
Ninguém é bom o tempo todo. Um perfil, uma biografia ou um documentário sobre uma pessoa precisa mostrar seus erros, seus defeitos, suas manias e seus maus caminhos, ao lado de suas conquistas. Em resumo, precisa mostrar a humanidade do personagem principal. Qualquer coisa diferente disso é um trabalho raso ou uma peça de propaganda.
Amanhã estreia em 120 salas da Argentina Néstor Kirchner, la película, um documentário sobre a vida do falecido ex-presidente Néstor Kirchner. A regra acima não vale para o filme: Kirchner é retratado como um ser quase perfeito, sobrehumano. Não é só bom presidente, mas bom militante, marido incentivador, pai carinhoso para seus filhos e para todos os pobres de seu país (pra alguns deles manda presentes ou faz ligações pessoalmente, segundo os relatos). Ajuda a Argentina a sair da crise e lhe sobra energia para empurrar o carro de seus amigos empacado na neve. Um verdadeiro herói.
Seu único defeito, na visão do filme, foi ser feio. Sim, a única coisa de que Kirchner é acusado ao longo de uma hora e meia é de ter sido feio demais para ter tido uma esposa tão linda como Cristina Kirchner, a atual presidente reeleita e sua viúva (mas é claro que todas as suas outras qualidades superam esse pequeno detalhe).
Kirchner é realmente considerado por muitos um dos melhores presidentes que a Argentina já teve, mas alguém já ouviu falar de um político que não foi acusado de absolutamente nada? Que não errou ou mudou de ideia? Que não teve crítcos? Kirchner nunca foi um santo, mas desde sua morte, há dois anos, há uma movimentação cultural e política no país que tentar elevá-lo a essa qualidade e que torna este tipo de documentário possível..
A presidente Cristina tem o costume de chamá-lo simplesmente de “él” em seus discursos. “O que
ele queria, o que
ele sonhou para nosso povo” etc. O nome d’
ele já batizou de tudo no país, de túneis a torneios de futebol (leia mais
aqui) e criou-se a imagem do Nestornauta, que o compara a um dos heróis nacionais dos quadrinhos (leia mais
aqui). No documentário, quando
ele morre (juro que é verdade) uma porção de eleitores/fiéis vê cair do céu umas estrelinhas benditivas.
Além disso, o documentário não se preocupa em explicar muito. É necessário um conhecimento prévio de história política da Argentina pra entender metade das cenas – inclusive a morte de Kirchner —, o que faz o filme ter ainda mais ares de uma propaganda para militantes. Kirchner aparece, por exemplo, ao lado de um militar mandando tirar uns quadros da Casa Rosada, a sede do governo. Quem conhece a história sabe que ele pediu que os quadros de ex-ditadores militares fossem recolhidos. O filme não é pra quem não sabe.
Para completar, Néstor Kirchner, la película apoia as campanhas mais famosas do governo de Cristina,como sua briga com o grupo Clarín pela adoção da “lei de médios”, a lei de imprensa argentina.
Cristina não deu entrevistas para o documentário, nem foi à pré-estreia. Mas mandou mensagem agradecendo a diretora, Paula De Luque, por seu trabalho. Os jornais argentinos criticaram o partidarismo do filme: a diretora respondeu que é uma produção independente, não necessariamente kirchnerista e que tudo o que aparece lá é sua visão dos acontecimentos.
Talvez seja, mas é fato que o filme foi embargado uma vez por seu conteúdo. Antes, o documentário estava a cargo do diretor uruguaio Adrian Caetano, radicado na Argentina, que foi cortado da produção por “diferenças quanto ao conteúdo político”. Caetano declarou que não lhe serviria “para nada um documentário de propaganda” e que “o filme estava preso em um dogma muito forte que fazia com as coisas não fossem ditas explicitamente”. Disse também que o governo não teve nada que ver com as divergência e que as limitações impostas vinham dos produtores.
Um dos produtores é o deputado kirchnerista Fernando “Chino” Navarro. Navarro nunca escondeu que queria um filme militante. Declarou que o documentário deveria ser “a melhor homenagem que Cristina pudesse imaginar sobra a vida de Néstor”. Máximo Kirchner, filho do casal, criador da organização kirchnerista La Cámpora e um dos principais entrevistados, adorou. “Não mudaria nada”, disse. Claro que não