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Segunda, 5 de março de 2012, 08h15

A autonomia da mulher

Cláudio Lembo
De São Paulo


"A mulher de hoje, mantendo-se como a figura central da sociedade, assumiu encargos excessivos" (Foto: Getty Images)

Aproxima-se o Dia Internacional da Mulher: oito de março. A data permite reflexões sobre o passado e o presente da caminhada da mulher ao longo da História.

O sofrimento feminino é sem paralelo na comunidade humana. As agressões físicas no decorrer dos vários períodos históricos. A submissão sem limites à vontade masculina.

As humilhações impostas por ingênuos preconceitos. As proibições ao exercício de determinadas atividades, inclusive no campo religioso. As discriminações indevidas e ultrajantes.

A mulher manteve-se, apesar de tudo, notavelmente superior em todos os embates. Morreu nas fogueiras da inquisição. Violada em guerras selvagens. Denegrida, muitas vezes, em sua honra.

A efetiva libertação da mulher foi tardia. Há menos de cinqüenta anos, ainda eram discriminadas. Direitos elementares eram negados à mulher. Não podia dirigir sua prole. Devia se submeter ao pátrio poder.

Obrigada a adotar o nome de família do marido. Catalogada como desonesta, em hipóteses que hoje fazem rir. Tudo era negado à mulher. Somente a atitude servil era admitida.

Romperam-se os velhos costumes e as imposições ilegítimas impostas por conservadorismo sem qualquer traço de sensatez. As conquistas foram muitas. Cabe verificar a extensão.

Certamente, a mulher, ao conquistar autonomia pessoal, recebeu encargos múltiplos. A mulher de hoje, mantendo-se como a figura central da sociedade, assumiu encargos excessivos.

Manteve-se, como próprio da natureza, mãe. A esta são impostos os encargos do nascimento. Os ônus maiores da educação dos filhos. O trabalho além do lar. A mulher somou a sua figura encargos múltiplos.

Ainda assim bloqueios à plenitude de sua autonomia se colocam. À mulher, como titular de seu corpo, são impostas exigências inaceitáveis. Todos os ônus da sexualidade recaem sobre a mulher.

Ao homem são concedidas todas as benesses. É o caçador em busca de sua presa, imagem grosseira ainda presente na mente de muitas pessoas.

Na guerra do cotidiano, muitos ainda se imaginam nas batalhas de conquistas de todas as épocas. Entre as condições impostas aos vencidos, a violação das mulheres da comunidade era marca presente.

Um horror aceito por alguns dirigentes, inclusive no recém findo Século XX, como indicam guerras locais ocorridas em território europeu. Inaceitável está posição machista e violenta.

Todo o debate de temas envolvendo a mulher sempre traz uma carga de emoção desmedida. Assuntos que deveriam ser resolvidos com racionalidade são permeados de dogmas e superstições superadas.

A vida feminina pouco importa para alguns observadores. O seu sofrimento não deve ser levado em conta. É herdeira de todos os ônus advindos de sua condição de mulher.

Já é tempo de se afastar argumentos clássicos e sobejamente conhecidos sobre a natureza do corpo feminino. É um santuário que só pode recolher quem nele é desejado.

Caso contrário, provocará danos físicos e morais à detentora da capacidade de procriar. A vida deve ser sempre respeitada, inclusive da mulher em sua plenitude psicológica e física.

Já é tempo de recolher a vontade da mulher em temas que dizem respeito ao seu ser. Há assuntos que não cabe aos homens tratar. É posição reacionária.

As mulheres devem decidir sobre assuntos de seu corpo e consciências. Aos homens cabe serem mais humanos e menos egoístas.

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Cláudio Lembo é advogado e professor universitário. Foi vice-governador do Estado de São Paulo de 2003 a março de 2006, quando assumiu como governador.

Fale com Cláudio Lembo: claudio.lembo@terra.com.br

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