
Bob Fernandes
Eles vasculham, há décadas, os subterrâneos, a alma, os humores e instintos da população brasileira. Em especial nos tempos de eleições. Através de pesquisas eleitorais clássicas, ou nas mais fechadas, as qualitativas, conhecidas como "Qualis", eles buscam captar - antes de todos, de preferência antes ainda dos concorrentes, esse é o segredo do negócio - para onde se move, pode vir a se mover, o sentimento popular. O que quer, quem, o eleitor quer? Quem ele rejeita? Em que canoa ele vai terminar por embarcar?
Antônio Lavareda, da MCI, Carlos Augusto Montenegro, do IBOPE, Marcos Coimbra, do VOX POPULI e Mauro Paulino, do Datafolha, foram ouvidos por Terra Magazine sobre a eleição presidencial já em curso; eleição antecipada, a deste 2006, depois da blitz de CPIs que se movimenta há quase um ano.
Prazos oficiais devem ser levados em conta quando se analisa o elenco de candidaturas, assim como coligações nacionais e estaduais, o horário gratuito, mas é inegável que uma porção do processo já está nas ruas. E foi sobre essas preliminares e suas conseqüências detectáveis - tantas vezes mais decisivas que a reta final quando visto o processo eleitoral à distância - que Terra Magazine ouviu Lavareda, Montenegro, Coimbra e Paulino.
E notou discordâncias.
Por exemplo, quanto à influência dos chamados formadores de opinião.
Antônio Lavareda acredita que eles ainda serão decisivos quando a campanha chegar ao clímax, enquanto Mauro Paulino já não crê que tal movimento mantenha a mesma força; o diretor do Datafolha aposta que o eleitorado de baixa renda acostumou-se, a caminho da quinta eleição presidencial, a exercer o voto de maneira menos influenciável.
Da mesma forma, Paulino e Montenegro têm percepções diferentes quanto a favoritismo. Montenegro nota que nas últimas eleições - salvo 94 - venceu quem saiu na frente. Paulino não crê que quatro eleições, com um resultado distinto entre elas - a do favorito Lula que perdeu em 94 - sejam suficientes para impor um padrão.
Carlos Augusto Montenegro captura nas pesquisas algo que pode ser definido como óbvio, mas cuja reiteração e explicitação auxilia na compreensão do como e do por quê um presidente resiste a tal pancadaria por quase um ano:
- Lula é um símbolo. Se nada atingi-lo muito dura e diretamente, ele é amplamente favorito. Ele é um símbolo aos olhos do povo, da multidão. Quando ele entrou na carruagem da Rainha Elizabeth, em Londres, todo esse povo, o nordeste quase inteiro, entrou junto com ele. Também por cenas simbólicas como essa o Lula tem no nordeste uma vantagem de seis a sete por um.
Marcos Coimbra diz:
- Não sabemos nem mesmo se haverá segundo turno ou se a eleição se decidirá no primeiro.
Nas linhas que se seguem um resumo da conversa de Terra Magazine com os quatro.
Montenegro, do IBOPE, aposta que já há dois favoritos: Lula e Alckmin. E defende uma tese:
- A não ser em 94, quando o Plano Real catapultou Fernando Henrique para a frente de Lula, quem tem vencido as eleições é quem sai na frente. A propósito, adverte que não apenas no Brasil o eleitor vota pelos seus interesses mais imediatos; no caso, o bolso e o estômago. Cita como exemplos os Estados Unidos e a Inglaterra nas últimas eleições:
- Mesmo atolados na Guerra do Iraque, com dificuldades externas enormes, Bush e Blair venceram, e venceram porque aos olhos do eleitor a economia caminhava bem.
No meio do caminho do franco favoritismo do presidente, Montenegro encontra dois obstáculos: as coligações, o quem vai e o quem não vai com quem, o PMDB ter ou não ter candidato, e um ataque frontal, e bem sucedido, ao presidente.
- Se nada de novo surgir, nada o atingir muito dura e diretamente, o favoritismo dele é amplo.
Da mesma forma que, segundo ele, os favoritos absolutos em seus estados são, hoje, Aécio Neves, em Minas, Paulo Souto, na Bahia, Serra, em São Paulo, e Roseana no Maranhão.
Quanto à crise política, Montenegro analisa:
- Há quase onze meses Lula e seu governo sofrem uma investigação midiática incomparável em relação a outros presidentes do Brasil, e creio que eleitorado já absorveu e se posicionou ante o exposto.
A economia é um ponto forte para Lula, diz Montenegro. E quando fala em economia inclui o Bolsa Família, o crédito consignado, a "comida que poucas vezes teve preços tão acessíveis na cesta básica". O diretor do IBOPE aponta um dos motivos que o levam a perceber o amplo favoritismo:
- Em 89, 94 e 98 Lula perdeu entre os pobres e esse é um segmento que ele agora atinge como nunca antes, ainda que tenha perdido, ao mesmo tempo, setores da classe média, setores influenciáveis por artistas, jornalistas...
Por fim, e em resumo, Montenegro lembra que Lula é "símbolo":
- Ele criou a maior central sindical da América Latina, um dos maiores partidos da mesma região e, vindo das camadas mais pobres, de uma família de pau-de-arara, se tornou presidente. O simbolismo disso é poderosíssimo e nem sempre pode ser medido em toda sua extensão. Quando ele entrou na carruagem da Rainha Elizabeth todo esse povo, o Nordeste inteiro entrou junto com ele. Por todo esse simbolismo, por cenas como essa, a intenção de voto dele no nordeste é de seis ou sete por um.
Montenegro, por último, faz questão de repetir:
- Eu acredito em pesquisa, não acredito em feeling.
Antonio Lavareda, diretor presidente da MCI, no momento faz pesquisas tanto para o PFL quanto para o PSDB e nos anos FHC foi o principal analista de pesquisas do presidente.
O sociólogo recorda, de início, que há um candidato por todos conhecido, o presidente Lula, candidato já por quatro vezes, e um outro desconhecido por praticamente metade do eleitorado, Geraldo Alckmin, de visibilidade restrita a São Paulo e estados vizinhos.
Agora, lembra Lavareda, Alckmin se submeterá a dois choques: o primeiro, o de mídia livre, de exposição aberta Brasil afora, o que ajudará a combater o fator desconhecimento.
O outro choque é, na verdade, uma esperança que alimenta a esperança do candidato tucano para uma decolagem: onde ele é conhecido é bem avaliado. Sua tarefa principal no momento seria tornar-se mais conhecido.
Outra vereda decisiva, aponta Lavareda, será a construção de palanques estaduais que sirvam de base à sua candidatura.
Na opinião do diretor-presidente da MCI, o candidato Geraldo Alckmin deve crescer entre 5 e 10 pontos até agosto, o que diminuiria a vantagem de Lula para coisa de 10 pontos exatamente no momento em que a campanha se acirrará com o início do horário eleitoral gratuito na televisão e no rádio e com os principais debates, também via rádio e tv.
Para Lavareda, episódios como o dos vestidos e/ou peças de vestuário doados à primeira-dama Lu Alckmin pelo estilista Rogério Figueiredo (noticiado na coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo) criam "mais embaraços do que prejuízos eleitorais".
- Com certeza o eleitorado não vai se definir em função dos guarda-roupas das respectivas primeiras-damas - ironiza Lavareda.
Fundamental, no entender de Antônio Lavareda, será o movimento do eleitorado diante de dois processos superpostos. Uma eleição com o "incumbente" no cargo, no caso o presidente da República, e com a inexistência de várias candidaturas fortes, não tem como não levar a eleição a um processo plebiscitário. Só então, definido o elenco de candidaturas, o eleitor confirma o incumbente ou embarca num substituto.
"Lula se distanciou de bases tradicionais na classe média", percebe o sociólogo, e essas porções da classe média seriam fortes formadoras de opinião, em especial na fase final de uma campanha.
- É nesse instante que se arrecada as opiniões nas classes C, D e E, as opiniões se voltam simultaneamente para um ou outro candidato, e as classes médias jogam um papel importante.
Marcos Coimbra, diretor do VOX POPULI, levanta uma outra questão:
- Será uma eleição muito disputada, a mais disputada de todas desde 89, e ainda não é possível saber sequer se teremos segundo turno ou se tudo se decidirá no primeiro.
Enquanto não for definido o elenco de candidaturas restará a especulação.
- O PMDB terá ou não candidato? A Heloisa Helena terá algum partido e, portanto, mais tempo no horário gratuito, ou não?
Entende Coimbra que da mesma forma que Enéas, do PRONA, com um discurso em defesa da bomba atômica, da moral e cívica, colhe votos nos segmentos à direita, Heloisa Helena penetrará nas faixas à esquerda. A senadora poderá ampliar sua presença no eleitorado a partir do instante em que o arco de alianças do PSOL lhe dê mais espaço no horário gratuito.
Lula parte de um eleitorado fixo, recorda Coimbra, faixa um pouco acima de 30% que no VOX POPULI tem sido objeto de estudos: quem são os lulistas, o que são, o que pensam, o que querem? Quatro eleições depois, a caminho da quinta, Coimbra tem em mãos um vasto manancial de dados sobre o que seria o lulismo:
- O Lulista, o lulismo, é um retrato quase exato da população brasileira; se parece, com algumas exceções, a um corte transversal da sociedade.
Coimbra detecta nas pesquisas um dado que pode ser algo favorável ao candidato do PSDB:
- O Lula agrega à sua base uns 10 ou 12 pontos, salta para 42 ou 43, mas não tem ido além disso. O desempenho do presidente nas pesquisas não é extraordinário, mostra a força dele e evidencia um paradoxo: exibe a força dele mesmo depois de 11 meses de enorme desgaste com as CPIs mas, ao mesmo tempo, mostra a força desse desgaste.
Para Coimbra o desempenho de Alckmin, por outro lado, pode até ser considerado bom.
- Vinte pontos é muito bom, pois ele não tem a mesma visibilidade que o presidente, ele é conhecido por metade do eleitorado e já parte com 20 pontos. Falta saber se ele vai conseguir o mesmo desempenho nessa tarefa com a metade que ainda não o conhece.
O diretor do Vox Populi tem uma opinião desfavorável ao início da campanha tucana na televisão:
- Não creio que sejam muito eficientes as peças que foram ao ar e mostram Alckmin ao lado de outras lideranças do PSDB como Aécio Neves, Cássio Cunha Lima, Marconi Perillo. É ele quem tem que se mostrar como a grande liderança do PSDB e não como está sendo apresentado. Estas oportunidades têm que ser bem aproveitadas.
Coimbra sente que o eleitorado está fazendo uma avaliação que inclui a economia e as condições do País hoje. E, para ele, é uma avaliação positiva, uma opinião "favorável do quadro nacional" e de quem está no exercício do poder.
Por ora, como é clássico mundo afora, o eleitor segue a indicar suas intenções a partir do bolso e do estômago. Mas há um grande espaço para Alckmin crescer.
Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha, discorda da tese exposta por Carlos Augusto Montenegro, do Ibope, de que já haveria um padrão definido pelas últimas quatro eleições presidenciais.
- Para haver um padrão é preciso partir de uma história linear de resultados e isso ainda não há. Tivemos em 94 um candidato, Fernando Henrique, que saiu bem atrás e venceu.
Para Paulino, mesmo o favoritismo de agora deve ser percebido com cautela, pois em dezembro, no auge das CPIs, Lula tinha 41% das intenções de voto e Alckmin 40%.
- Hoje Lula é o favorito claro, mas a situação não é, de forma alguma, definitiva. Se a oposição conseguir criar um clima igual ao de alguns meses atrás o quadro pode se modificar. É uma eleição em aberto embora hoje exista um favorito, que é Lula.
O diretor do Datafolha detecta uma mudança no eleitorado:
- O eleitor de baixa renda, tantas eleições depois, já não é mais tão influenciável pelos formadores de opinião, é um convencimento político que vai se dando pelo exercício continuado do voto, já não acredito nesse movimento clássico de formação da opinião.
Mauro Paulino não descarta influências, ao contrário, ele sabe que uma eleição é um balé de influências e contra-influências e indica o dado decisivo:
- O eleitor de até cinco salários mínimos representa mais de 70% do contingente de votos e é ele quem decide a eleição.
E abaixo de cinco salários estão 80% da população. São eles os que decidirão a parada.
Terra Magazine
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