O novo prefeito de Salvador anunciou, em reunião com estrelas do carnaval, que a cidade terá dois carnavais em 2014, ano da Copa do Mundo de Futebol. Os artistas presentes adoraram, o prefeito sorria, justificando que, em ano de Copa, a gente tem mesmo de mostrar a nossa cultura, o que vai gerar empregos.

Dinheiro, com certeza, para empresários e donos de camarotes, se tiver camarote. Sub-empregos, também. E som em alto volume. Barulho. Durma-se com um barulho desses. Mas não se dorme com barulho. Barulho incomoda bastante e, reza a Constituição, o cidadão tem direito a sossego. Como não tem sossego durante o carnaval, ele é obrigado a viajar.

E muitos viajam, ou ficam em casa vendo a folia na tv, segundo uma pesquisa realizada pelo Governo do Estado, que diz que a maioria da população de Salvador – cerca de 70% -  simplesmente não brinca o carnaval.

Então, pra quem é feita essa festa? Qual é esse bem-comum que justifica o exôdo ou isolamento da maioria?

Pra quem mora no circuito do carnaval – Campo Grande, Vitória, Barra, Ondina – não há possibilidade de descanso durante sete dias e sete noites porque o som não pára.

Eu já disse isso. Já vi esse filme. Se não quiser assistir a esse filme, tenho de gastar dinheiro pra sair da minha casa. Não tem escolha. Ou tem, que é a vigília compulsória.

E há ainda as ruas intransitáveis, a sujeira, o cheiro mixado de xixi, cerveja e líquidos afins, e toda uma estratégia que o cidadão tem de armar pra sair à rua, pois, em determinados lugares e horários,  a gente fica ilhado entre engarrafamentos de gente e carros.

No pós-carnaval, é comum a onda de gripe que ataca os que circulam pelas avenidas antes infestadas.

Parece haver muito pouca semelhança entre a velha fobica de Dodô e Osmar, modesta, e os verdadeiros monstros de som que tomam as ruas de Salvador nos dias de folia, provocando um engarrafamento de trios elétricos.

O velho Osmar quase todo ano, mesmo tendo inventado, junto com Dodô, o trio elétrico, sempre precisou pedir, publicamente, apoio financeiro pra sair no carnaval. Porque, então, os que utilizam a invenção, nunca pagaram a ele, a Dodô, e  a seus filhos uma porcentagem do que lucram todo ano?

Alguém pode dizer que sou o chato que não curte carnaval e estou metendo o bedelho em conversa alheia.

Mas sou baiano, e resido em Salvador, uma cidade que agoniza entre a vocação edênica e o crescimento desordenado. Espero que o novo prefeito esteja atento às demandas que surgem desse paradoxo.

Aprendi a respeitar a legitimidade da música que se faz no carnaval da Bahia, que pode ser viva, forte, criativa e popular, o contrário do que já ouvi dizer um coordenador do carnaval, durante um debate entre músicos, que afirmava que a axé-music é ruim, porque o povo gosta de coisa ruim.

Pode ser até a Nona de Beethoven em alto volume, num lugar público, que não deixa de ser barulho.

Não sei como vai ser esse outro carnaval de que fala o novo prefeito, mas pelo menos não será no circuito tradicional.

Talvez devesse ser no Centro Administrativo da cidade, onde acontece um carnaval – este sim, silencioso – durante o resto do ano, decidindo nossos destinos.

Contando com todo evento onde apareça um trio elétrico no Campo Grande (na verdade, um caminhão com som potente), são muitos e pequenos – mas significativos – carnavais por ano, sem pedir licença.

Às vezes, na janela do sexto andar do apartamento onde moro, diante do barulho de um trio elétrico, cada vez mais comum durante o ano – dia da Consciência Negra, Parada Gay, Domingo de Ramos, inconsequências ambientais – impotente e sem voz, tenho delírios e visões do que deve ser o Inferno de que falam os religiosos.

O Inferno deve ser uma sucessão de trios elétricos, tocando sem parar, cada qual o seu som.

E eu devo estar pagando pelos meus pecados.