Os irmãos Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari marcaram a poesia e arte brasileiras tão fortemente que até hoje a citação de seus nomes é objeto de discussão. A imagem romântica do poeta como um ser inspirado foi questionada por eles que, no entanto, reforçaram uma ideia também romântica do poeta combativo, em movimento, nunca estacionado, mesmo que em silêncios momentâneos. Poesia oficial não era com eles. E Décio, além da obra poética, escreveu o texto teórico – sobre poesia – mais simples e bonito que conheço:

O poema é um ser de linguagem. (…) Para ele, a linguagem é um ser vivo.(…) É como uma pessoa, ou como a vida: por melhor que você a explique, a explicação nunca pode substítuí-la. É como uma pessoa que diz sempre que quer ser compreendida. Mas o que ela quer mesmo é ser amada.

"Palavra gasta, palavra intacta": não à toa, continuo a crônica com o final do texto de Caetano sobre seu disco Bicho, de 1977, que se aplica ao título do seu Cd de agora, Abraçaço.

Chega um cd de Caetano, me sinto velhinho, pois não sei baixar músicas, e gosto, repito, do objeto disco, inda mais com a capa que vi no YouTube, o rosto dele sob fundo preto e quatro pares de braços e mãos em torno, acarinhando-o, digerindo-o, abraçando-o.

Quanto à canção propriamente, assim como Caetano fez com "odara" – que, de palavra sagrada virou gíria -  ele reinventa o gesto e a palavra "abraçaço".

As rimas, muitas em "aço" – "palhaço", "amasso", "beijaço", "espaço", "pedaço", "traço", "desfaço", "estardalhaço", "cansaço" – dão a liga forte desta canção de amor e desamor: o que não funcionou na relação pessoal sobrevive no abraçaço estético – ser de linguagem a que Décio se refere – apesar da fragilidade das coisas, "velho cansaço do eterno mistério".

As palavras "mistério" e "sério" viraram  as oxítonas "misteriô" e "seriô" e rimam com o "acaso grão-senhor", regente de tudo.

Coragem grande é poder dizer sim.

Caetano fez uma canção afirmativa, apesar de tudo e por causa de tudo, a partir de um desencontro – "você não se deixou ficar " – o que me remeteu aos Beatles, que apareceram também afirmativamente com as canções cheias de yeahs yeahs yeahs -  She loves you, por exemplo – que, no Brasil, se metamorfosearam em "iê iê iê", e passaram a nomear o rock nacional daquele período.

Como os Rolling Stones apareceram, publicitariamente, como uma resposta aos Beatles, o seu primeiro grande hit dizia "não".

I can't get no satisfaction  (posso ter não/ satisfação – na versão de Gil)

Mas, que ninguém se engane, eram duas bandas do mesmo time, mesma turma.

Cantando bem pouco "iê iê iê" e mais "ô ô ô", como apontou Paulo César Araújo, Roberto se tornou o rei do nosso iê iê iê e, por fim, o Rei, simplesmente.

Quando a gente se debruça, mais atentamente, para a obra do Rei, fica besta. Do início, com O calhambeque , passando pelas Curvas da estrada de Santos até a sacralização do seu reinado, com Detalhes, seu canto foi construindo e dando identidade a um universo de canções – dele ou não – traçando, graças à influência de João Gilberto, um caminho diferenciado para o rock e o romantismo da música brasileira, sem paralelo no Reino Unido, nos EUA ou na América Espanhola.

O romantismo de Roberto acrescentou coloquialidade à uma tradição latina expressionista, rasgada.

Mas o Rei está de música nova, Esse cara sou eu, que não me chamou atenção, de início.

Enquanto  ele afirma "esse cara sou eu", lembrei da canção de Chico Buarque e Edu Lobo, Noite de verão, que diz:

Não pode ser eu /você fala meu nome, quem sou eu?
Você fala meu homem, sim /meu homem, sim, mas qual?
Eu nunca fui ninguém

Deve ser demais/ deve ser o tal/
o homem que lhe faz tão bem

 

O romântico Chico duvida, o romântico Roberto tem certezas.

No entanto, curti a música nova de Roberto enquanto caminhava em uma tarde de verão baiano pelas ruas e burburinho do centro de Salvador, entre barracas do que parece ser a feira eterna do Largo Dois de Julho e a variedade de pessoas da Praça da Piedade, ouvindo, em todo canto, Esse cara sou eu, saindo das caixas de som daqueles carrinhos de café, não só na voz de Roberto, assim como também em gravações de cantores do que hoje se chama "seresta": um som limpo, claro, até meio anódino, fazendo acompanhamento pra vozes emocionadas, plenas de expressão.

Roberto e muitos robertos, entre frutas, flores, cheiros, tudo junto.

Desinvelheci de tanta riqueza, talvez porque sejamos uma multidão de caras, ansiando ser o namorado e homem ideal pras musas, anônimas, cada qual no seu escaninho de afetos robertos e abraçaços caetanos décios.