para João Gabriel

Paulo Boa Nova, um amigo, foi quem me disse – e a notícia, apesar de velha, foi veiculada no face book ultimamente - que, aos 5'37" da gravação dos Beatles de Hey Jude, ouve-se uma voz falando em bom português a frase "pega o cavaquinho". A faixa Hey Jude  é longa, por conta da quantidade de vezes em que se repete o refrão "na na na Hey Jude" e, quando vai chegando ao final, a gente pouco se dá conta dos detalhes da gravação. Com atenção, no entanto, e aumentando o volume, dá mesmo pra ouvir claramente a tal frase, fato que se acrescenta às lendas que envolvem as gravações dos Beatles que, aliás, sempre curtiram contar com a ação do acaso na sua obra.

Durante a edição do álbum Abbey Road – o último da banda – a vinheta Her majesty estava entre duas outras faixas e não no final, mas Paul Mccartney, numa sessão de pré-mixagem, mandou um dos engenheiros do estúdio cortar a fita e jogar fora a gravação da música. O engenheiro, em vez de obedecê-lo, colocou a música no final  do lado B, após um intervalo de silêncio. Acidentalmente, porém, ao cortar a fita, ele partiu o último acorde da canção ao meio e manteve o acorde final da música anterior, Mean Mr. Mustard. Os Beatles gostaram do erro e o mantiveram, tanto que, nas edições do lp, antes da era do cd, a faixa não aparecia listada na capa ou no rótulo do vinil, um bônus não creditado. A lista das canções terminava com The end, que vinha no final de uma série de pequenas canções que, segundo Lennon, eram apenas sobras de material que eles resolveram aproveitar. Esta história de Her majesty e outras estão bem relatadas no livro de Mark Lewinsohn, The Complete Beatles Recording Sessions (1987), infelizmente, nunca lançado em português, no Brasil.

Os Beatles eram ótimos em aproveitar sobras, pois o medley final de Abbey road é um luxo, juntando canções distintas como Polythene Pam, de Lennon, e She came in through the bathroom window, de McCartney. O elo entre as duas é um dos pontos altos da obra, o que faz muita gente buscar semelhanças entre Abbey road  e discos de rock progressivo, em que um conceito norteia o som.

Nos Beatles, no entanto, as canções norteiam o som. Se há conceito, ele vem a posteriori, mesmo que tenha sido estabelecido a priori, caso do disco Sgt. Pepper. John Lennon declarou que as três primeiras canções de Pepper tentaram seguir o conceito sugerido por McCartney, mas depois o que eles fizeram foi simplesmente gravar as músicas que tinham, apenas repetindo, na penúltima faixa, a canção título, pra manter o conceito do álbum.

A história do "pega o cavaquinho" é um mistério difícil de desvendar. Não há, na lista de instrumentos de orquestra usados no final de Hey Jude, nenhum cavaquinho, e a frase parece uma coisa solta, isolada de contexto, um corpo estranho que, aliás, não altera em nada a excelência da gravação. É apenas uma curiosidade entre outras, como a que relaciona os Beatles ao Brasil:  o boato de que eles iriam gravar a Asa Branca,  de Gonzaga e Humberto Teixeira, em 1968.

O que os Beatles gravaram – e que tem uma semelhança impressionante com a introdução instrumental de Asa Branca, por isso, deu origem ao boato -  foi a música The inner light,  de George Harrison, que, aliás, só conta com a participação dos outros Beatles no coro. Toda a instrumentação foi feita por músicos indianos, o que revela a identificação entre a música da Índia e o baião nordestino.

A menção ao cavaquinho – instrumento de origem portuguesa – me fez pensar na morte recente de um ás do choro: Edson Sete Cordas que, como diz o próprio nome, era o mais reconhecido instrumentista do violão de sete cordas, na Bahia. Trabalhei com Seu Edson nos Cds que produzi – em parceria com J. Velloso – de Batatinha e Riachão. Batatinha, ao dizer os nomes dos músicos que queria para tocar no seu disco, exigiu primeiramente Edson e Cacau, no pandeiro. Os dois – Cacau é, merecidamente, uma referência do seu instrumento – formavam uma dupla formidável, a alma do grupo Os ingênuos, o maior representante do choro na capital baiana.

Mas de ingênuo Seu Edson não tinha nada. Era o rei da "puias" – típica brincadeira verbal de duplo sentido, muito usada entre músicos das antigas, e alguns mais novos, como Tota Portela e Ivan Huol. Mas o que me interessa dizer de Seu Edson é que seu toque como instrumentista era heavy, o que conferia ao que executava um vigor impressionante, aparentado com o rock, o que desfaz a imagem dos chorões como músicos encastelados num determinado nicho e tocando uma música só tradicional, com roupas tradicionais.

Cavaquinho inaudível nos Beatles, heavy inusitado no choro, choro timidamente por Seu Edson, com quem tive minhas rusgas e aprendi muito sobre trabalhar com produção musical. Choro e Beatles 4 ever.