Um policial canadense, em uma palestra na cidade de Toronto, declarou que as mulheres que não quisessem ser estupradas deveriam evitar vestir-se como vadias. Como se a culpa de um ato sexual violento contra mulher, de um “tomar posse” do corpo dela tal qual um objeto, fosse culpa dela mesma.
A reação contra a palestra foi uma série de protestos, a partir do dia 3 de abril de 2011, que partiram do Canadá e se tornaram mundiais: em diversas cidades do mundo as mulheres saíram sem roupa, ou vestidas como poucas roupas, ou ainda carregando cartazes contra a violência nas chamadas Marchas das Vadias (Slut Walks, em inglês; Marcha de las Putas, em espanhol). Vinte cidades brasileiras participaram do ato, assim como Buenos Aires e La Plata, na Argentina, com grande adesão.
As marchas provocaram, assim como ainda o fazem, opiniões totalmente controversas. Há os que as apoiam totalmente, os que dizem que a maneira de vestir em determinados lugares tem a ver com saber calcular os riscos (ou seja, creem que as mulheres deveriam mesmo ter cuidado ao se vestir), há os que criticam o nome da marcha e a falta de entendimento do que ela representa para quem a vê passar. De qualquer maneira, é fato que o tema da violência contra o corpo da mulher foi muito debatido a partir das marchas, e talvez essa seja a maior conquista das Slut Walks.
Neste domingo, em Buenos Aires, a Marcha das Vadias teve sua segunda edição. Começou com uma concentração na Praça de Maio, ao som de bandas como a Panza, que tem músicas que discutem questões de gênero: “se ser masculino é não entender a mulher, si ser feminina é aguentar e não comer, se ser masculino é alimentar a mulher, se o feminino é um adorno para expor, eu não sou…”, diz a letra de DNI, uma das entoadas no palco improvisado.
A marcha teve uma participação numerosa de muitos homens e mulheres, ainda que um tanto tímida para um protesto. Entoou-se gritos de guerra, enquanto alguns dos homens caminhavam de saias, e umas poucas participantes circulavam totalmente sem blusa, com frases escritas pelo corpo, em um simbólico ato de despir-se para proteger o corpo.
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Enquanto umas tiram a roupa para protestar, outras não encontram roupas para se vestir. Durante a manifestação, soube do projeto Any-Body, que tem uma filial na Argentina É ligado ao Endangered Bodies (Corpos em Risco), que nasceu mais ou menos na mesma época – na verdade exatamente um mês antes – que as Slut Walks. Tem representação em São Paulo, no Brasil, além de Nova York, Sidney e Londres, entre outras cidades do mundo.
É um projeto também preocupado com o corpo da mulher, apesar de ter uma proposta totalmente distinta da marchas. Não é tanto focado na violência contra o corpo, mas sim na autoimagem feminina e em campanhas para que as mulheres deixem de buscar ideias surreais de beleza (ou seja, deixem de tentar parecer modelos mortas de fome e photoshopadas).
Dois dados são particularmente preocupantes quando se trata da autoimagem das mulheres na Argentina: o primeiro é que o país, até a última pesquisa divulgada, estava em segundo no mundo entre os que têm mais casos de anorexia. Segundo no mundo, só atrás do Japão. O segundo dado, diretamente derivado da cultura da magreza que provoca o primeiro, é que as mulheres que não são super magras não encontram roupas para comprar. A Any-Body estima que nada menos que 70% das argentinas não entram nas roupas que são vendidas nas lojas do país.
Existem “leys de talles” (leis que regulam o tamanhos das roupas fabricadas), mas elas raramente são cumpridas, além de variarem muito entre os municípios argentinos e de usarem como molde corpos estrangeiros que não correspondem às medidas das argentinas. O resultado é que as marcas produzem roupas pequenas demais e as mulheres sentem que precisam ser magras o bastante para estarem na moda. É um ciclo vicioso para o qual a Any-Body tenta chamar a atenação. É poder vestir-se como forma de proteger o corpo que você quer ter.
