Kelly Cristina Spinelli
De Buenos Aires

(foto: Kelly Cristina Spinelli/ Terra Magazine)
Suponha que Michel Temer, ainda candidato a vice-presidente do Brasil, fosse a um programa desses de auditório num sábado qualquer. Que ele se sentasse em meio a um monte de mulheres decotadas e exageradamente maquiadas e respondesse perguntas de um apresentador bonachão. Imagine que, cereja do bolo, ele subisse a um palco com uma banda de rock e tocasse guitarra aplaudido por uma porção de garotas de calcinha fio dental preta, sutiã e quepe, que aparecessem por ali como parte, digamos, do cenário do programa.
Difícil de acreditar. Se por um lado o Brasil produz uma quantidade exorbitante de estranhezas políticas, por outro se espera um certo tom de comedimento dos que ocupam cargos mais altos. Na Argentina não tem sido bem assim. No final do ano passado, Amado Boudou, então ministro da Economia e candidato a vice-presidente, protagonizou a cena acima acompanhado de sua banda, La Mancha de Rolando, no programa Sabado Bus.
Ao longo da campanha pela reeleição de Cristina Kirchner, era tão comum ver Boudou fazendo comícios com a banda que até foi lançado um jogo online em homenagem a ele: o "Boudou Hero". Imitação do famoso Guitar Hero, dava ao jogador a chance de tocar guitarra com o candidato. Pelo twitter, na época, Boudou disse entre exclamações que a ideia era incrível e que "lhe fizeram rir" com a novidade.
Durante a última semana, no entanto, a banda de Boudou está servindo de arma na briga entre o vice e o grupo Clarín, o maior de comunicações do país. As relações de Boudou com o grupo estão longe de ser amistosas desde que, quando ainda era ministro, discutiu-se se a Cablevisión, empresa de TV a cabo pertencente ao grupo, poderia ou não aumentar seus preços em desacordo com resoluções da Secretaria do Comércio Interior. Na época, Boudou declarou absurdo que uma companhia privada fosse beneficiada no lugar dos milhões de argentinos que necessitavam de seus serviços.
Agora, é Boudou que está sendo acusado pelo Clarín de prejudicar os interesses da nação. O grupo acusa o vice de ter tido influência na operação comercial que passou a Ciccone Calcográfica (hoje chamada de Compañia de Valores Sudamericana), uma das gráficas mais importantes do país, para o comando de seu amigo pessoal, Alejandro Vandenbroele.
Nas mãos de Vandenbroele, a empresa começou a imprimir notas de cem pesos, entre outros negócios milionários com o governo. O caso ficou tanto pior quando Laura Muñoz, esposa de Vanderbroele, o acusou no rádio de ser "testa de ferro de Boudou".
Boudou, até agora, não respondeu às acusações em nenhuma entrevista ou declaração. Limitou-se a tocar com sua banda, La Mancha de Rolando, vestindo uma camiseta preta com os dizeres: "Clarín mente". Enquanto isso, aguarda-se uma investigação oficial sobre o caso. Em vez de terminar em pizza, como é costume dizer no Brasil, acabarão as acusações argentinas em emblemáticos shows de rock?
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O rock também foi o pano de fundo de uma anedota política da cidade de Buenos Aires, há dois anos, envolvendo o maior opositor do governo - o prefeito Mauricio Macri. Grande fã de Freddie Mercury, do Queen, Macri gostava de imitar o cantor em festas particulares. As performances combinavam com o bigode felpudo que era sua marca registrada.
Em 2008, ele aceitou o desafio de imitar o cantor em público, no CQC argentino. Em 2009, cantou outra vez em sua festa de aniversário. Tudo devidamente documentado e postado na internet. Em 2010, a apresentação não lhe deu tanta sorte.
Era 20 de novembro, dia do casamento de Macri com a empresária Juliana Awada. Ele havia raspado há alguns meses seu bigode, pela primeira vez em 30 anos. Para imitar o querido Freddie, então, decidiu usar um postiço.
Os convidados o aplaudiam, "mais pelo esforço que pela afinação", como relatou à época o jornal La Nación. Mas ao tomar ar entre os versos de Love of My Life, que entoava para a noiva, Macri tragou sem querer o bigode e engasgou. O pior só não aconteceu porque o ministro da Saúde, Jorge Lemus, estava ali e o socorreu. Os convidados mais irônicos disseram que foi coisa do Freddie original, baixando do além para que o prefeito parasse de torturá-lo com seus covers.
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