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Quinta, 23 de fevereiro de 2012, 08h09 Atualizada às 09h25

Notas de Carnaval

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Vai ser um bom debate. Não posso imaginar quais serão seus efeitos políticos, mas, para analistas de linguagem, será um prato cheio. Falo da polêmica que anda por aí, mais ou menos leve, com alguns picos, sobre privatização VS concessão.

O debate já existiu, mas renasceu com as concessões dos aeroportos. No dia seguinte ao leilão, declarações de FHC começaram a botar lenha na fogueira. Não anotei suas palavras exatas (quem saberá quais foram?), mas disse algo como "até que enfim 'eles' estão tomando as medidas certas".

Nos dias seguintes começaram dois movimentos: de um lado, tucanos, basicamente, dizendo que o PT não poderá mais atacar as privatizações, como fez especialmente em duas campanhas eleitorais, porque aderiu a elas. De outro, petistas insistiam na diferença entre fazer concessões de serviços, continuando o Estado dono do patrimônio, e vender os bens ("na bacia das almas"). O PT chegou a elaborar uma cartilha, segundo os jornais.

Estou acompanhando a polêmica de longe. Como cidadão, tomo posições. E voto. Como analista, fico de olho nas declarações e em sua repercussão. O que me interessa são as manobras de cada lado, e também dos aparentemente desinteressados, como os jornais. Por exemplo, a Folha de S. Paulo (20/02), em editorial, comparou a insistência do PT em dizer que fez concessões e não privatizações à manifestação de Clinton sobre fumar maconha. Como se sabe, ele disse que fumou, mas não tragou. O governo teria feito algo semelhante: privatizou, mas diz que só concedeu. O editorial anota (corretamente, a meu ver) que as diferenças entre os dois partidos são de grau. Ora, todas as diferenças ideológicas - incluídas as religiosas - são de grau! Aliás, só há debate possível sobre certos temas quando se concorda sobre quase todos os outros.

Até agora, do ponto de vista da eficácia da polêmica (se houvesse um debate ao vivo, seria uma arma mortal), o PT leva a vantagem de poder citar Alckmin e Serra sobre a diferença entre as duas palavras, ou sobre os dois processos. Vou de Serra (mas só aqui!).

Segundo a mesma Folha (11/02, p. A10), defendendo-se de acusações de que privatizaria estatais, em campanha anterior, Serra teria dito: "O termo correto não é privatização, é concessão. Concessão tem um contrato, regras, pode ser quebrada. É completamente diferente de privatização. Eu defendo a concessão de aeroportos".

Na guerra real, não sei quem vai ganhar. Mas a que me interessa é a das palavras.

BARCOS

Um repórter mostrou ao argentino Barcos, que joga no Palmeiras, uma foto de Zé Ramalho, com quem ele se pareceria. Parece que uma das "brincadeiras" dos colegas do time é chamá-lo pelo nome do cantor. Barcos achou que o repórter fazia uma pergunta não relevante, porque na entrevista se deveria falar de futebol. O repórter insistiu. Barcos não quis falar. O repórter perguntou se ele ficara chateado. Barcos respondeu que não, mas que achava "poco sério de tu parte".

Eles chamam isso de interesse do público e de liberdade de imprensa. Estou com Barcos e não abro.

ALEMÃ

Estou revendo uns ensaios de uma professora alemã. Um dos erros mais comuns é a troca de vogais átonas, do tipo que comentei aqui há duas semanas e, de novo, na semana passada. Tenho visto grafias como "devide", "despondo" (duas hipercorreções) e "acustuma / custume", dois alçamentos. Nenhuma interferência morfológica visível ou provável.


Sírio Possenti é professor titular do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso, Língua na Mídia e Questões de linguagem.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

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