Em uma das primeiras aulas de tango que fiz, o professor me chamou a atenção por querer me movimentar sem a “ordem” do meu par. “Não é papel da mulher pensar”, me disse o professor ao corrigir minha postura para depois rir da minha cara de inconformada (“era o que me faltava uma pessoa me dizer isso no século 21”, pensava eu).
Mas no tango, assim como na maior parte das danças de salão, é verdade: a mulher não pode pensar, ou tomar decisões; tem de ser levada pelo parceiro o tempo todo, se não quiser que os dois tropecem pela pista. Além disso, como sabemos, um homem tem de dançar com uma mulher. Homens não dançam com outros homens nem mulheres com outras mulheres.
Como acontece em algumas outras áreas, vem da comunidade homossexual uma proposta diferente. No Festival Tango Queer, que aconteceu na semana passada em Buenos Aires, mulheres podem dançar com homens ou com mulheres (e não precisam ser lésbicas para isso) e homens podem dançar com homens ou com mulheres (com a mesma ressalva). O casal é que decide quem leva quem.
Se por um lado a ideia parece revolucionária, por outro é uma releitura do que acontecia nas origens do próprio tango. No começo, o tango era dançado entre dois homens já que os bordéis, onde normalmente era praticado, não eram frequentados pelas mulheres da alta sociedade. Ou seja, dançavam entre eles (foto aqui) porque as mulheres não podiam dançar. Entre 1910 e 1920 começaram as normatizações dos passos da dança – e foi então que decidiu-se que os homens levariam e as mulheres seriam levadas: um reflexo da sociedade da época. .
Mariana Docampo, uma das organizadoras, diz em entrevista (que está no site do festival) que o “o tango queer, em primeiro lugar, questiona a formação da dupla de baile. Em segundo lugar, coloca em dicusssão o papel que você quer ocupar. Tem a ver com qual é o papel que uma mulher e um homem têm que cumprir na sociedade, o tango reflete essas questões”.
Ela também fala que no festival se vê maior dificuldade entre as mulheres para dançar entre elas – já que nas aulas nunca aprendem como “levar” uma pessoa, sempre como “ser levadas”. Mas com um pouco de esforço, tudo dá certo (veja vídeos do festival aqui). Imagine que divertido o mundo em que todo mundo pudesse ser um bailarino completo das danças de salão – e as novas formas e passos que poderiam sair daí.
