Quinzena passada, escrevi um post melancólico – quase um poema em prosa – sobre a solidão e solidez do rock baiano, tudo porque, casual e recentemente, reencontrei  um colega dos tempos do rock que hoje tem um emprego burocrático e não gosta do que faz. Era um sujeito talentoso, e fiquei pensando em quantos deixaram de se apresentar simplesmente por falta de um mercado, no Estado da Bahia, que dê conta dos talentos emergentes e submersos.

Enamorado do rock, também por conta da atual convivência com a dupla formidável,  Morotó e Rex – egressa dos Retrofoguetes Dead Billies, bonfinenses como nunca e como sempre – além de Nuno, o baixista angolano louco por Elvis, e Juliano, o mais novo entre roqueiros velhos,  formamos Os sete cabeludos pra cantar o Roberto Carlos juvenil.

Mas nunca fui partidário do cisma entre rock e música brasileira, representado, na Bahia, pelo Camisa de Vênus – que acabou deixando também seus orfãos. Hoje só uma pequena parte insiste nessa de brigada do rock – ainda bem! –  mas o fato é que o mercado ainda é incipiente e monocultor. 

Talvez eu esteja ficando velho, como tudo que vive, ou remoçando, mas sempre curti o rock presente naquele show e filme dos Doces Bárbaros, filmado em 76, relançado depois com som bom, fazendo a gente ver e ouvir tudo mais claro. Ali tem rock e candomblé e tudo funciona. O cd Nuvem Cigana, dedicado à obra de Ronaldo Bastos e parceiros do tempo do Clube da Esquina que, sem programas ou manifestos, tem rock também, disseminado. O rock entre as coisas.

Em um antigo carnaval – mais de vinte anos atrás – meu amigo e cunhado Paulo Moreno disse que ia me botar na folia, e cumpriu o prometido. Não me adequei àquele universo, mas presenciei, atrás do Trio Armandinho, Dodô e Osmar, o povo dizer forte  o grito de guerra de Marcelo Nova, do Camisa, o "bota pra foder", sem chamamento anterior de ninguém. O coro veio espontâneo, e não se insurgia contra o Trio, antes apoiando-o. A palavra de ordem do roqueiro disseminou-se na multidão carnavalesca. O rock é uma coisa.

O carnaval é outra coisa? Uma semana antes do carnaval, na Praça Dois de Julho, o Campo Grande, um homem velho de andador caminha pelo asfalto sem calçada, entre carros e gente. A construção do camarote oficial simplesmente ocupa o espaço da calçada, e os pedestres, tenham ou não problemas de locomoção, tem de batalhar espaço para andar entre carros, em um bairro movimentado da cidade.

A praça, onde, de manhã cedo, tradicionalmente, gente faz cooper, tai-chi e há grupos de idosos na prática de exercícios vários, deixa de ser frequentada nesse período, pois as estruturas e alicerces dos camarotes invadem os espaços , tornando impraticável a frequência habitual. É até temeroso andar pelo interior do espaço público, pois a altura dos camarotes funciona como cerca, tornando invisível o eventual passante e labirínticos os (im)possíveis caminhos.

Mas o homem do andador não desiste e continua seu caminho, assim como um outro de muletas.

Acabo de ver, na Tv, o prefeito  declarar que esse mesmo circuito do Campo Grande vai ser invertido no ano que vem. Em vez das atrações partirem do Campo Grande, vão sair da Rua Chile – onde termina o percurso – para terminar na praça onde resido, sem sossego, nesta época do ano.

Inverter o percurso do Circuito Osmar não vai torná-lo mais dinâmico. A tradição não mais sustenta uma terça de carnaval que, este ano, acabou antes de meia-noite. O circuito Barra- Ondina (também tenho pena dos residentes da área!) é o preferido das atrações do Carnaval porque é maior e mais adequado ao tamanho da festa.

Mas, se o prefeito quer mostrar coerência e comprometimento com a democracia, tem de pensar em levar o circuito do carnaval para uma área onde não haja residências, já que, repito, 70 %  da população da cidade não vai pra rua participar da festa, segundo dado das pesquisas do Estado.

Ou então estará fomentando, em caráter oficial, o estado de coisas que faz o velho de andador penar no asfalto, sem calçada nem beira.