Francisco Viana
De São Paulo
Como os nossos jornais de referência, a chamada grande imprensa, somos tentados a ver sempre o lado negativo da vida e dos acontecimentos. Tudo que parece alegre e vivo soa alienado, insano. Contudo, é possível, e deve-se pensar assim, em ver o lado luminoso da existência. Entender que não há nada mais inspirador do que uma visão construtiva da existência. É o que sugere a leitura, aliás bem agradável, do livro A soma e o resto: um olhar sobre a vida aos 80 anos, de Fernando Henrique Cardoso.
Fernando Henrique tem uma característica impossível de explicar. Ele se coloca acima das críticas. Quem o crítica acaba sendo relegado a plano secundário. O que ele fala, todos são obrigados a prestar atenção e discutir, mesmo que não concordem. Há algo nele acima do bem e do mal, mas isso não é ruim. Pelo contrário, demonstra que teve o cuidado com todos os aspectos da sua carreira. Tanto que é celebrado em todo o mundo.
Diante de tais evidências, a postura mais coerente diante do novo livro de Fernando Henrique é refletir em torno do que ele diz, em lugar de criticar. Vejamos algumas observações:
O Brasil de hoje é mais do que uma "economia emergente", é uma sociedade emergente. Ou, somos um novo país (p.48)... Por trás desse novo Brasil, está "espírito de empresa". A aceitação do risco, da competitividade, do mérito, da avaliação de resultados. O esforço individual e coletivo, a convicção de que que sem estudo não se avança e de que é preciso ter regras que regulem a economia e a vida em sociedade. O respeito à lei, aos contratos, às liberdades individuais e coletivas faz parte desse novo Brasil (p.50).
Vivemos numa sociedade em que o importante é compartilhar. Hoje, o grande divertimento dos jovens é contar o que fizeram. Uma família amiga minha foi para a Europa com os filhos. Esses, cada dia, antes de dormir, enviaram para seus amigos fotos de tudo que fizeram, visto e feito. No dia seguinte acessavam o Facebook para ver a reação dos amigos. Não estou fazendo uma crítica. Estou tentando descrever e entender. É como se a fruição da vida passasse a ser, desse ponto de vista, mais coletiva (p. 83).
Aos 80 anos creio que cada um cria o sentido de sua vida. Isto é muito dramático. Cada um tem que tentar criar o seu sentido. Nesse ponto os existencialistas têm razão. É muito angustiante. Tem uma dimensão da existência que é inexplicável. Ou você consegue conviver com isso no dia a dia sem apelas para a transcendência "digo no dia a dia porque, de vez em quanto, todo mundo apela..." ou você tem que criar algum sentido para justificar, se não explicar o sentido das coisas. Eu criei, imagino que sim. Achei que devia ter uma ação intelectual para entender e para mudar o Brasil(p. 178-9).
Um sentido para a vida? Esse o ponto central do livro de Fernando Henrique, fruto de dez horas de conversas com o jornalista Miguel Darcy de Oliveira, além de artigos nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo e outras entrevistas. Ele sempre soube ao longo da sua rica trajetória encontrar um sentido para o que fazia. Ao deixar a presidência da República, após ocupar o cargo duas vezes consecutivas, escreveu a Arte da Política, fez palestras, atendeu estudantes de graduação, engajou-se na luta contra a descriminalização das drogas. Este um tema tabu, que se rompeu.
Recriou a vida dos idos da juventude, da oposição à ditadura militar e dos anos de exílio. Renasceu. Esse o grande legado de Fernando Henrique: a arte de renascer. Nunca foi contra as liberdades públicas, nunca foi contrário à democracia. Reviu posições. Buscou entender as diferentes épocas em que viveu.
Quem primeiro me falou do livro foi o comunicador Ney Figueiredo, assessor de Fernando Henrique quando este ocupou a presidência. Li, reli o livro. Anotei muitas frases. Uma delas: "É a sinceridade que comove a população, e não a hipocrisia, que pretende não ver o óbvio" (p. 167). Outra frase: "À medida que vamos ficando mais velhos, convivemos cada vez mais com a memória. Conversamos com os mortos. Por intermédio de Ruth, passei a lembrar mais dos outros que morreram, dos meus pais, meus avós. Os que morreram e nos foram queridos continuam a nos influencia. O que não há mais é contrário. Não podemos mais influenciá-los." (p. 177). E mais outra: "Meus netos têm uma boa relação comigo porque não sou o avô que dá a lição. Não sou o sábio. Sou o avô quase infantil. Que fala bobagens. Eles vão perguntar aos pais se é verdade o que eu disse. A melhor maneira de se relacionar com os jovens é deixar que eles sejam jovens"( p. 183). Não seria Fernando Henrique um jovem de 80 anos? Creio que sim.
Lembrei-me que mantive com o pensamento de Fernando Henrique uma relação de aproximação e rejeição.
Fui um dos autores do livro A era FHC ( também a convite de Ney Figueiredo) e, anos depois, escrevi que Fernando Henrique não passaria de uma nota de pé de página na história. Que bobagem! Estava cego. Ele pode não ter sido o presidente que eu esperava, mas foi um bom presidente tanto que foi eleito e reeleito. E, sem dúvida alguma, é um grande homem. A soma e o resto está ao alcance dos leitores para mostrar. É importante lê-lo, refletir. Como seria construtivo que todos fossem igual a ele e tratassem de encontrar seu lugar no mundo.
CARDOSO, Fernando Henrique. A soma e o resto: um olhar sobre a vida aos 80 anos. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 2012.
Fale com Francisco Viana: francisco_viana@terra.com.br
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