Em 1977, tinha eu 14 anos de idade, idade de descobrimentos, mas não tinha ainda despertado para a grandeza de Vinicius de Moraes.

Música era um interesse a recomeçar, ainda incipiente, quando passou na Tv Globo um Sexta Super – Brasil Especial, dedicado ao poeta e compositor. Todo mês, a Globo fazia programas com compositores brasileiros consagrados e duravam uma hora, mas esse de Vinicius teve duas horas, divididas em duas edições.

Meio virgem do enlace das canções, ou, pelo menos, não conscientemente apaixonado, vi Vinicius e seus parceiros Tom Jobim, Carlos Lyra, Toquinho e Edu Lobo, tocando juntos, com som direto – sem dublagem ou playback, como era de costume nos programas da Globo – no bem à vontade, só mais tarde eu saberia, proporcionado pela direção de Fernando Faro. 

Sim, Faro, o Baixo, criador do Ensaio, era o homem por trás daqueles especiais de música da Sexta Super, e eu já gostava daquilo de relance, sem que ainda fizesse parte de minhas prioridades. Por isso é que aquela turma estava tão relaxada, era um encontro de amigos: Vinicius, seus parceiros e o Baixo.

Semanas atrás, o canal fechado Globo News exibiu o Arquivo N, sobre os cem anos de Vinicius, e a maioria das imagens era tirada daquele especial dirigido por Faro. Deu emoção, mas senti uma falta: emoção de rever, redescobrir a beleza daquilo tudo que eu apenas intuía, e falta por ver o programa do Baixo picotado e incompleto.

Os programas  Ensaio - e tudo que Fernando Faro fez e faz – são o oposto dessas edições de meia hora, bem em voga nos programas de tv dos canais fechados. A câmera de Faro se demora no artista, perscrutando seu rosto, emoções e entrelinhas, namorando-o, fazendo a gente se enamorar também. E enamoramento pode ser à primeira vista, mas demanda tempo pra paixão se instaurar. Foi bom rever Vinicius e parceiros, mas foi pouco.

O programa deu conta de dedicar minutos a cada parceiro – dos mais frequentes – de Vinicius: Carlos Lyra cantando Minha namorada, Vinicius e ele em Primavera; e foi um barato ouvir e ver da boca dos proprios protagonistas – Vinicius e Tom – a história tantas vezes recontada de quando Lúcio Rangel os apresentou, pensando em Tom para fazer a música da peça Orfeu da Conceição, da qual Vinicius faria o texto. O maestro teria perguntado ao poeta e diplomata se entraria "um dinheirinho nisso", o que fez Lúcio reagir com indignação:

- Como é que você faz uma pergunta dessa pro Vinicius de Moraes?

Tom, entre risos, diz que era pobre, e vivia com a pasta cheia de arranjos que fazia pros cantores etc. Após esse encontro, a dupla compôs as canções da peça, e mais canções como Chega de saudade - que veio a ser pedra fundamental da Bossa Nova – cantada por João Gilberto, a peça que faltava e, como se diz, o resto é história.

Por que essa edição de duas horas do Brasil Especial não é relançada em DVD, na íntegra? São cem anos de Vinicius, o poeta mais popular do Brasil, o homem que, antecedido por Orestes Barbosa, elevou o letrista de música popular à condição de estrela,  e injetou paixão na aparente amenidade bossa novista. Quase em oposição a Orestes, que cobriu a canção popular de um viés literário, Vinicius foi se despindo de qualquer ranço e, mesmo cantando o primado da paixão, tornou-se um letrista cada vez mais coloquial.

Vinicius e Tom foram brilhantes. Vinicius e Carlos Lyra, de emocionar. Vinicius e Baden inventaram os afro-sambas. Vinicius e Toquinho foram pop: faziam trilha de novela, apareciam na tv, e era uma coisa ver aquele velho de bata, barrigudo, cabelos até os ombros, copo na mão, neo hippie alto astral. Suas músicas com Toquinho tem uma capacidade de comunicação comparável às primeiras canções de Lennon & McCartney, da fase iê iê iê dos Beatles.

O que seria do som dos barzinhos sem a Tarde em Itapoan, primeira música da dupla?

O que seria do nosso romantismo, sem Minha namorada, de Vinicius e Lyra?

O que seria da nossa identidade sem os afro-sambas?

O que seria da gente e do Brasil da gente sem Vinicius e Tom?

O que seria da poesia brasileira sem o Soneto da Fidelidade, aquele do verso "que seja eterno enquanto dure"?

A gente não existiria sem Vinicius de Moraes.