Vamos viver de brisa: eu, Caetano, Mano Brown, Castro Alves, Manuel Bandeira, Johnny Alf e Roberto Carlos, que – dizem os jornais – comprou uma casa em Salvador, para – digo eu – curtir a brisa. A brisa da Bahia há de nos beijar e balançar no semfim.

Eu não imaginaria que, beirando os cinquenta, estaria cantando o repertório da juventude de Roberto Carlos com Morotó Slim, Rex, Juliano Oliveira e Nuno Ricardo, nosso Elvis. Os Sete Cabeludos – título tirado de um rock - são, na verdade, cinco marmanjos nem tão cabeludos, mas os meninos tem a manha e a pegada. Não tenho como reiventar o Rei. Eu quero mesmo é cantar iê iê iê, como dizia outro baiano. E reaprender sempre com o seu canto, humilde e divertidamente.

Quero que vá tudo pro inferno foi a minha cantiga de roda, rodando sem parar na radiola Zilomag que tínhamos em Jequié. Zilomag, meu Rosebud. Jequié, ainda na estiagem. Ver o Rio Jequiezinho seco, pelos jornais, deixou meu coração apertado.

Eu queria ser civilizado como os animais. Crustáceos sentem dor. Cientistas fizeram um experimento com choques elétricos em caranguejos pra provar que eles sentem dor, o que, admitem, é impossível filosoficamente de provar, dizem os jornais.

Na terra do meu pai – Salinas da Margarida, que fica no Recôncavo baiano – as pessoas jogam os bichos vivos na panela quente, fervente,  e eles vão mudando de cor e morrendo cozidos, semelhante ao que a Igreja fazia com as bruxas: no fogo. 

Vi o filme de Carl Dreyer, Dias de Ira, que fala da caça às bruxas, e  aquela linguagem  reduzida (ampliada) ao essencial me lembrou João Gilberto, pai do canto de Roberto Carlos. Talvez, por isso, ao ouvir pela primeira vez, João, eu não tenha me espantado, pois o seu canto já estava disseminado em Roberto, Edu Lobo e Caetano.

Caetano falou da nossa brisa, e de como os linguistas são leninistas, mas não era assim com os linguistas que conheci na Universidade Federal da Bahia, quando cursei Letras: Nelson Rossi e quase um harém intelectual de Rosas, Veras, Jaciras, Carlotas, Sônias e Suzanas, sem falar em Emiliana e Claís, do Departamento de Fundamentos.  Eram uma lufada de brisa pra quem pensava que a norma culta era a única norma.

Fui ler Marcos Bagno e não curti seu romance pedagógico. As personagens ficam edulcoradas nesses livros que tentam ser úteis. Mas, lendo seu livro mais teórico, gostei de ver como ele aponta o quanto Monteiro Lobato foi avançado ao tratar da Gramática   para os pequenos. Eu fui desses que aprendeu com Lobato, hoje acusado de racismo. 

Lobato tem um livro eugenista pra adultos, e um conto, Negrinha, tocante, e sensível à questão do racismo. 

Dia desses, no caminho da praia, presenciei uma cena curiosa e tensa junto a um caixa eletrônico que fica na Barra. Um mulato claro, cabelos crespos, óculos escuros, vestido de camiseta sem manga e short grande, ares de descolado, desafiava um segurança desses que vigiam carregamento de dinheiro. 

- Você pensa que é melhor que eu só porque estou vestido assim? Eu tenho dinheiro!

Cheguei quando o sujeito havia começado a gritar, e só pude suspeitar do motivo que levou o mulato a desafiar o homem que, aliás, estava armado, o que só fazia aumentar a tensão. Mas, de verdade, não havia discussão. Só o mulato gritava sem parar e o segurança se mantinha impassível.

O outro, no entanto, não parava:

- Atira em mim, atira! Atira, se tem coragem!

O cara não tinha pudor de provocar o homem fardado, cabelo cortado bem curto, pele de tez escura, semelhante à de um indiano.

O segurança, no entanto, continuava quieto, como se não ouvisse os gritos do seu opositor.

Confesso que admirei a coragem do gritador que, mesmo, diante do cano da arma, não cessava de provocar. 

Como o guarda não saía do seu lugar e da condição de impassibilidade, o mulato claro não contou conversa e passou, de oprimido a opressor:

- Sabe porque você taí de segurança? Porque você é preto! Preto, preto, preto!

O preto não se abalou, o mulato foi embora e eu segui meu caminho, em silêncio, atrás da brisa.