Eles são muitos, uma multidão de solitários.

Exilados na própria terra, mas baianos como nunca, pois são abusados, atrevidos e maliciosos.

No trato pessoal, podem ser doces e tímidos.

Bem que a solidão e isolamento em que viveram – e vivem, não tanto quanto antes – lhes traz uma aura de (anti) heroísmo.

Ao contrário do que possam pensar os que os conhecem só de ouvir falar, são vastos e variados, espécimes diferenciadas.

Quando se aproxima o carnaval, aí é que eles somem mesmo. Alguns ficam em casa, fechados. Outros partem. E uns poucos admitem curtir a festa de leve.

Tem a fama de barulhentos, mas, se comparados aos decibéis dos trios elétricos, seu lamento soa débil.

Débil, mas pulsante.

O pulsar quase mudo de que fala o poeta Augusto de Campos, abraço de anos-luz

Filhos ilegítimos e abastardados da boa terra, são o que existe e falta, parafraseando Rogério Duarte.

Invisibilizados, de vez em quando, um mais atrevido assoma à superfície, faz uma graça pra chamar a atenção, mas não lhe dão tanta trela, e ele volta ao casulo.

No casulo, entretanto, preparam pacientemente a saída do estado larvar.

Alguns já saíram desse estado, conseguiram alcançar a condição de mito, mesmo à custa da morte, e, contrariando os prognósticos, têm o túmulo visitado todos os anos em datas de aniversário de vida e de morte.

Alguns têm trabalho alternativo, fazendo de conta que mudaram e se juntaram aos legitimados, mas, na verdade, continuam ensaiando um retorno que talvez nunca aconteça, feito Prometeu que, por ter dado fogo aos homens, tem o seu fígado comido eternamente.

Eu sou um deles, às vezes nem me reconhecendo como tal.

Mas quando vejo, casualmente, deslocados do contexto de onde os conhecia, outros da mesma espécie, sinto-me estranhamente irmanado.

Deve ser o que chamam de pertencimento.

Ou sensação de despertencimento, deslugar.

Sensação, no entanto, que nos mantém vivos.