dilúvio de doações a comitês de ação política chamados "SuperPACs", que podem receber contribuições anônimas e têm brigado na Justiça para manter suas listas confidenciais, para apagar seus pecados e se apresentar como populista.

Uma decisão histórica da Suprema Corte em 2010, em resposta a um processo de um desses comitês, permitiu que recebessem também doações ilimitadas. Abertas as comportas, eles passaram a financiar campanhas na TV e protestos atacando o presidente e candidatos do seu partido, bem como iniciativas e legislações contrárias aos dogmas liberalistas. Para chamar atenção sobre a distorção criada pelos comitês, o humorista Stephen Colbert, que satiriza os comentaristas de canais como Fox News, criou seu próprio SuperPAC e angariou mais de US$ 1 milhão.

Robert Y. Shapiro, professor de ciência política da Universidade Columbia, acredita que os SuperPACs aqueceram a disputa entre os candidatos e criaram uma vantagem de financiamento ilimitado para propaganda eleitoral, especialmente para os candidatos que podem aplicar mais recursos num estado específico. Shapiro explica que os dois principais partidos americanos se tornaram ideologicamente díspares em todas as questões desde os anos 70 - economia, regulamentação e meio ambiente, raça, religião, temas sociais e política externa - devido ao relativo equilíbrio eleitoral entre os dois na disputa pelo Congresso e a Presidência.

As primárias do Partido Republicano, dominadas no momento pelo candidato evangélico Rick Santorum e marcadas pela ascensão e queda de vários pretendentes, como o negro Herman Cain, acusado de assédio sexual, e o ex-presidente da Câmara Newt Gingrich, prejudicado por prestar consultoria ao setor financeiro, refletem a fragmentação do próprio eleitorado do partido em várias facções interessadas em questões diferentes. Mas, até agora, essa revigoração partidária não se traduziu em muito entusiasmo pelo favorito para conquistar a indicação do partido à Presidência, o executivo Mitt Romney.

"Eles principalmente não estão satisfeitos com (Mitt) Romney como o melhor candidato para derrotar Obama entre os que estão concorrendo; havia outros candidatos melhores que preferiram não disputar", diz Shapiro. Um exemplo desses candidatos que ficaram de fora é o governador Mitch Daniels, elogiado por sanar as finanças do Estado de Indiana logo no início do primeiro mandato, em 2005, antes da eclosão da atual crise. Shapiro acha também que é pequena a possibilidade de surgir um terceiro partido no bipolarizado sistema político americano, "a não ser que os partidos se tornem tão polarizados que permitam o surgimento de um novo partido centrista que não seja absorvido por nenhum dos dois".

Para o comentarista político Thomas Frank, a direita americana conseguiu transformar a indignação contra o setor financeiro em revolta contra o governo democrata. Após anos de desregulamentação desastrosa do setor, parece ilógico que um dos principais pontos de contestação republicana seja o excesso de interferência governamental. Mas essa e outras bandeiras estão sendo agitadas veementemente pelos políticos, escreveu Frank em seu livro "Pity the Billionaire: The Hard-Times Swindle and the Unlikely Comeback of the Right", lançado em 2011.

Depois de aproveitar o sentimento populista para eleger Obama em 2008, os democratas têm perdido eleitores brancos da classe trabalhadora, afirma Frank. Munidos da teoria de que o governo sempre fracassa e a iniciativa privada é quem deve conduzir a economia, os ideólogos republicanos acusam Obama de atrapalhar a recuperação com suas políticas, que garantiram o sistema financeiro, ampliaram os benefícios dos desempregados e estimularam a economia com juros baixos e obras de infraestrutura.

Parte desses eleitores é atraída pela linha religiosa e moralista do partido, enquanto as acusações de socialismo e caos econômico têm apelo especial para os trabalhadores de classe baixa e média prejudicados pela falta de especialização técnica. Eles têm sido receptivos à teoria republicana de que a responsabilidade pela falta de competitividade da indústria americana é dos sindicatos e da regulamentação governamental, não da globalização atual da riqueza e da produção ou outros motivos de cunho estrutural.

Dois personagens importantes dessa nova configuração política são os irmãos Charles e David Koch, que dividem o controle do conglomerado da família, o Koch Industries. Além de financiar grupos que questionam a existência do efeito estufa, os Koch também pagaram campanhas contra Obama e a Agência de Proteção Ambiental, considerada exemplo de regulamentação excessiva. Graças à decisão da Suprema Corte, eles se tornaram uns dos maiores financiadores do movimento "Tea Party".

A esquerda também tem seus grupos vitaminados por doações de bilionários. Um dos mais polêmicos é o Media Matters for America, ONG fundada pelo estrategista político David Brock para apontar distorções na imprensa direitista e parcialmente financiada pelo bilionário grego George Soros. Brock vai lançar, no próximo dia 21, o livro "The Fox Effect: How Roger Ailes Turned a Network into a Propaganda Machine", escrito em parceria com Ari Rabin-Havt, sobre a influência política do presidente do canal Fox News e ex-assessor de Richard Nixon, Roger Ailes, outra figura importante da máquina republicana de propaganda.

Brock causou polêmica ao afirmar, em janeiro do ano passado, poucos dias depois de a deputada democrata Gabrielle Giffords ser baleada na cabeça, que o discurso violentamente oposicionista do apresentador Glenn Beck incitava assassinatos políticos. A Fox News cancelou o programa de Beck, que voltou a se apresentar pelo rádio, meio em que ficou conhecido. Já Brock venceu, também em 2011, o leilão de caridade de um almoço com Rupert Murdoch, presidente da News Corp., matriz da Fox News. A Media Matters fez um lance de US$ 86 mil pelo almoço mas tem enfrentado dificuldades para marcar a data. A ONG que criou o evento, a Charity Buzz, informou que a demora é causada pela agenda ocupada de Murdoch.

O site conservador The Daily Caller publicou recentemente um dossiê em que várias fontes anônimas acusam Brock de tiranizar sua equipe, ser usuário de drogas e cogitar a contratação de detetives particulares para investigar funcionários da Fox News. A imprensa americana recebeu friamente a denúncia, em parte porque foi vista apenas como mais um capítulo da guerra midiática entre Brock e a Fox News, mas também porque a Media Matters nunca fez segredo de seu caráter denuncista.

 

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