para João

O universo é mais antigo que se imaginava – 13,8 bilhões de anos, e está ficando velho: o primeiro Lp dos Beatles completou cinquenta anos de lançado semana passada. Mas o disco, objeto (in)animado, tem uma vantagem sobre o animal humano; pode ser clonado sem grilos existenciais e repaginado a contento, pois o viço se mantém. No Cd remasterizado, o coroa está enxuto. E estão mantidos efeitos de eco e outras características das gravações daqueles tempos.

Quem imaginaria, naqueles tempos – 1963 – em que o rock & roll parecia ser uma onda descartável, como o twist ou o hully-gully, que estaríamos ainda falando daquele grupo de quatro caras com cabelo de joaninha que pareciam, de relance, como disse Paul McCartney, quatro partes de um mesmo ser?

Graças aos Beatles – e a seus pares, mas por eles e Dylan, principalmente – o rock perdeu a palavra roll  e ficou adulto. Poderiam ter pagado o preço pelo pioneirismo, por iniciar a invasão britânica nos EUA, mas souberam se manter na vanguarda do rock e da música popular do seu tempo, fundamentando o pop potencialmente futuro, pela atitude aberta às experimentações, só – o que pode parecer contraditório, mas não é – aumentando a sua popularidade.

Talvez o som dos Beatles não pareça datado porque a música pop, ainda hoje, é um resultado imediato de suas conquistas e arrojos. Sons exóticos, desenvolvimento de técnicas de gravação, até música eletrônica etc. E/ou então, porque eles souberam dosar o uso de efeitos e tecnologia, sem sacríficio da espontaneidade. Os Beatles souberam se sofisticar, sem deixar de ser simples, a serviço das canções, as canções a seu serviço. Como compositores, eles são imbatíveis, mesmo com  contemporâneos e conterrâneos de peso, como Jagger & Richards e Pete Towshend.

Quando os Beatles lançaram Please please me, o Lp, o que importava, para os grupos de música pop, eram os singles, chamados, em português da época, de compactos, e o compacto com a música que dá título ao álbum já tinha sido lançado, alcançado seu primeiro lugar na parada inglesa, alçando os Beatles à categoria de astros. O Lp (de "long-playing", em oposição aos compactos com duas músicas, geralmente) foi gravado para dar ao público crescente mais um produto.

George Martin, o produtor, botou a banda pra gravar, em apenas um dia/ noite, dez canções (as quatro restantes tinham saído em dois compactos), reproduzindo o que eles já faziam há quatro anos nos palcos da Inglaterra e de Hamburgo – na Alemanha -, a cidade que os tornou performers. Portanto, o Please please me Lp  é como se fosse a gravação de um show – só que em estúdio – a começar da contagem inicial da primeira faixa, I saw her standing there, canção assinada por Lennon & McCartney.

Também não era comum grupos pop ingleses gravarem material da própria lavra, mas George Martin confiou no taco do grupo e bancou mais essa inovação, ao aceitar gravar o single Please please me,  também canção da dupla. Please please me, a canção – quando se descobre que era originalmente, inspirada em Roy Orbison, mais lenta – transforma-se, graças ao arranjo, (e aí temos outro talento da banda, o "vestir" as canções) de suplicante a sensual. A profusão de "C'mons c'mons (vamos, vamos!) puxadas pelo solo vocal  de John, com as respostas de Paul e George, perfazem um crescendo que sugere um orgasmo na sequência de acordes do fim.

A letra sugestiva ( em tradução livre – "Noite passada eu disse essas palavras pra minha garota/ Eu sei que você nem tenta/ Vamos…vamos…vamos/ Por favor, me dê prazer como eu te dou") fez Robert Christgau e John Piccarella, do Village Voice, dizerem que esta é uma canção sobre sexo oral. Aquelas garotas todas gritando na plateia pareciam saber, intuir, sentir o recado.

Os Beatles se consideraram, desde sempre, uma banda de rock & roll, mas os covers do primeiro Lp, em vez de Chuck Berry, Little Richard ou Elvis – a primeira geração do rock – são de artistas do rhythm'n blues, como The Shirelles ou The Cookies, grupos vocais femininos. Os Beatles, ao reinterpretar essas canções, não pretendiam fazer releituras radicais, e acabaram, pela vivência que tinham desse repertório, demonstrando a diferença entre rhythm' n blues e rock and roll, que vem dar em rock, simplesmente: apropriação algo indomada, de matrizes americanas, negras  e caipira/brancas.

Herdeiros do rock and roll, sem deixar de estar atentos a outros gêneros, é outra característica  por onde se pode tentar decifrar a mágica dos Beatles. O cover de A taste of honey, cantado com maturidade expressiva por Paul, é quase uma antecipação das canções doces que ele comporia e estariam presentes nos Lps seguintes : And I love her, I'll follow the sun, Yesterday, Michelle  e Here, there and everywhere. Segundo o biógrafo Bob Sptiz, Paul teria preferido gravar a nossa latino-americana Besame mucho, mas cedeu à vontade de George Martin.

No final da sessão de gravação, faltava ainda uma faixa, que acabou sendo Twist and shout, outro cover, desta vez dos Isley Brothers. John Lennon, que fez o solo vocal, estava resfriado -  nas dez faixas da sessão, sua voz está mais nasal do que de costume – e só aguentou fazer um take. Deu tudo de si – o que conferiu à música uma interpretação, antológica, rasgada, surpreendente – e ficou sem voz.

Era apenas o começo de uma história sem precedentes : os Beatles, após esse Lp, se desenvolveriam como nunca enquanto compositores, intérpretes, arranjadores e tudo o mais, se tornando o mais popular e influente grupo da música pop, fazendo discos diferenciados e ricos, até o final da banda, decretado por McCartney em 1970.  A banda tinha, ainda por cima, uma personalidade crítica como Lennon, pensador inquieto do rock, influenciado por Dylan – que, por sua vez, se deixou influenciar por eles.

Please Please me foi o começo de um sonho que acabou, como decretou o próprio Lennon, em 1970. Despertos, no entanto, nunca mais fomos os mesmos, crescidos de coração.