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Segunda, 17 de abril de 2006, 14h49

Cotonete no ouvido faz mal à saúde!

Maria Falcão

Primeira coluna é sempre um problema, a começar pelas resoluções quanto ao estilo do texto. Resolvida essa questão, vem a indecisão em torno do so called tema ideal. Gripe aviária? Células tronco? Dengue? Qual o assunto da moda, se é que saúde pode ser considerada assim? Na falta de assunto, a velha e boa fórmula é sempre uma mão na roda: recente pesquisa da universidade X, que esta testando a vacina Y contra a proteína Z... No fim, a impressão que tenho é a de que quase toda coluna de saúde é igual. Mas, levando-se em consideração o fato de que elas realmente chamam a atenção do leitor, fugir desse formato talvez seja burrice ou no mínimo teimosia. E assim, lá vou eu, atrás do assunto em voga na semana.

Desde que recebi o convite para escrever esta coluna, venho me perguntando: até quando saúde vai ter que ser sinônimo de câncer, aids, dietas milagrosas, pesquisas e promessas de cura para ser vista como assunto a ser considerado. Quem trabalha no ramo bem sabe: saúde, ou melhor, a falta de, é também a velha e já batida hipertensão, o diabetes, a cólica. É ainda a diarréia, a dor de cabeça da ressaca, a unha encravada que inflamou, a fila para atendimento nos postos, os problemas com o SUS, e por aí vai. É tudo tão próximo e tão real quanto a violência nas cidades, tão cotidiano quanto as flutuações do câmbio e altas e baixas da bolsa, tão freqüente quanto as maracutaias no congresso nacional. E simplesmente por ser assim, parte da rotina de todos nós, e indissociável das nossas vidas, é que acho que deveria vir para a mídia de forma menos mitificada. Ou sem a necessidade do glamour habitual que acompanha os temas que vão para as capas de revistas. Saúde bem no estilo "a vida como ela é".

E pra fazer valer todo esse meu discurso, nesta coluna número zero venho com o seguinte tema: cotonete no ouvido faz mal à saúde! Um assunto simples, quase sem nenhum "requinte", mas que, posso apostar, vai fazer muita gente balançar a cabeça positivamente e dizer: "esse sou eu".

O ritual começa com a inocente e perfeitamente justificável higiene externa. "Vou limpar só a parte de fora pra tirar o excesso", é o que diz a maioria das pessoas. E é bom que se diga logo, não existe esse negócio de excesso de cera no ouvido. O que pode acontecer é uma maior produção, em determinados momentos, como no período menstrual ou em situações de estresse. Pessoas com pele oleosa também podem ter essa tendência. E é no pegar o cotonete para a dita limpeza superficial que mora o problema - quem já sentiu a sensação antes, não resiste. Quando menos se espera, está lá você, enterrando o tal no ouvido, quase em êxtase, dando 360 graus ininterruptos e pouco se importando com o tímpano ou mesmo com a cera!

Mas isso não pode acontecer. Primeiro porque o ouvido já tem um mecanismo de auto-limpeza que empurra as células cutâneas mortas para fora. Segundo, porque o uso de cotonete pode causar um processo inflamatório que atinge a pele do canal auditivo externo, além de empurrar a cera para dentro, formando um tampão de cera. Esse tampão pode provocar uma sensação de eco ou até a perda temporária da audição. E terceiro, porque, diferentemente do que muitos pensam, o cerume não é sujeira, funcionando na verdade como proteção. Está certo que não é nem um pouco agradável ficar com o ouvido sujo. Por isso, os especialistas orientam que o ideal é limpá-lo após o banho com a ponta da toalha, só até onde o dedo alcançar - e esse dedo NÃO deve ser o mindinho!

Outro problema bastante comum é a otite média. Essa é uma infecção causada por microorganismos que podem ser transportados também pelo cotonete. Em alguns casos, os cotonetes podem ainda perfurar a membrana do tímpano, causando sangramento e lesões mais graves na região, como a surdez parcial.

Mas por que diabos usar o cotonete no ouvido é tão bom? A sensação agradável, dita por alguns especialistas ser comparável ao orgasmo, acontece pois essa é uma região ricamente inervada. Existem aí muitas terminações nervosas que no contato com qualquer objeto dão origem a estímulos que, no cérebro, se traduzem nas tais sensações.

Bem, saúde é isso. Uns assuntos mais simples, outros mais complexos, uns mais chulos, outros sofisticados. Tudo, porém, saúde.


Maria Falcão é médica e mestre em jornalismo científico pela Universidade de Londres.

Fale com Maria Falcão: falcaomaria@terra.com.br

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