
Amália Safatle
O consumidor tem nas mãos um poder que nem imagina. Como a maior parte do mundo se move por meio de economias de mercado, a força que puxa esse motor vem de quem adquire produtos e serviços finais. O consumidor, portanto, é o maior responsável pelo modo como o planeta produz e consome hoje. Até agora, o resultado tem sido desastroso.Mantido o ritmo atual, os recursos naturais e energéticos da Terra vão se exaurir e deixar à míngua as próximas gerações. Nem precisa ir muito além: gerações atuais nos países subdesenvolvidos, diante das imperfeições do sistema capitalista, já têm menos acesso a recursos para que os países ricos consumam mais do que o planeta pode suportar.
Movimentos para que o consumo seja menos predatório e mais inteligente ganham adeptos e forçam o setor privado a oferecer produtos e serviços sustentáveis. Resta saber se isso ocorre na velocidade necessária.
Quase metade da maior cobertura florestal do planeta, por exemplo, sumirá do mapa em menos de 50 anos - caso a taxa de devastação continue - liberando na atmosfera nada menos que 17 bilhões de toneladas de dióxido de carbono, o principal gás causador do aquecimento global. Falamos da Amazônia, sobre a qual debruçaram os cientistas Britaldo Soares-Filho e Daniel Nepstad para dar origem a um estudo, publicado recentemente na revista inglesa Nature.
Soares-Filho e Nepstad concluíram que as maiores causas do desmatamento estão no avanço da pecuária extensiva, no corte ilegal de madeira e no plantio de soja. A maior parte da madeira é vendida a consumidores paulistas e para demais estados do Sudeste, seguidos pelos Estados Unidos. A carne é vendida tanto no mercado interno como no externo. E a soja é importada por europeus e asiáticos para produzir rações e alimentar frangos e porcos que vão parar no prato dos consumidores estrangeiros.
O Greenpeace Internacional na Holanda acaba de divulgar os resultados de uma investigação sobre a expansão da indústria de soja no Brasil, intitulada Eating up the Amazon (Comendo a Amazônia). A organização não governamental acusa empresas norte-americanas, entre as quais a Cargill, de estimular e se beneficiar da invasão da soja na Amazônia por meio da construção de silos no coração da floresta, financiamento da abertura de estradas e compra de soja produzida em terras ilegais, provenientes do desmatamento e sem cumprimento de leis trabalhistas.
A Cargill afirma que se comprometeu a só comprar soja legalizada, com a finalidade de pressionar produtores na região amazônica a cumprir a lei de reserva legal, pela qual 80% da propriedade precisa ter sua cobertura vegetal conservada.
As notícias são desoladoras, mas existem formas ao alcance das empresas para preservar os recursos naturais, respeitar os trabalhadores e ao mesmo tempo atender as necessidades de mercado, tanto atuais quanto das próximas gerações: promover o manejo sustentável da produção ou da extração dos produtos.
Para provar ao consumidor que esse manejo cumpre as exigências sócio-ambientais e é viável economicamente, existem as certificações, ou selos verdes. Cerca de 250 produtos florestais madeireiros e não-madeireiros já estão disponíveis ao consumidor brasileiro com o selo do Forest Stewardship Council (FSC) - de lápis até madeiras usadas na construção civil, de livros a móveis, de brindes corporativos a cosméticos. O FSC é um sistema que credencia certificadores independentes e endossa padrões de certificação do manejo florestal em todo o mundo.
Esses produtos serão mostrados na II Feira Brasil Certificado que o FSC Brasil (www.brasilcertificado.com.br), ao lado do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) e do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), promovem em São Paulo, da terça-feira 18 a quinta-feira 20.
Nesta edição, a feira terá fóruns de mercado para discutir a compra de produtos certificados pelo governo e a atuação de empresas do setor de papel e celulose, como Klabin, Suzano e Orsa Florestal, e do ramo imobiliário. A Takaoka, por exemplo, lançou há pouco o condomínio Gênesis, construído com uso de madeira certificada. A construção civil é o setor que mais emprega madeira ilegal da Amazônia.
Ana Young, diretora do FSC Brasil e organizadora do evento, expõe o nó do consumo de produtos certificados no Brasil. Segundo ela, a demanda dos consumidores por esse tipo de produto, ainda que restrita a um público de elite, é crescente. E as empresas estão dispostas a aproveitar a oportunidade de mercado - o que tende a elevar a escala de produção e reduzir preços. Mas falta completar o elo entre as duas pontas, por meio do engajamento de parte intermediária da cadeia: a marcenaria que transforma a madeira em móveis, a gráfica que imprime as publicações e assim por diante.
O envolvimento desse elo, acredita Ana, só se dará por meio da difusão de informações e do convencimento entre mais atores da sociedade de que, além de negócio promissor, esse é o caminho para um consumo mais inteligente.
Hélio Mattar, presidente do Akatu - instituto que procura estimular o consumo consciente no País - acredita que apesar dos desafios, o consumidor brasileiro tende a ficar cada vez mais responsável, com a ajuda da informação e educação. "A sociedade de hoje tem acesso cada vez mais facilitado à informação por meio da mídia e de tecnologias como a internet, além de programas de educação ambiental em escolas particulares e públicas muito mais fortes do que em tempos atrás", diz.
Mattar, entretanto, aponta uma contradição. A mesma mídia que informa e instrui sobre problemas sócio-ambientais vive de uma publicidade que estimula a compra desenfreada e caminha na contramão do consumo responsável. De acordo com a pesquisadora Liciane Mamede, do Akatu, o bombardeio de propagandas voltadas ao público infantil e a criação de produtos mais atraentes está consolidando uma nova geração de consumistas.
Hoje o mercado de produtos voltados ao público infantil no Brasil já movimenta R$ 50 bilhões por ano, segundo o Ibope. Enquanto isso, crianças brasileiras entre quatro e 11 anos são as campeãs mundiais em horas gastas em frente à televisão: 4 horas e 51 minutos, recebendo estímulos de compras a todo o momento. Paulo Levi, vice-presidente de planejamento e pesquisa da agência Lew, Lara, lembra que a criança é mais suscetível aos apelos do marketing, pois ainda não sabe diferenciar o necessário do supérfluo.
Em um mundo com oferta decrescente de recursos naturais e energéticos, essa conta não irá fechar. A não ser que o consumidor ponha seu poder em prática e cada vez mais exija do mercado soluções sustentáveis.
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