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Terça, 28 de fevereiro de 2012, 08h11

Cartas revelam um Otto Lara Resende "endiabrado"

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Em  O Rio é tão longe , além do missivista, há o cronista, o romancista e o contista Otto Lara Resende
Em O Rio é tão longe, "além do missivista, há o cronista, o romancista e o contista" Otto Lara Resende

Rafael Rodrigues
De Feira de Santana (BA)

Certa vez, Nelson Rodrigues, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, declarou que o escritor e jornalista mineiro Otto Lara Resende deveria ter sempre em seu encalço um taquígrafo - em uma definição rápida e grosseira, alguém que faz anotações rapidamente e de forma abreviada -, para que suas frases geniais fossem registradas e depois vendidas em uma loja.

Isso porque, segundo Nelson, a "grande obra" de Otto "é a conversa". Mas se a ideia do taquígrafo não pôde ser levada adiante, a recente publicação das cartas de Otto a um de seus maiores amigos, o também escritor mineiro Fernando Sabino, vem ocupar um bom espaço nessa lacuna.

Reunidas no livro "O Rio é tão longe", editado pela Companhia das Letras, as cartas de Otto Lara Resende fazem o leitor comprovar não apenas o "frasista brilhante" que ele foi - palavras do jornalista e escritor Humberto Werneck, autor do texto de introdução publicado no volume e responsável pelas notas de rodapé: elas também revelam um Otto "endiabrado", sedento por escrever e receber cartas, sua maneira de conversar à distância.

"O Rio é tão longe" é dividido em quatro partes: a primeira, composta por cartas enviadas de Belo Horizonte entre 1944 e 1945; a segunda, com missivas enviadas entre 1957 e 1959, de Bruxelas, capital da Bélgica e, atualmente, também da União Europeia; a terceira, do Rio de Janeiro, entre 1964 e 1965; e a quarta, de Lisboa, entre 1967 e 1970.

Em suas incansáveis epístolas, Otto relatava - ou, melhor, conversava - não apenas os seus problemas ou dilemas pessoais e profissionais, mas também fazia comentários sobre a situação social, política, cultural e econômica de onde estava, principalmente quando escrevia do exterior, nos países onde trabalhou como adido cultural. É certo que tais comentários compõem um pequeno espaço nas cartas, mas é necessário destacar tal característica. Até porque pode-se passar despercebido por ela, tamanho é o talento de Otto para conversar: algumas de suas cartas são enormes, uma delas ocupa 19 páginas do livro, e o leitor pode precisar tomar cuidado para não ser engambelado pelo mineiro.

Entre seus dilemas profissionais há um que é quase uma constante: a dúvida entre ficar no exterior ou voltar para o Brasil. Entre os pessoais, há um que o atormenta sobremaneira: a literatura, a sua literatura. Otto tinha o que o psicanalista e escritor Hélio Pellegrino, outro grande amigo seu, "diagnosticara como 'bibliofobia', o horror a se ver exposto numa livraria", esclarece Humberto Werneck em sua introdução.

Além de não querer ser publicado - apesar de algumas vezes, nas cartas, pedir ao amigo Fernando Sabino que publicasse um livro seu -, Otto volta e meia questionava a qualidade de seus escritos. Ao comentar o lançamento da edição inglesa de "O braço direito", seu único romance, ele diz: "Saiu finalmente a edição inglesa do Braço. Muito bonito o livro, mas me deu uma vergonha! Recebi ontem, passei os olhos nuns capítulos, fiquei com vontade de me esconder, que sujeito chato e triste, sobretudo em inglês, é o meu personagem Laurindo! Será que alguém vai ler essa bosta?".

Mas as cartas trazem, também, muitas passagens bem-humoradas, a maioria delas devido à espontaneidade com que Otto as escrevia. Nelas, também contava casos engraçadíssimos, como este que ocorreu em Portugal:

"Vindo da embaixada (ou melhor, de um cocktail pela inauguração de uma Exposição sobre Paris), cumprimentei polidamente a porteira do edifício em que moro (pois já moro) e, vendo um gajo à espera do elevador, excedi-me em gentilezas para que o tal entrasse antes de mim. Faz favoire pra cá, faz favoire pra lá, o homem era mais amável do que eu, mas tomei-lhe a porta à força, travei-o do braço e fisicamente o intimei a entrar. Aí é que o homem danou-se e quase me gritou no auge da impaciência: "Ora, raios, senhor doutoire, eu sou o porteiro!'".

Há também espaço para o lírico, como na passagem em que ele narra como gostaria que fosse seu encontro com Fernando Sabino, no fim da longa carta do dia 12 de julho de 1964; para uma epístola poliglota, vista na carta do dia 14 de maio de 1965, a qual Otto escreve em português, inglês e francês, com alguns trechos em espanhol; para a fúria, quando Otto comenta uma resenha do seu livro de contos "Boca do inferno" feita pelo crítico literário Wilson Martins, na missiva do dia 28 de julho de 1957; e para o poético, no belíssimo "Lembrete do anjo a Fernando Sabino", que ilustra a capa do livro e antecede as cartas. Curto, emocionado e emocionante, pode-se facilmente referir-se a esse lembrete como uma pequena obra-prima.

Na falta de um taquígrafo a tiracolo ou de um gravador no qual estivessem armazenadas as frases e conversas de Otto Lara Resende, é até possível que esteja nas cartas, como deixa a entender o já referido texto introdutório de "O Rio é tão longe" escrito por Humberto Werneck, o melhor dos "Ottos". Mas, além do missivista, há o cronista, o romancista e o contista. Todos já conhecidos das estantes das livrarias, porém um tanto esquecidos nos últimos anos. Com a publicação de "O Rio é tão longe" e a nova edição - ampliada - do livro de crônicas "Bom dia para nascer", e a futura reedição de outras obras de Otto pela Companhia das Letras, sob organização de Werneck, o público leitor brasileiro - que, dizem, vem aumentando - poderá decidir qual desses Ottos é o melhor. E, mais do que isso, descobrir - ou redescobrir - todos eles.


Rafael Rodrigues, escritor e jornalista, é autor de "O escritor premiado e outros contos" (Multifoco, 2011) e mantém o blog Entretantos no site da revista Bravo!.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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